Boxeador Harry Haft tem merecida homenagem em obra de quadrinhos

Boxeador judeu que lutou nos campos de concentração da Segunda Guerra Mundial e contra Rocky Marciano rende HQ que choca e comove

Números são precisos. São frios. As ciências exatas não dão margem. No esporte indicam o resultado, não o percurso. No boxe, o judeu Hertzko Haft, mais tarde, nos Estados Unidos, Harry “Herschel” Haft, teve números discretos como profissional: 12 vitórias, sete delas por nocaute; e oito derrotas, sendo cinco por nocaute.

Só esses números jamais motivariam alguma história. Mesmo ela sendo incrível, como a de Haft, que durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), fraco e mal alimentado, lutou para entreter alemães, em Auschwitz, campo de extermínio localizado na Polônia. Que bom que o quadrinista Reinhard Kleist, com seu incrível trabalho de pesquisa (em cima do livro de Alan Scott Haft, “Um Dia, Eu Contarei Tudo”), trouxe a vida a HQ “O Boxeador — A História Real de Hertzko Haft”.

A obra, narrada pelo próprio Haft ao seu filho Alan, foi lançada em 2012 pela editora dinamarquesa Carlsen Verlag e, em 2013, no Brasil pela 8Inverso. O material é vencedor do Grande Prêmio 2013 do Festival de Quadrinhos de Lyon e o Prêmio Peng! 2013 do Festival de Quadrinhos de Munique.

Trama

Além da curta carreira de Haft como boxeador profissional nos Estados Unidos — lutou de agosto de 1948 a julho 1949, quando pendurou as luvas após ser derrotado por Rocky Marciano —, o material traz a história do judeu polonês durante a Segunda Guerra Mundial. Ele tinha 14, quando os alemães ocuparam Belchatow, Polônia, em setembro de 1939. Na época, Hertzko era um “traficante” de comida.

Mas essa não é a parte mais importante da história, que traz a crueldade da guerra, mas também a beleza do amor (e suas dificuldades naquele momento) — na verdade, esse sentimento manteve Harry vivo em momentos sombrios.

Antes dos 16 anos, o judeu foi enviado a um campo de concentração para trabalhos forçados, mas cruzou com um alemão chamado Kareller, de quem ganhou a simpatia. De fato, um ponto interessante é a humanização a qual se dá a este nazista, em particular, que só está ali por sobrevivência. “Se você pudesse escolher, de qual lado ficaria?”, indaga a Haft em certo momento.

Harry “Herschel” Haft: boxeador de altos e baixos

Inclusive, é Kareller que arranja as lutas para o judeu, já em Auschwitz. Ele o auxilia em diversos momentos da história. De fato, o alemão já sabia que a guerra não ia bem e queria uma retribuição de Haft no futuro.

Hertzko chegou a lutar todos os domingos, às vezes até por seis vezes em um dia com adversários tão ou mais fracos do que ele. Reinhard traduz bem a magreza e debilidade dos personagens em sua arte gráfica.

Guerra

Mas a história não é meramente sobre boxe. É sobre sobrevivência. Nas 198 páginas do quadrinho vemos os sacrifícios e o esforço para sair do inferno que foi a guerra.

Entre os relatos exibidos, execuções não faltam. Em determinada cena, um soldado arremessa um bebê, que rebate no carro e, ao cair no chão, é alvejado por tiro, tudo diante do protagonista. É angustiante ver os horrores da guerra que, este ano, completa seus 80 anos de início — 1º de setembro de 1939.

Seres humanos tratados como animais em vagões de gado, trabalho forçado em diversos campos de concentração em uma escalada de terror — em um deles, Haft trabalhou com a cremação de corpos humanos. Ele já tinha visto ao longe a fumaça escura, que saía da chaminé da sinistra fábrica.

Porém, apesar de toda falta de humanidade, o pugilista faz o possível e impossível para sobreviver. E consegue.

Pós-guerra

Após a guerra, Haft vai para os Estados Unidos e lá decide tentar a vida como lutador. O objetivo é romântico, mas não vou dizer exatamente qual. Em menos de um ano ele faz 20 lutas, vencendo as dez primeiras. Parecia promissor, mas derrotas consecutivas começam a minar não só seu espírito, mas também o de seu empresário.

Reinhard Kleist: autor dos quadrinhos sobre Harry Haft

Por influência própria, ele consegue a luta contra Rocky Marciano (um dos lutadores mais celebrados da história), que seria sua última. Já na Rhode Island Auditorium, em Providence, uma ameaça — jamais comprovada — muda tudo. Haft perde por nocaute técnico no terceiro round. Mais de 40 anos se passa até que o judeu conte toda a sua história a Alan, seu filho, que renderia um livro e esta HQ.

Obra e autor

“O Boxeador”, por incrível que possa parecer, é, sobretudo, uma história de amor. Um amor interrompido pela guerra, jamais esquecido. É redundante dizer que mesmo os finais felizes de obras relacionadas à Segunda Guerra Mundial são tristes. Aqui não é diferente.

O autor, Reinhard Kleist, é também o quadrinista responsável por “Johnny Cash — Uma Biografia (2009), “Elvis” (2010), “Castro” (2011) e muitas outras. Dificilmente tão comoventes como “O Boxeador”.

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