“Bonequinha de Luxo”, de Truman Capote, chega aos 60

Novela que consagrou o escritor americano como esteta literário, em 1958, continua com o mesmo encantamento, com um personagem que é só memória, mas que surge quase palpável diante dos olhos do leitor, e apaixonante

Cena de “Bonequinha de Luxo”, baseado na novela homônima de Truman Capote, com Audrey Hepburn no papel de Holly, que sonhava poder acordar numa bela manhã e ir tomar café na Tiffany’s | Foto: Reprodução

É quase impossível pensar em Holliday Golightly, personagem da novela “Bonequinha de Luxo”, de Truman Capote (1924-1984), sem pensar em Audrey Hepburn, que protagonizou o filme homônimo de 1961. Publicado em 1958, o livro está agora completando 60 anos, e ainda se mantém em boa forma.

O filme de Blake Edwards também continua formidável, mas a leitura do texto de Capote é uma experiência incrível por causa da linguagem, misturando sofisticação formal com o retrato da celeridade urbana nova-iorquina, os códigos multiplicados do vocabulário, o sarcasmo, o drama interior da mulher retumbando nas palavras do narrador.

Tudo isso é um prêmio para quem aprecia literatura, esse troço tão fora do espírito líquido, esse exercício de solidão. Holliday Golightly, ou simplesmente Holly, é só uma memória, cuja beleza surge primeiro entalhada na madeira com a descrição de seu penteado e de seu rosto afilado, com olhos profundos e macios cintilando sobre sua boca bem desenhada, embora grande.

A maestria de Capote deve ser louvada sempre. Seu domínio da técnica de ficção é que o fez se tornar um ícone do Novo Jornalismo, representado pelo clássico “A Sangue Frio”, de 1965. Em “Bonequinha de Luxo”, a riqueza de detalhes na descrição das coisas, incluindo o caráter dos personagens, traz um colorido vívido para as cenas narradas.

Quando surge a descrição de Holly, o leitor tem diante de si uma figura quase palpável, e apaixonante. Seu cabelo de corte curto, estilo garoto, diz o narrador, era de um tom aloirado, com tendência para o marrom-dourado, com fios loiro-albinos e amarelos. “Sua figura esbelta exibia um ar de saúde de quem só comia cereal no café da manhã, só tomava sopa com limão, que acentuavam suas bochechas rosadas.”

Figura fascinante

Quem narra a história é Fred, em 1958. Ele está relembrando o ano de 1943, em plena Segunda Guerra Mundial, época de quando chegou a Nova York e foi morar num apartamento em uma das ruas 70 no Upper East Side, em Manhattan, Nova York, quando apenas sonhava em ser escritor.

Por intermédio de Joe Bell, dono do bar que frequentava naquele tempo, já escritor publicado, Fred se lembra da figura fascinante de Holly Golightly, e essa lembrança é o fulcro narrativo da novela.

Holly era inquilina de um apartamento embaixo do de Fred, nos predinhos avermelhados do Upper East Side. Quando Fred a viu pela primeira vez, era quase verão, e ela vestia um vestidinho preto fino e leve, calçava sandálias pretas e usava um colar de pérolas. “Tinha boca larga e nariz empinado, com um par de óculos escuros escondendo seus olhos, mas não seu rosto que anunciava a mulher, sem ter ainda apagado a criança. Eu dava a ela alguma coisa entre 17 e 30 anos. Mas descobri que estava prestes a fazer 19.”

Ela tinha 14 anos quando fugiu de casa, não do pai, mas do marido, livrando-se de um casamento arranjado com um homem bem mais velho. Natural de uma cidadezinha do Texas, fugiu para Nova York com o sonho de se tornar uma estrela de cinema. Acabou virando prostituta, sustentada por vários amantes.

Entre os amantes de Holly, havia um gangster que estava preso em Sing Sing, e um diplomata brasileiro de nome estranho, José Ybarra-Jaegar, filho de mãe alemã e pai negro. Convivia sugestivamente pela narrativa com o drama interior de ser homossexual e ter de se entregar a homens para sobreviver.

Seu sonho era ser rica para massagear o ego podendo acordar numa bela manhã e ir tomar café na Tiffany’s, dizia ela enquanto tomava um drink com Fred no Bar do Joe, criando uma metáfora de regozijo, querendo dizer que se esbanjaria entre joias na mais chique casa do ramo até hoje.

Croissant na Tiffany’s

O título original da novela de Capote é “Breakfast at Tiffany’s” (Café da manhã na Tiffany’s, em tradução livre). O filme homônimo de Blake Edwards realizou essa metáfora com uma cena clássica de Hepburn comendo um croissant na porta da Tiffany’s, na Quinta Avenida, enquanto crescia o olho nos diamantes na vitrine.

Na novela, Holly diz que sua obsessão pela loja não era por gostar de luxo, mas porque ter dinheiro para comprar as joias da Tiffany’s aliviaria sua angústia. Fazia parte de seu tipo encantador uma certa distração. Sempre perdia a chave do apartamento, incomodando o senhor Yunioshi, que tentava chantageá-la para tirar fotos dela, o que hoje chamaríamos de nudes, em vão, ou talvez não. A história começa com Joe Bell sugerindo que ela estaria na África com o senhor Yunioshi.

Tinha a capacidade de absorver a atenção do interlocutor com seu jeito de ser, de falar, de ouvir, de se vestir, e com sua beleza. Ela tinha um gato. Ela tocava violão e cantava com sua voz rouca de um adolescente, cantava Cole Porter, Kurt Weill. Quem viu o filme, jamais será capaz de imaginar Holly fora do corpo de Audrey Hepburn (embora o cabelo seja mais sóbrio), mas ganhará em experiência literária, ao aprender a ver como uma palavra se desdobra diante de seus olhos em tantos significados.

Hepburn tinha 32 anos quando fez o papel de Holly no cinema. Tinha physique du rôle para o papel. Sua atuação encaixou como luva na descrição do personagem, embora Capote quisesse Marilyn Monroe. Holly, no entanto, está em aberto para novas atrizes, para a condução de novos diretores, porque sua sexualidade não foi explorada como foi criada originalmente.

Já o livro de Capote, e sua bela criação, mais complexa do que aparece no filme (menos bonequinha, mais manipuladora), tão jovem quanto surgiu em 1958, está disponível em português, nas melhores casas do ramo.

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