Biografia faz retrato minucioso de Lampião, o maior bandido brasileiro de todos os tempos

O Rei do Cangaço, com seu bando, foi responsável por moldar os negócios no “nordeste profundo” e reformular a estrutura política da região Nordeste do país

Ricardo Silva

Especial para o Jornal Opção

Virgolino Ferreira. Virgulino Ferreira. Capitão Virgulino. Capitão Lampião. Lampião. O nome, o título ou o apelido — não importa como se chame, mas, ao pronunciar o nome de Lampião, mesmo o mais inculto dos sujeitos saberá de quem se trata, saberá que estamos falando da lendária figura, do mítico cangaceiro, responsável pelas mais absurdas atrocidades e dono das histórias mais poderosas do passado recente do país.

Lampião e Maria Bonita: casal de cangaceiros | Foto: Reprodução

Virgulino Ferreira é um dos personagens mais interessantes e ricos da história do país (analisado até pelo historiador britânico Eric Hobsbawm). Rodeado de lendas sobre si e seus feitos, a biografia de Lampião sempre careceu de veracidade. Muito sobre ele se fala, pouco de fato sobre ele se conhece.

Muitas vezes retratado como a maior figura do banditismo rural do começo do século passado, ladrão sanguinário e dado a crueldades, também teve sua trajetória retratada como a de um nordestino miserável que viu no crime a saída para as injustiças sociais pelas quais passou na vida.

Lampião ainda é o imã da curiosidade de muitos no que diz respeito a sua vida. Se tornou mito ainda em vida, sendo admirado e emulado por vários. Matuto, não era ignorante, no entanto. Foi responsável por criar uma das maiores redes de contato num período onde apenas os bem abonados quem tinha o poder se comunicar eram apenas os bem abonados. Cunhou uma estética que era invejada pelos jovens, admirada pelas mulheres, e copiada pelos seus desafetos.

O capitão teve sua vida representada por meio de músicas, filmes, novelas, séries de televisão, entre outras manifestações artísticas. Surgiram algumas biografias, mas todas com profundas lacunas sobre trechos importantes da sua vida. No entanto, o historiador Frederico Pernambucano de Mello, uma das maiores autoridades na história do cangaço brasileiro, se propôs a preencher essas lacunas compondo sua própria pesquisa, cujo resultado é a obra “Apagando Lampião — Vida e Morte do Rei do Cangaço”, que veio a lume pela Global Editora no final do ano passado.

A tarefa de Mello mostrou-se hercúlea, mas compensadora. Sua biografia sobre Lampião é um dos mais refinados trabalhos sobre essa figura marcante da história do Brasil. O pesquisador, que já foi elogiado pelo sociólogo Gilberto Freyre como “mestre dos mestres em assuntos do cangaço”, passou anos a fio a procura das testemunhas oculares dos acontecimentos que em envolviam o grão-mestre do cangaço e com isso obteve diversas entrevistas com cangaceiros que conviveram com Lampião e fizeram parte do seu cotidiano.

Reunindo entrevistas e relatos, tanto de cangaceiros quanto de demais personagens relevantes na biografia do Rei do Cangaço, como soldados das volantes que estavam à caça de Virgulino, quanto de coiteiros que acobertavam e davam abrigo e alimento aos cangaceiros, Frederico Pernambucano pôde traçar as linhas que permitiram reconstruir a biografia do maior bandido brasileiro de todos os tempos.

Lampião entra no cangaço graças ao apadrinhamento que recebe de Sinhô Pereira, seu primeiro e único chefe, mentor da sua jornada no sertão. Mostrando-se esperto e desconfiado, Virgulino logo apresenta-se como uma figura distintiva no nordeste “semifeudal” brasileiro.

Não tão demorado, Lampião, exímio comunicador e articulador político, entra em conchavo com as maiores figuras da política do nordeste, entre coronéis, políticos e sacerdotes — do qual Padre Cícero foi figura de maior relevo —, que lhe garantem proteção, munição, e asilo sempre que necessário, e sobre o qual ele monta uma estrutura muito semelhante a um esquema de negócios empresariais, que Mello nomeará de “Cangaço S/A”.

O Rei do Cangaço, com seu bando, foi responsável por moldar os negócios no “nordeste profundo”, expressão cunhada pelo seu biógrafo, e reformular a estrutura política dessa região do país. Sua influência era tamanha, que ele podia interferir diretamente na economia de um estado, nos costumes e na forma como circulavam as informações a respeito dele e dos seus.

O trabalho de Frederico Pernambuco é um dos mais interessantes a respeito de Lampião porque o historiador consegue aliar sua profunda erudição e entender o fenômeno que seu biografado representa e buscar na sua pesquisa delinear com precisão essa força simbólica do Rei do Cangaço.

Caminhando entre as fontes intelectuais que se manifestaram a respeito do comandante do cangaço e os retratos populares feitos a respeito do cangaceiro-mor, através da nomeada literatura de cordel, e com os recortes feitos pelos jornais — incluindo aí os internacionais, como The New York Times —, Frederico Pernambucano vai dimensionando as proporções lendárias de Lampião com tamanha elegância que leitor mais interessado vai atravessar suas mais 300 páginas como se lesse um instigante romance policialesco.

O homem que matou lampião

Sebastião Vieira Sandes, Santo, o homem que matou Lampião, ao lado historiador Frederico Pernambucano de Mello | Foto: Reprodução

A farta documentação de que dispõe para compor sua biografia, posiciona o historiador como um dos maiores conhecedores de Lampião do planeta e a sua obra serve como comprovante disso. E “Apagando Lampião” traz um trunfo que nenhum outro trabalho sobre o Rei do Cangaço tem e cujo ineditismo faz dessa biografia um trabalho ainda mais primoroso: a revelação da identidade do soldado responsável pela morte do Capitão Lampião.

No entanto, antes de revelar este dado procurado por quase 80 anos, Frederico Pernambucano desfila uma série de preciosidades sobre Lampião, como sobre sua habilidade na costura, sendo o maior cangaceiro de todos os tempos um grande costureiro, exímio curtidor de couro, habilidade essa que lhe conferia uma indumentária que marcou a história da estética cangaceira e lançou moda nos rincões do Nordeste brasileiro anos de 1930.

Mas foi na madrugada do dia 28 de julho de 1938, que o cangaço morreria junto com seu maior representante. Por mais de 20 anos os cangaceiros de Lampião seriam uma dor de cabeça para o governo federal e os interventores estaduais da época da ditadura varguista. Exauridos por Lampião sempre fugir das emboscadas, as volantes receberam reforço e pressão por parte do governo de Getúlio Vargas para dar cabo de capitão e pulverizar logo este movimento do cangaço.

Cabeças de cangaceiros expostas

Foi então na Grota do Angico, em Sergipe, que as forças volantes de Alagoas invadiram o estado vizinho e arregimentaram um cerco sobre os cangaceiros do bando de Lampião. Um dos conflitos que ficou para a história por seu elemento surpresa. Foi neste dia que caiu por terra Capitão Virgulino, aos 40 anos, sua companheira Maria Bonita e mais nove integrantes do bando.

A incógnita que pairava sobre o acontecido era a de saber quem tinha sido o responsável pelo único tiro capaz de derrubar aquele sobre qual se acreditava ter corpo fechado e ser protegido por entidades sobrenaturais. Frederico Pernambucano esteve a procura do autor do disparo desde a década de 70 e somente em 2003 conseguiu entrevistar o homem que matou Lampião.

Sebastião Vieira Sandes, o Santo, ou ainda Galeguinho. Foi companheiro de Lampião, com quem costurava, para quem organizava festas e quem acobertava nos momentos necessários. Resistiu a dar entrevista para o historiador, mas, diante de um aneurisma incurável, convidou Frederico Pernambucano para uma conversa na qual disse:  “Quero destampar fatos que não desejo levar para o túmulo”..

E foi naquele dia, na Grota do Angico, que cercando o bando de Lampião, Santo viu o Rei Cangaço desprevenido tomando café nas primeiras horas do dia e desferiu o tiro que encerraria o ciclo moderno do cangaço na sua figura mais emblemática. Foi um tiro certeiro, acertou Capitão Virgulino na altura do umbigo e lhe ceifou a vida. Como mandava a tradição militar vigente na época, apenas aquele que mata tem o direito à degola de sua vítima. Cumprindo o mandado, Santo, em lágrimas, corta a cabeça daquele que um dia tinha sido seu parceiro de agulha e linha, entrando para a história como o cabra que matou o capitão.

Esta história esteve por muito tempo oculta pelo medo que Santo tinha dos inúmeros aliados que Lampião tinha consigo, mesmo pós-morte, e que facilmente poderiam propor vingança. Mas, como um bom historiador que é, Frederico trouxe à lume o acontecimento em todos seus pormenores.

Apagando Lampião: vida e morte do Rei do Cangaço é mais do que tão somente a revelação inédita do verdadeiro nome daquele que tirara a vida do maior cangaceiro de todos os tempos, é um estudo de uma das épocas mais ricas do passado brasileiro e um dos campos mais férteis dos estudos sertanejos. O trabalho de Frederico Pernambucano Mello é de uma riqueza sem par, pois desfia a imagem de um Brasil em formação que (ainda) está no processo de encontro com sua própria história e Lampião é um dos mais relevantes personagens dela.

Ricardo Silva é colaborador do Jornal Opção.

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