Bertolucci e Godard: cinema e política nos 50 anos do Maio de 68

Agitação política contagiou a juventude parisiense, que questionava as instituições de ensino, as tradições, a cultura ocidental. Através de suas sensíveis lentes, cineastas enxergaram todas as angústias e feridas dessa sociedade

“Os Sonhadores” (2003), de Bertolucci: juventude burguesa frente à efervescência político-social que ocorrera naquele período

Filipe Inácio Fontes**
Especial para o Jornal Opção

Esse ano o mundo comemora a efeméride do movimento que ficou conhecido como o Maio de 68, uma agitação política que surgiu entre a juventude parisiense, que questionava as instituições de ensino, as tradições, a cultura ocidental. Pediam uma revolução sexual e de costumes, além de liberdade de expressão, em ações beligerantes que tencionavam combater o conservadorismo. Esse cenário de insatisfação latente necessitava que uma sociedade morresse e que seus valores vigentes fossem extirpados do meio social. Os jovens personificavam de forma contraditória aquela luta por um mundo mais humano e onde houvesse a possibilidade de justiça social, bem como, assegurar que os anseios mais íntimos de todos os setores da sociedade pudessem falar mais alto que o som dos tiros e os bombardeios na Indochina e Argélia. Pretendiam que a voz da juventude pudesse se sobrepor ao desespero do fogo do napalm, e que essa resistência se garantia com o famoso coquetel molotov. Será?

Nessas perspectivas, dois grandes protagonistas no que tange à arte, primordialmente, a sétima arte, enxergam e fazem enxergar através de suas sensíveis lentes todas as angústias e feridas dessa sociedade. Primeiramente, se tem Jean-Luc Godard e a urgência da arte, em concomitância com Bernardo Bertolucci e a ode ao movimento. Invariavelmente, Godard, cineasta francês, possuía uma profunda necessidade de antecipar os debates; utilizando-se do cinema de forma sagaz, produziu obras que coadunam com essa necessidade, como “Pequeno Soldado” (1963), “Bande à Part” (1964), “Masculin Feminin” (1966) e “A Chinesa” (1967). O cinema godardiano deu vazão às ideias da juventude francesa; contudo, essa contribuição, não pode ser vista de forma cega. A juventude francesa era por excelência cinéfila, porém, não conseguiu necessariamente penetrar corretamente nas interpretações do cinema do Godard. Ele não produziu odes aos anseios dessa juventude, mas uma cínica crítica a esse processo patético. Godard representava o suprassumo do que a juventude lutava, assim como era o filósofo Paul Ricœur desde o incidente em Nanterre, quando foi atacado por estudantes, que jogaram o conteúdo de uma lata de lixo na cabeça do célebre professor. Perceba como Godard ilustra essa questão: “vejam como tudo é ridículo; eles querem a revolução e discutem em um belo apartamento burguês etc” (“Cahier du Cinéma”, 1968, página 118).

Como se não bastasse, a crítica latente para com essa juventude floresce a partir de 1967 em virtude das greves das indústrias têxteis, que para ele, representavam o que de fato deveria mudar, diminuindo os abismos sociais e econômicos, e não um combate das instituições, as tradições, tudo aquilo que os tornavam franceses. A compreensão de Godard para com essas mudanças era catastrófica. Que essa sociedade morra? Para ele, não! O cenário francês, até mesmo em traços de sua urbanização, é carregado de estigmas que vislumbram a revolução. Assim, a margem esquerda do Sena é o hotspot desses movimentos, que lutam contra os palácios do governo desde a Revo­lu­ção Francesa. Jean-Luc Godard, que se definia como um verdadeiro terrorista conversador, fez disso uma ode para sua tristeza.

Jean-Luc Godard e Bernardo Bertolucci: pela sétima arte, cineastas enxergam e fazem enxergar através de suas sensíveis lentes todas as angústias e feridas da sociedade do Maio de 68

Neste cenário, há um proveitoso diálogo entre parisienses e ro­ma­nos. O cineasta italiano Ber­nar­do Bertolucci irá corroborar e en­dos­sar as perspectivas de Godard por meio de seu filme “Os So­nha­dores” (2003), onde o pano de fun­do histórico do Maio de 68 será utilizado para apresentar o papel da juventude burguesa frente à efervescência político-social que o­correra naquele período. Tal ju­ventude, personificada por meio da figura de três jovens que, unidos pelo amor ao cinema, se propõem a contestar todo aquele sistema político vigente da opressão vi­olenta e do autoritarismo atroz. Seus anseios e utopias não eram passíveis de coexistir em meio ao ta­manho infortúnio promovido pe­las guerras e ubíqua ausência de empatia.

Mais do que um enredo fílmico, Bertolucci tece uma homenagem aos que integraram esse movimento que causou reverberações no mundo todo, fazendo isso de modo magistral, através de um longa repleto de referências cinematográficas, ilustrando como essa juventude era cinéfila, ao apresentar clássicos da sétima arte como: “Scarface” (1932), “Freaks” (1932), “Rainha Cristina” (1933) e “Persona” (1966) e uma trilha sonora nada subserviente, com Jimi Hendrix e Janis Joplin dando o tom à necessidade de uma nova sociedade que fosse reformulada e estivesse de acordo com os anseios mais viscerais de seus cidadãos. Como espelho para essas transformações, os protagonistas em seu apartamento se inspiraram no livro vermelho de Mao Tsé-tung, assim como o seu busto exposto na mise-en-scène, e ao mesmo tempo, um descompasso com a realidade. Jovens inspirados em James Dean e o filme “Juventude Transviada” (1955), e a Anne Wiazemsky de “A Chinesa” (1967), verdadeiros filhos do marxismo e da Coca-Cola. Destilam um discurso profundamente ligado com as artes plásticas, esculturas e pinturas, representadas pelo Louvre, simultaneamente, se imbuindo de um discurso que prima em destruir essa civilização e a tessitura social ocidental. Assim a contradição plantada é vislumbrada nesse cenário, ainda que as personagens residam em seus esnobes apartamentos na Champs-Élysées que são verdadeiros “De Olhos Bem Fechados”, onde a regra é clara: é proibido proibir e é vedado vedar.

Cena de A Chinesa (1967), de Godard

O tempo é vivo e suas questões ainda são latentes. O passado sangra e dialoga com o presente. A comemoração dos 50 anos do Maio de 1968 estão ligadas com o atual momento histórico, tendo em vista a negligência dos franceses em rememorar a importância desse evento em face aos novos caminhos da política internacional. Essa realidade apresenta ressonância até mesmo no Brasil. As transformações de 1968 não são demanda da grande parte da sociedade, que hoje se mostra cada vez mais conservadora. Busca retrocessos das conquistas alcançadas e, onde se olha, há a morte do diálogo e o sonho do autoritarismo.

**Filipe Inácio Fontes é acadêmico de História da UEG.

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Victor

Parabéns ao cara mais inteligente que eu conheço. ❤️

Gabriel

Parabéns aos Dois autores do Texto
Gabriel Costa Pereira e Filipe Inácio Fontes
mesmo que o primeiro tenha sido negligenciado na publicação