Bernardo Élis, intérprete de um “Goiás profundo”

Por meio de sua literatura, o escritor percebeu e narrou que, na terra vermelha do Cerrado, derramaram o sangue e as lágrimas dos povos originários vencidos e pilhados

Ricardo Gonçalves

Em março de 2020 foi concebida a ideia de realização, pelo Instituto Cultural e Educacional Bernardo Élis para os Povos do Cerrado (Icebe), de uma atividade denominada Colóquios Primordiais sobre Bernardo Élis. Esse projeto procedeu-se para cumprir o propósito de manter viva a obra do grande escritor goiano.

Bernardo Élis nasceu na pequena cidade de Corumbá de Goiás, em 15 de novembro de 1915, e morreu em 30 de novembro de 1997. No decorrer de 82 anos presenciou transformações profundas da realidade social, agrária, urbana e cultural de Goiás. Foi contemporâneo da Marcha para o Oeste (política do presidente Getúlio Vargas); da construção e fundação de Goiânia e de Brasília; da modernização da agricultura nas áreas de Cerrado; e também da mobilidade de milhares de trabalhadores do campo para as periferias urbanas. Logo, Bernardo Élis foi um interprete de um “Goiás profundo”.

Assim, no caminhar de sua vida, Bernardo Élis, ao pisar na terra vermelha do Planalto Central, foi percebendo desde jovem que essa terra dadivosa era e é mal distribuída; que na terra vermelha do Cerrado goiano derramaram o sangue e as lágrimas dos povos originários vencidos e pilhados, dos trabalhadores escravizados, dos meeiros, posseiros e camponeses oprimidos pelo latifúndio. Bernardo Élis viu e ouviu as histórias dos injustiçados, apreendeu as oralidades do povo goiano para transformá-las em narrativas de estilo próprio. Nessas narrativas, uniu — com mestria — estética e engajamento político.

Bernardo Élis produziu uma obra que conta com ensaios, contos, crônicas, poemas, romances, entrevistas e novelas. Sua literatura vasculha o rés do chão da realidade regional goiana, ao mesmo tempo em que é universal, pois narra os dramas, sonhos e dores humanos.

Conforme palavras do crítico literário Tristão de Athayde, Bernardo Élis foi um “regionalista universalista”. Escreveu e publicou mais de vinte livros, entre eles “Ermos e Gerais”, “Veranico de Janeiro”, “O Tronco”, “Caminhos e Descaminhos”, “A Terra e as Carabinas” e “Chegou o Governador”. Sua obra não tem discordância com a vida que teve.

Bernardo Élis ao lado de seu retrato feito por Amaury Menezes | Foto: Reprodução

Por isso, o projeto Colóquios Primordiais sobre Bernardo Élis, aglutinado ao ativismo mobilizador da cultura por intermédio das atividades promovidas pelo Icebe, nos move para o encontro da obra bernardiana para lê-la, interpretá-la, respeitá-la e divulgá-la. O primeiro encontro dos Colóquios Primordiais foi realizado no dia 13 de abril de 2020 e reuniu escritores, professores, artistas, pesquisadores e demais pessoas interessadas na obra do escritor goiano. E assim como no primeiro, os demais encontros que fizeram parte dos Colóquios Primordiais, devido ocontexto de Pandemia da Covid-19, aconteceram uma vez ao mês e de maneira virtual.

Por consequência, os Colóquios Primordiais contribuíram para gerar uma movimentação de ideias e encontros entre escritores, artistas, pesquisadores e admiradores da obra e da vida de Bernardo Élis. Tal fato ocorreu em momento de singular de criação e consolidação do Icebe. Fundado em janeiro de 2020 e sediado em Goiânia (GO), o Icebe “é uma sociedade cultural, sem fins lucrativos […] conta com 80 membros titulares, além de membros eméritos, efetivos, correspondentes e ‘ad perpetuam rei memoriam’”. Ademais, o Instituto tem por objetivo “a preservação do acervo e do legado de Bernardo Élis, o fomento da cultura, da educação, da sustentabilidade ambiental e da responsabilidade social”.

Gilberto Mendonça Teles, Bernardo Élis, Afonso Félix de Sousa e José J. Veiga: companheiros de geração | Foto: Reprodução

O Icebe, mesmo sendo uma instituição “jovem”, ao reunir importantes personagens da lavra artística e intelectual goiana, passou a protagonizar um alvissareiro ativismo cultural em Goiás. E, ao fazê-lo, convida a todos e todas para manter aceso o legado bernardiano. Convida-nos para lermos a obra de Bernardo Élis e assim compreendermos melhor a formação cultural e social de Goiás. Convida-nos para a grande festa das palavras e das narrativas que encontram nos livros do escritor os sabores, cores e cheiros do Cerrado; os saberes ancestrais dos povos do Cerrado; a dignidade dos camponeses e demais trabalhadores; a justiça social e a luta contra qualquer tipo de opressão dos sujeitos desvalidos do mundo.

Concomitante aos Colóquios Primordiais, membros do Icebe, do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG) e de academias de letras (Goiana, Goianiense, Trindade, Palmeiras de Goiás, Pirinópolis etc.); além de pesquisadores, professores universitários e demais estudiosos da obra de Bernardo Élis, dedicaram à escrita de artigos, notas de pesquisas, biografias e até cartas. Esse material, focado na obra bernardiana, foi parcialmente publicado no Jornal Opção. Todavia, decididos a aglutiná-lo e somá-lo a novos textos ainda inéditos, foi construída a parceria entre a “Revista Sapiência: sociedade, saberes e práticas educacionais”, da Universidade Estadual de Goiás (UEG), e o Icebe para publicação da presente Seção Especial.

Bernardo Élis e a capa de uma de suas obras-primas | Foto: Reprodução

Com efeito, essa parceria se concretizou e agora apresentamos ao público a Seção Especial Bernardo Élis, que conta com artigos, notas de pesquisas, biografia, carta e uma entrevista com o escritor, realizada em 1993 e divulgada no Jornal Mutirão Cultural (cedida pelo escritor e autor da entrevista Iuri Rincon Godinho, a quem agradecemos). Destaca-se que essa publicação ocorre em momento oportuno da Quinzena Bernardo Élis, realizada entre os dias 15 e 30 de novembro de 2020. A Quinzena, além de lembrar a data de nascimento (15/11) e morte (30/11) do escritor, propôs uma programação diversa e mobilizadora da cultura goiana, como entrega do Troféu Seriema 2020 a Bariani Ortencio no dia 21/11/2020; lançamento da Seção Especial Bernardo Élis, dia 28/11/2020; e vídeo de encerramento e agradecimentos, no dia 30/11/2020.

Na condição de editor da “Revista Sapiência”, agradecemos todos os escritores e escritoras dos textos que compõem a presente Seção Especial. Agradecemos, tantos outros que estão contribuindo para a divulgação da obra de Bernardo Élis, inclusive aproximando-a das novas gerações de leitores. Agradecemos também a parceria fabulosa com o Icebe e, por isso, sublinhamos o apoio e o empenho incansáveis dos professores Bento Fleury e Nilson Jaime, respectivamente presidente e vice-presidente do Instituto.

Finalmente, aproveitamos este espaço para divulgar a Seção Bernardo Élis. Acessem a “Revista Sapiência” e conheçam os textos publicados sobre a obra bernardiana. Disponível em: https://www.revista.ueg.br/index.php/sapiencia/issue/view/580

Ricardo Junior de Assis Fernandes Gonçalves é doutor em Geografia, professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG) e membro do Instituto Cultural e Educacional Bernardo Élis para os Povos do Cerrado (Icebe).

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