Banda formada por pessoas com deficiência visual canta músicas autorais no sertão

Formada por cinco músicos cegos, Desejo sem Limites tem dois álbuns lançados. O grupo é ás no forró

Tiago Abreu

Especial para o Jornal Opção

A banda Desejo sem Limites está na estrada desde 2013. Formado em 2009 no município de Paratinga, localizado no médio São Francisco, Bahia, o grupo se destaca pelo fato de todos os cinco integrantes serem pessoas com deficiência visual.

Naura e Ninho: vocalistas da banda Desejo sem Limites | Foto: Tiago Abreu

O grupo de forró é atualmente formado por Naura Almeida e Ninho Almeida, vocalistas e irmãos, e seus primos Tingô (teclado), Dida (teclado) e Preto (guitarra). O álbum mais recente dos músicos é Sofrência por Amor, lançado em 2018 e gravado de forma caseira na cidade natal dos integrantes.

O trabalho é totalmente autoral e escrito por Naura Almeida, 25 anos, fã da onda do feminejo, especialmente a cantora Marília Mendonça. Naura é tão admiradora de Marília Mendonça que uma de suas principais composições é uma espécie de homenagem à intérprete sertaneja. “Estou no Bar (Marília Mendonça)” foi regravada, também, pela dupla paulista Ailson & Ailsinho — e a gravação conta com quase 500 mil visualizações no YouTube.

“A Marília Mendonça foi uma das minhas inspirações. Isso me deu muita coragem pra continuar escrevendo minhas músicas. Sempre nos meus momentos difíceis, em que eu me sentia sozinha, me pegava ouvindo isso”, diz Naura, que também gosta de outros nomes como Lauana Prado, Maiara & Maraísa e Naiara Azevedo.

O processo de composição de Naura é variado. A cantora baseia-se em episódios de sua vida, sugestões de temas ou em histórias de amigos. Sem ter frequentado a escola — todos os integrantes não tiveram acesso —, a compositora decora todas as suas criações e, quando pode, grava em seu celular. Em 2018, eram mais de 50 músicas escritas e catalogadas.

O sonho de Naura é trabalhar como compositora. Por isso, mesmo com as dificuldades no acesso à educação escolar e nos entraves financeiros comuns de uma banda independente e da zona rural, a cantora continua ouvindo e escrevendo músicas frequentemente. Três outros artistas independentes também gravaram algumas de suas composições.

“Muita gente em Paratinga, e creio que não somente aqui, acham que não podemos fazer nada pelo fato de sermos deficientes. Mas eu não concordo com isso não”, destaca a cantora em referência ao “capacitismo”, preconceito vivido por muitas pessoas com deficiência.

Naura afirma que não se incomoda em afirmar-se como uma pessoa com deficiência. “Eu gosto de ser assim. Não me importo. Nasci desae jeito, fui criada desae jeito, acho que aprendi a conviver com isso.”

Tiago Abreu é jornalista.

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