Azul é a cor mais triste – singrando os caminhos do blues

Série de documentários produzida por Martin Scorsese há mais dez anos continua como grande farol para quem gosta da música negra americana, “sempre falando de sofrimento causado pelo amor ou pela escravidão”, mas “uma luz na escuridão que nunca se apaga”

Os documentários vão abrindo caminho pelo mapa das influências da música negra, seguindo o movimento do blues de Clarksdale, New Orleans, indo para Memphis, Chicago, Londres e Nova York

Vendo a heptalogia de documentários “O Blues – uma Jornada Musical”, produzida por Martin Scorsese em 2005, pode-se ver a verve revolucionária do gênero que dá origem a todo o espectro da música americana. Afinal, “o blues é a raiz, todo o resto são frutos”, como dizia Wiilie Dixon.

Além dessa força aglutinadora, ele surge como uma potência conscientizadora da origem da diáspora africana nas Américas. Basta pensar em um verso de Louis Armstrong, “o que fiz pra ser tão preto e triste”, ou de J. B. Lenoir, “parece-me que tudo que faço está errado”, para se ver a dimensão interior que o gênero encerra sobre a questão humana do negro.

As músicas do blues remetem à escravidão ou ao ambiente propiciado por ela pós-abolição nos EUA, e à dor oriunda dessa opressão, em meio ao amor, problemático e tenso, de uma mulher. “O blues americano pra mim está sempre falando de sofrimento causado pelo amor ou pela escravidão”, diz o malês Salif Keïta.

À medida que o tempo vai passando, o blues fala da miséria, questiona os abusos de poder, mas aborda também a capacidade incrível de se sentir bem. Mesmo no meio das forças negativas, o amor, Deus e o diabo aparecem fundindo – no interior do espírito do negro – os tormentos e alívios mais profundos, mas sempre com um toque de volta às raízes.

É justamente desta premissa que parte a série de sete documentários: “Feel Like Going Home” (“A fim de ir pra casa”, em tradução livre); “Warming by the Devil’s Fire” (“Aquecendo no fogo do diabo”); “The Road to Memphis” (“A caminho de Memphis”); “The Soul of a Man” (“A alma de um homem”); “Godfathers and Sons” (“Padrinhos e afilhados”); “Red, White & Blues” (“Vermelho, branco e blues” – trocadilho interessante com a cor da bandeira dos EUA e o blues); e “Piano Blues”.

Morada
Os documentários vão abrindo caminho pelo mapa das influências da música negra, seguindo o movimento do blues de Clarksdale (Mississipi), New Orleans (Luisiana), indo para Memphis, depois Chicago e em seguida Londres, não exatamente com essa clareza de rumo. Enquanto isso, Nova York fica ao fundo, até que sua paisagem não tem mais como ser ignorada, e ela surge com força total em suas casas de show na West Village e no Harlem.

O primeiro documentário da série, “Feel Like Going Home”, dirigido por Martin Scorsese, traz a tese, segundo a qual, o blues é um meio de preservação da consciência negra, um instrumento de autoconhecimento. O filme é narrado pelo bluseiro de Denver (Colorado), Corey Harris. Segundo ele, só quando começou a tocar blues que compreendeu que para conhecer a si mesmo era preciso conhecer o passado, e o blues faz essa conexão. “Para saber aonde está indo, tem de saber por onde andou”, afirma.

Evidentemente, toda música toca fundo a essência da existência, para evocar o espírito clássico de Daniel Barenboim, e a vida sem música pode ser um equívoco tremendo, para não deixar outra alma musical de fora, a do filósofo alemão Friedrich Nietzsche. “A música é como uma luz na escuridão que nunca se apaga”, e o blues é a principal tocha no escuro campo dos conflitos socioculturais da América do Norte.

Corey Harris está sempre viajando para Mali (Oeste da África), terra de Salif Keïta, porque, segundo ele, a ligação com a África não se perdeu. O blues, que nasceu na América, ainda tem uma ligação umbilical com seus ancestrais.

“Ele nos leva de volta ao lugar de onde surgiu. Um ditado africano diz que as raízes de uma árvore não fazem sombra. Essa é a profundidade do blues. Quando você ouve essa música, acaba compreendendo que esta é a única coisa que ninguém poderá tirar do povo negro”, diz Harris.

O documentário de Scorsese pontua a narração de Harris com cenas antigas de negros cortando madeira e entoando spirituals, ou colhendo algodão. Outros vídeos antigos mostram imagens dos pioneiros do blues, como Leadbelly ainda jovem, em 1933, saindo da cadeia, depois cantando e dançando com seus colegas.

São imagens históricas gravadas por John Lomax, funcionário da Biblioteca do Congresso, nos anos 1930. Mas o blues cantado nasceu nos tempos da escravidão, antes, portanto, da Guerra da Secessão (1860-1865), e o blues tocado em piano e violão (depois guitarra elétrica), por volta de 1880.

Nessas imagens, vemos ainda John Lee Hooker, de quem se dizia que sua música era coisa do demônio, “música de quem bate na porta dos fundos”; Tommy Johnson, o primeiro a dizer que havia vendido a alma ao diabo (por causa dele, Robert Johnson foi à encruzilhada vender a alma pra tocar bem); Petey Wheatstraw, que dizia ser o genro do diabo.

Robert Johnson é uma figura mitológica do blues. Morreu aos 27 anos, em 1938, provavelmente abrindo a funesta tradição de pulsão de morte dos astros da música, como Jimi Hendrix, Janis Joplin, Kurt Cobain e Amy Winehouse (entre outros). Mas antes, entrou para a história com o álbum “Hell Hound on My Trail” (“O cachorro do diabo está no meu encalço”, em tradução livre). Deixou 29 canções gravadas, como “Sweet Home Chicago”.

Johnson não foi filmado, ou pelo menos não se conhece nenhum registro seu em vídeo, e só há duas fotografias dele, em uma delas ele está usando paletó e gravata, chapéu, tocando violão, sustentando um sol (acorde) e sorrindo. Era um esteta rebelde, virtuose de ouvido absoluto, que aprendeu a ouvir outras músicas e a se deixar influenciar por elas, tornando-se o primeiro bluesman plural que depois influenciaria outros músicos, inclusive do rock, como o grupo Led Zeppelin.

Muddy Waters, emulado por Elvis Presley e ídolo dos The Rolling Stones, que usaram o título de sua música “Rollin’ Stone” para batizar a banda | Photo by Tom Copi/Michael Ochs Archives/Getty Images

Esquenta
O segundo documentário, “Warming by the Devil’s Fire” (Escrito e dirigido por Charles Burnett), é um docdrama, mistura de documentário e ficção dramática. O personagem que serve como fio condutor da trama é Junior.

Já adulto, Junior narra um dia de sua vida aos 11 anos, na década de 1950, ao se mudar para New Orleans, onde entrou em contato com o blues e as lendas da música. Sua mãe o mandara para ser batizado na igreja do tio pastor, e, portanto, ser salvo das garras do demônio. Mas o garoto foi pego na estação de trem por outro tio (o boêmio Buddy Taylor) que passeou com ele pelo sedutor mundo do blues.

Na casa de Buddy Taylor, havia discos e pôsteres de bluseiros. Era praticamente um museu. Pelas ruas de New Orleans, “de cada janela e porta vinham risos, fumaça e uma corrente sólida de música.” Nessa aventura, Junior conheceu inclusive o local da mítica Congo Square, lugar onde os negros de New Orleans eram permitidos cantar suas músicas em tempos passados.

Junior também ficou sabendo da existência de uma plêiade de bluesmen, como Louis Armstrong, Jelly Roll Morton, Sidney Bechet, Joe Olive, Clara Smith, Trixie Smith, Bessie Smith, Charlie Green, Lucille Bogan (cujas “letras deixariam Marquês de Sade envergonhado”, em canções como “Shave ‘Em Dry”), Ma Rainey e Leroy Carr (que abordavam temas gays em suas canções), Red Foxx, Moms Mabley (suas letras também eram aulas de anatomia), The Devil’s Son-in-Law, Mississippi John Hurt, W. C. Handy, Dee Bellum, King Biscuit, Ferris Street, Bumble Bee Smith e Blind Lemon Jefferson.

O filme é um banho musical. Em termos de citação, seguramente, é a parte mais densa da viagem. Ao alternar imagens históricas com cenas dramatizadas ficticiamente, mostra, numa cadência dosada, vários vídeos de bluseiros.

Aparecem Son House cantando “Death Letter Blues”, Sister Rosetta Tharpe (“Up Above My Head”), Mammie Smith, a primeira mulher a gravar blues (“Lord, Lord, Lord”) – dona de uma voz que ressoaria mais tarde em Billie Holiday –, Ida Cox (“Four Day Creep”), Dinah Washington (“I Don’t Hurt Anymore”), Sonny Boy Williamson (“Come on in This House”), Sam Chatmon (“Sitting on Top of the World”), Muddy Waters (“You Can’t Lose What You Ain’t Never Had”), Lightnin’ Hopkins (“Lonesome Road”), Elizabeth Cotten (“Freight Train”), Willie Dixon (“Nervous”), Victoria Spivey (“T. B. Blues”), Brownie McGhee & Sonny Terry (“Key to the Highway”), John Lee Hooker (“Never Get Out of These Blues Alive”), e muito mais.

Os nomes de bluesmen são inúmeros. Todos vicejam na memória do blues até hoje no Sul dos EUA, mas não espalham para outros cantos do universo, como se estivessem lá para guardar a seara-mãe de todas as canções modernas americanas, do jazz ao pop.

A estrada
“The Road to Memphis” (direção e fotografia de Richard Pearce) é um bom documentário, o terceiro da série. Põe em cena três tipos de blues­men: o que foi bem-sucedido cedo e depois caiu no esquecimento, Rusco Gordon; um que sempre ficou no chão mediano do blues, Bobby Rush; e um que alcançou o sucesso depois da juventude em perrengues, B. B. King.

Um fator interessante da série é o histórico, que subjaz os roteiros de cada filme. A partir do terceiro documentário, vemos a plateia dos shows começando a se tornar branca, e no penúltimo documentário, os músicos que aparecem para dar depoimento sobre o passado e o futuro do blues já são quase todos brancos, principalmente quando entra Londres e Nova York.

Mas neste episódio específico, o que chama a atenção é o embate entre a influência dos negros sobre os artistas brancos, que despontaram no rock‘n’roll. “The Road to Memphis” é uma espécie de documentário road movie, que vai acompanhando vários artistas do blues, como Ike Turner, Rusco Gordon, Bobby Rush, B. B. King, numa viagem a Memphis, onde haverá a festa de um prêmio em 2002.
Enquanto revisita o passado de cada um e confronta com o presente, o filme registra depoimentos de grandes executivos de rádio e gravadoras. Em uma dessas cenas, Ike Turner (que toca piano genialmente) conversa com Sam Phillips. “Foi Phillips que teve a ideia de colocar garotos brancos para cantar música negra, e isso deu origem ao rock’n roll”, diz Ike Turner.

“Tive bastante tempo para permanecer no ramo, para provar que os brancos precisavam começar a tentar certas coisas, sem debochar, sem copiar, mas tinha de ser com algum sentimento”, diz Sam Phillips. E aí Ike Turner devolve: “Você disse que eles não copiavam o estilo negro, mas eles copiavam, copiam até hoje.”

“O que eu quis dizer com copiar foi imitar. Eles pegaram o sentimento porque viviam tantas coisas parecidas, não tanto como os negros, mas eles não copiaram. Eles pegaram emprestado”, diz Phillips. “Claro que copiaram”, diz Turner, com trejeitos e dando gargalhada. Phillips então diz: “Você me ama ou não me ama mais?” “É claro que amo”, diz Turner. E Phillips comenta: “Ele está debochando de mim.” Turner gargalha dizendo “onde é o banheiro? Preciso mijar”, e sai.

Neste documentário, passa Elvis Presley cantando “Trouble”. Basta o espectador chegar ao documentário seguinte, “The Soul of a Man” (de Wim Wenders), e ver Muddy Waters cantando “Rollin’ Stone” para entender o quanto os brancos tiveram de copiar os negros, mesmo que vivessem sob o mesmo teto (cidade), para alcançarem o nível de excelência com o qual desfilavam.
É natural. Afinal de contas, para tocar piano clássico ou qualquer instrumento do gênero, os negros virtuoses, os raros que o fazem, também tiveram de emular a cultura erudita branca europeia.

Aproximação
O contato dos artistas negros com o público branco surgiu aos poucos. Até o início da década de 1960, carregada pelos conflitos raciais, com mortes de líderes negros e de qualquer um que apoiasse a causa negra, não havia brancos nos shows dos bluseiros. Mas isso mudou com B. B. King, em pleno ano de confronto, 1968 (ano em que Martin Luther King foi assassinado, em Memphis).
Naquele verão, B. B. King foi fazer um show no Fillmore West, em São Francisco, e havia uma fila imensa de garotos brancos pra ver seu show. Foi nessa época que a plateia começou a mudar. Foi a primeira vez que ele foi aplaudido de pé.

Parecia que tudo estava mudando mesmo. Ser acolhido daquela maneira por jovens brancos era um sinal de que o mundo seria diferente, e B. B. King chorou. Mas as coisas não mudaram muito. Essa veneração por figuras negras ocorre até hoje na música, no esporte e na política. Mas a permeação necessária para o fim dos conflitos raciais, por exemplo, ainda é apenas o sonho de quem não é racista.

Os laços de afeto e o exército de influência

Cooperação entre brancos e negros fez o blues sobreviver quando a cultura afro-americana foi boicotada; os ingleses dizem ter recuperado o que o governo dos EUA jogou no lixo

Marshal Chess, diretor da Chess Records, fundada pelo pai em 1950: “Alguns nos chamavam de amantes de crioulos e outros de exploradores, mas nós todos só queríamos uma vida melhor” | (Photo by Michael B. Thomas/Getty Images)

O Sul dos EUA criou o blues. E não foi um nascimento cheio de júbilo, foi entre lágrimas e risos. Tão interessante quanto a história da música é a história dos negros e as relações de conflito que sempre os circundaram. Assistindo à série “O Blues – uma Jornada Musical”, muita coisa sobre cooperação vem à tona, tanto quanto sobre negação.

Primeiro, apesar de a Rua Beale, em Memphis, ser o território livre dos negros e da manifestação de sua cultura nos anos 1950 e 60, o blues foi murchando dentro dos EUA pelas dificuldades impostas pelo governo americano. Muitos bluseiros dessas décadas terminaram a vida lavando pratos em lanchonetes baratas, como J. B. Lenoir, o ídolo de Wim Wenders.

No quarto documentário da série, “The Soul of a Man”, de Wim Wenders, o diretor alemão mostra a alma do blues por meio de seus principais cantores, Blind Willie Johnson, J. B. Lenoir, Skip James e Muddy Waters. À exceção do último, os outros que eram grandes ídolos, haviam caído no esquecimento.

No sexto volume “Red, White & Blues” (Mike Figgis), B. B. King aparece agradecendo aos britânicos pelo que fizeram, porque sem os britânicos, ele não teria tido a volta triunfante, e muitos outros negros bluesmen estariam passando fome. Um executivo inglês chegou a dizer que os americanos haviam jogado a cultura negra no lixo, e os ingleses pegaram, recuperaram e devolveram pra eles.

Cooperação
“Godfathers and Sons” (Bonnie Benjamin-Phariss), o quinto e melhor filme da série, esteticamente falando, além de ter um roteiro primoroso e ótimos depoimentos, traz a história de cooperação entre judeus e negros, em Chicago. E ao mesmo tempo é o encontro do blues com o rap. O produtor da Chess Records, Marshal Chess, cicironeia Chuck D, líder do Public Enemy, em Chicago.

Willie Dixon é um dos assuntos centrais do documentário, com toda a turma chamada de Beethovens do blues, incluindo Magic Slim. Chuck D, que foi influenciado por Muddy Waters (apaixonando-se pelo álbum “Electric Mud”), conhece bem a história da cultura negra e seus contornos.

Ele diz que na época da colônia, os brancos não moravam perto dos negros, mas no processo de migração, imigrantes pobres eram vizinhos, e se misturavam culturalmente com a população negra. O resultado foi o crescimento mútuo no universo artístico.

A história de Leonard Chess, fundador da gravadora Chess Records e pai de Marshal Chess, confirma isso. Ele produziu Muddy Waters e vários outros, como Chuck Berry, Howlin’ Wolf, Sonny Boy Williamson, Little Walter. “Alguns nos chamavam de amantes de crioulos, e outros, de exploradores. Mas na verdade, tínhamos o mesmo objetivo: queríamos uma vida melhor”, diz Marshall, cuja família é judia.

“A música conta as melhores histórias”, diz Chuck D. “Hoje, podemos aplicar alguns aspectos do passado no futuro. Mas se a música se afastar do passado, o povo não terá em que se basear, nem um futuro para esperar, e tudo será agora, agora, agora.”

Piano
Clint Eastwood dirige o último volume da jornada musical, “Piano Blues”. Em seu filme, ele entrevista uma série de célebres pianistas de blues, como Ray Charles, Dave Brubeck, Pinetop Perkins, Pete Jolly , sempre perguntando “quando e como você se interessou pelo blues, e quem te inspirou”.

Desse modo, o filme vai passeando pelo vasto universo do blues, em que o piano aparece como instrumento principal, seja pelas mãos dos entrevistados, seja pelas citações de quem foram suas influências, aparecendo nomes como Nat King Cole e Fats Domino.
“Tocar blues evoca alegria, tristeza, felicidade, desespero e verdade de uma maneira atemporal”, diz Clint Eastwood, que aparece se arriscando em tirar umas notas do piano, narrando em off ou falando com o entrevistado. Depois de um desfile de bons filmes, e grandes personagens, “Piano Blues” tem seu valor. (GGP)

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Daniel Mendes

Um texto brilhante, caro jornalista! Parabéns pela ótima pesquisa!!!

Ariston Araujo

Excelente a matéria do Gilberto Pereira a respeito dos documentários sobre o blues. Só uma pequena correção: o cineasta Wim Wenders é alemão e não sueco, nascido em Dusseldorf em 1945…