Autópsia do meio acadêmico

Partindo da investigação da morte de uma professora, Bernardo Kucinski expõe, no romance “Alice”, as entranhas de uma universidade corrompida por intrigas, invejas e fraudes

Bernardo Kucinski: romance policial que faz valer os holofotes que atualmente se voltam para o gênero no Brasil

Bernardo Kucinski: romance policial que faz valer os holofotes que atualmente se voltam para o gênero no Brasil

Sérgio Tavares
Especial para o Jornal Opção

No exercício de investigação “El Género Ne­gro — Ensayo Sobre No­vela Poli­cial”, Mem­po Giardinelli põe em xeque a genuinidade de uma literatura noir na A­mérica Latina. Partindo de aspectos ficcionais alicerçados em romances de autores como Dashiell Hammett e Raymond Chandler, o escritor argentino expõe uma série de deformações que resultou num tipo particular de tessitura, um gênero detetivesco que é delineado pela tradição, ao mesmo tempo que substanciado por contextos contemporâneos ligados umbilicalmente ao terreno sociopolítico. Ali estão os esforços psicológicos, os jogos de suspeitos, a atmosfera de medo e de mistério dividindo espaço com as críticas ao governo instituído, a violência urbana, a corrupção. A literatura policial latino-americana, conclui Giardine­lli, “não evita contato direto com a realidade, mas, muito pelo contrário, totalmente a incorpora”. E não há sentido de motivação mais categórico para definir “Alice”, romance recente do jornalista e cientista político Bernardo Kucinski.

Corre o ano de 1990. Nas primeiras horas de uma manhã invernal, a faxineira Marileuza recolhe o lixo do Instituto de Ciências Físicas da Universidade de São Paulo (USP), quando estranha a porta aberta da sala da professora Alice Nakamura. Ao adentrar o recinto, depara-se com o cadáver da jovem e bela do­cente caído sobre a escrivaninha. O rosto de nissei está transfigurado, um filete de sangue emerge de seus lá­bios. Marileuza foge e encontra Al­ci­des, o vigia. Ambos voltam ao local, suspeitam de AVC. Alcides já foi in­vestigador de polícia e toma prontamente o telefone, de modo a contatar o delegado Magno, titular da de­legacia local, com quem já trabalhou.

Aqui vem à tona o primeiro mérito de Kucinski, ao se lançar nos meandros do gênero de detetive: a construção de um investigador crível e empático. Com 30 anos de serviço policial, Magno finalmente tem em mãos um caso que se diferencia dos habituais crimes vulgares, a rotina que não “exige um Sher­lock Holmes”. Elegante, com os cabelos regiamente penteados para trás, traz da sua paixão pelo ci­ne­ma e por romances policiais uma postura resoluta de lidar com os fatos. Cita Georges Simenon e Rex Stout, num exercício de autorreferência, porém, convocando o efetivo nacional, está na mes­ma classe que os delegados Es­­pinosa, de Luiz Alfredo Gar­cia-Roza, e Lei­te, do ótimo Luiz Lopes Coelho, contista pioneiro do gênero policial no Brasil. Homens da lei experientes que, diante da crueza e do impacto da violência, revidam com o engenho mental, o método dedutivo de investigação.

cul10Ao chegar ao local, Magno soma, de imediato, uma série de evidências: as gavetas escancaradas, a xícara de café espatifada aos pés da escrivaninha, mechas soltando-se da cabeça do cadáver, uma folha de papel escrita com sangue a letra P (ou um B ou um R incompletos). O primeiro a ser inquirido é Rogério, orientando de Alice, cuja proximidade lhe dá condições de fornecer informações profissionais e pessoais da vítima. Ele conta que a professora vinha sabotando a rotina nos últimos dias, que pneus do seu carro ha­viam sido esvaziados, que tinha agendado en­contro com um físico nu­clear americano, que morreu às vésperas de concluir um trabalho importante. Ma­gno pergunta sobre a saú­de, se ela estava fazendo tra­tamento de quimioterapia. E, diante da negativa de Ro­gé­rio, intui que a queda de cabelo é sinal de envenenamento por arsênico ou tálio; suspeita reforçada pelo legista, ainda que detalhes não se encaixem. O que sabe é que não foi AVC, a professora fora assassinada. Por quem?

As investigações se adensam e Magno começa a se dar conta de que, para se chegar ao culpado (o clássico whodunit das tramas de Poirot e de Maigret), é necessário elucidar o motivo. De depoimentos de Rogério e, posteriormente, da professora Heloíza, amiga confidente de Alice, o delegado descobre um meio acadêmico corrompido por intrigas, invejas e fraudes, que “virou lugar de brigas pessoais em vez de brigas de ideias”. Chefes obrigam su­bor­dinados a incluir seus nomes em artigos, assinam pesquisas de outros como se fossem suas. Profes­so­res recebem supersalários ilicitamente, adicionais por tempo de aulas não ministradas, “os marajás da USP”. Contrária a tais esquemas, Alice era vítima de perseguições, podações e machismo. So­bretudo por parte do soberbo e calculista professor Akira, “que não perdia oportunidade de destratá-la”. Magno se percebe num território pantanoso, afinal, onde o crime transcende a intenção de morte, onde um tipo de veneno igualmente intoxica os alicerces morais.

Docente aposentado da própria USP, Kucinski salta da ficção para desferir duras críticas à universidade, expondo suas estranhas cancerosas. Uma instituição com feridas ainda abertas pela ditadura, que eliminou do seu quadro “o maior físico brasileiro” acusado de comunismo, que “demitiu, por abandono de cargo, uma professora que sabia que tinha sido sequestrada pelos militares”. Assim como no romance “K.” e na antologia “Você Vai Voltar pra Mim”, recém-premiada pela Biblio­teca Nacional, o autor trata de histórias reais por meio de personagens fictícios. A professora sequestrada é uma referência à irmã do autor, en­quanto o físico expulso é representado pelo personagem Zimmer­wald, agora crítico de arte, cuja diligência será fundamental para o desfecho da trama. Kucinski também lança um olhar desesperançoso sobre a sociedade da época, lânguida ante às promessas não cumpridas da abertura política, algemada pelo governo Collor e o congelamento das poupanças.

O efeito de relacionar um caráter ensaísta ao plano ficcional, contudo, não prejudica o romance em seu propósito elementar, manter o leitor num clima de suspense até as últimas páginas. Isso porque, além do alto conhecimento sobre o terreno da ciência física onde é ambientada a trama, o autor toma trechos da trilha revisada por Giardinelli em seu célebre ensaio sobre o noir latino. Narrada em terceira pessoa, a história é eventualmente infiltrada por elucubrações dos personagens. O foco não é o investigador, a vítima ou os suspeitos, mas a investigação sobre o que motivou a morte. Como observa o escritor argentino, “por detrás de cada crime, há uma manifestação de poder, ainda que o poder custe a vida de alguém”. Está nos livros de Simenon e de Stout, admirados e citados pelo delegado Magno. Deixando vestígios por onde passou em busca de influências, Kucinski entrega um romance policial que faz valer os holofotes que atualmente se voltam para o gênero no Brasil.

Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Queda da Própria Altura” e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc.

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