Attilio Corrêa Lima é analisado a partir de cartas ao pai

Anamaria Diniz, que já havia trabalhado em sua pesquisa de mestrado com os arquivos sobre o projeto que fundou Goiânia, publica livro que se debruça sobre o mundo de formação do arquiteto

Neste livro, Anamaria Diniz observa o modo como Attilio foi interiorizando o mundo pela formação, primeiro no seio da família, depois no universo acadêmico, social e intelectual | Foto: Divulgação

Em depoimento na abertura do livro de Ana­maria Diniz, “O Itine­rá­rio Pioneiro do Urba­nis­ta Attilio Corrêa Lima” (Campinas-SP, Paco Editorial, 2 volumes, 580 páginas, R$ 109,90), o filho do arquiteto, Bruno Corrêa Lima, hoje na casa dos 87 anos, diz uma frase que lapida ao mesmo tempo a triste sensação de ver o nome do pai no ostracismo e a esperança depositada no trabalho de anos de Anamaria sobre a obra e a vida do homem que arquitetou a nova capital de Goiás:

“Sempre falava a minha esposa: – Maia, esta moça é quem vai tirar o nome do meu pai do esquecimento, porque ela vive em Goiânia e é uma grande entusiasta do trabalho dele”, escreve Bruno, arquiteto como o pai, guardião de sua memória na curta vida que Attilio teve.

Arquiteto e urbanista, Attilio nasceu em 1901, em Roma, sendo logo registrado na Embaixada brasileira pelos pais. Ainda menino, voltou para o Brasil com a família.
Morreu aos 42 anos, em 1943, num acidente de avião quando retornava de São Paulo para a casa no Rio de Janeiro.

Como a própria autora registra, se Attilio tivesse vivido mais, teria alcançado voos muito mais altos, e estaria gozando hoje o mesmo prestígio de seus longevos contemporâneos, como Lúcio Costa e Oscar Niemeyer. Ele cresceu no Rio de Janeiro, onde se graduou em Arquitetura na Escola Nacional de Belas Artes (Enba).

Ao ganhar um concurso no final da graduação, casou-se e foi com a mulher para Paris. Durante cinco anos (1927-1931) os dois viveram na capital francesa, onde Attilio fez doutorado em Urbanismo, no Institut de Urbanisme de Université de Paris (IUUP – ou Instituto de Urbanismo da Universidade de Paris), com tese sobre a reforma urbana de Niterói. Foi o primeiro urbanista brasileiro a se formar no renomado instituto parisiense. Bruno, seu único filho, nasceu lá, no último ano de estadia.

Se Anamaria conseguirá estabelecer um vínculo de memória entre o arquiteto e a cidade que ele projetou, só o tempo dirá. Mas o trabalho de pesquisa sobre Attilio inegavelmente contribui para o esclarecimento das ideias por trás da gênese de Goiânia e do modo como ela foi construída. Anamaria, portanto, busca o resgate histórico de uma personalidade muito importante.

“O Itinerário Pioneiro do Urbanista Attilio Corrêa Lima” é um livro que nasceu da tese de doutorado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de Brasília (UnB), defendida pela autora em 2016. Ela já vinha de um texto incrível na dissertação de mestrado, “Goiânia de Attilio Corrêa Lima (1932-1935): Ideal Estético e Realidade Política” (Brasília, 2007), estudo que começou em 2004, quando teve o primeiro contato com a família Corrêa Lima. E agora amplia as perspectivas.

Projetando Goiânia
Para falar num jargão da psicossociologia, na dissertação (texto que pode ser encontrado na internet), Anamaria se debruça sobre a objetivação de Attilio (a realidade que ele constrói, suas realizações). Trata dos documentos históricos sobre a construção de Goiânia, analisando ponto a ponto, da escolha do local, de onde seria o marco zero, ao traçado do centro do poder, “um ‘triângulo equilátero’ que podemos interpretar como um símbolo, um ‘gesto divino’ do urbanista desejando que o traçado da cidade se eternizasse.”

“Posteriormente esse simbolismo estará no inconsciente dos futuros moradores da cidade, através do mito do manto da ‘Nossa Senhora’”. Ou seja, ela aproveita a deixa para tentar quebrar o código do mito, que persiste. “A cidade é pensada sob o ponto de vista do bandeirante, a ‘cabeça do triângulo’ não e a da santa, mas a do ‘rei’ mascarado de Anhanguera”, diz Anamaria.

Ainda na dissertação, a pesquisadora analisa a planta original, a partir de uma cópia conservada pela família, a construção das principais vias, do Par­que dos Buritis, do Automóvel Clube de Goiás (Jóquei Clube). “O urbanista destacou a importância de se preservarem as matas ciliares dos córregos Bo­tafogo e Capim-Puba”, diz ela.

“Analisando as imagens e símbolos que estão por trás das formas e dos traços urbanos é possível fazer uma conexão da estética urbana desejada, ou idealizada por Corrêa Lima, com as questões políticas nacionais e locais. Essa leitura simbólica dos elementos que estão presentes no urbanismo de Goiânia e que vão além do desenho urbano, fundamenta o traço do urbanista Attilio C. Lima em uma cidade centrada no poder do interventor Ludovico Teixeira. Con­cluímos que o modelo simbólico, ou o traço urbano, foi bastante coerente com “o cliente”, o interventor federal no Estado de Goiás”, escreve a autora.

Estátua de José Bonifácio de Andrada e Silva, na 6ª Avenida, em Nova York (foto de julho de 2016). A escultura foi feita pelo pai de Attilio, José Octávio Corrêa Lima, em 1955 | Foto: Gilberto G. Pereira / Jornal Opção

A tese
Já em “O Itinerário”, Ana­ma­ria recua no tempo para analisar o processo de subjetivação do arquiteto (grosseiramente falando, é seu processo de assimilação do mundo pelos estudos e pelas relações sociais e afetivas). Ela observa o modo como Attilio foi interiorizando o mundo pela formação, primeiro no seio da família, nos contornos do afeto, depois no universo acadêmico, social e intelectual, para mais tarde criar ou mostrar como deveria ser uma cidade.

A autora fez tudo isso analisando 58 cartas, das 150 trocadas entre Attilio e o pai, José Octávio Corrêa Lima, quando o filho estudava na França. O recorte biográfico é justificado pelos estudos de hermenêutica, que, segundo ela, buscam “compreender o que é o sujeito e quais são ‘os processos de subjetivação’.”

Com isso, permitia-se, ao mesmo tempo, “a leitura de sua trajetória profissional em diferentes escalas, identificando aquilo que é o singular e aquilo que é plural”, porque as cartas eram mais que uma correspondência entre pai e filho, “mas registro de uma época”, cartas trocadas “entre ‘amigos confidentes’, que se aconselhavam e compartilhavam experiências.”

A partir das cartas, a pesquisadora se lança sobre o acervo do arquiteto carioca, mantido com zelo sob a guarda da família no Rio de Janeiro, tendo acesso a croquis, projetos executivos, textos e memoriais, além das dissertações e teses sobre Attilio.

Com base nas teorias de redes de sociabilidade, a autora criou a malha argumentativa de sua tese, segundo a qual, Attilio foi um profissional marcado pelo estilo clássico (de sua fase na Enba) e pelo moderno (quando cursou Urbanis­mo em Paris), permanecendo nessa fronteira. A análise de sua vida e sua obra vale como uma amostra da história do urbanismo no Brasil.

Talvez tivesse avançado no mo­dernismo, como Niemeyer, se não tivesse morrido tão prematuramente. O recorte biográfico de Attilio é uma espécie de epicentro da história da arquitetura e do urbanismo, um ponto a partir do qual se discute uma série de questões estéticas, políticas e econômicas, necessárias para a construção de uma cidade.

Neste sentido, o livro de Anamaria Diniz é indispensável para ar­tistas, políticos e cidadãos interessados em história do urbanismo, história das cidades, história e memória e crítica memorialística. Analisar o pensamento de Attilio Corrêa Lima é observar a gênese de Goiânia, cujo embrião sofreu modificações, mas seus traços genéticos ainda podem ser vistos no centro histórico da capital e nas articulações com os bairros vizinhos. Embora “O Itinerário” não aborde a questão da gênese goianiense, a autora trata, com bastante lucidez, da gênese do pensamento de seu criador.

Ao observar a rede familiar, para dela compreender as fontes da herança cultural de Attilio, a autora puxa junto a tessitura do afeto e o modo como as relações afetivas criam o bojo da influência. O avô paterno de Attilio, José Francisco Corrêa Lima, era um mascate com pouca escolaridade que adorava esculpir em madeira.

Cultivo das relações
Por causa dessa influência, o filho José Octávio Corrêa Lima, pai de Attilio, virou escultor, um respeitado artista plástico com grande envolvimento com as artes plásticas no Rio de Janeiro e uma certa inserção no mercado internacional, a ponto de se tornar diretor da Enba.

A autora dedica um capítulo a José Octávio justamente para mostrar o peso de sua influência, e confirma seu sucesso no meio. É dele a estátua de José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca da Independência do Brasil, na Sexta Avenida, em Nova York.

Attilio, por sua vez, assimilou essa relação com o mundo das artes e passou a pensar a partir do ponto de vista artístico, ao mesmo tempo que não perdia o contato com a ciência. Sua escolha pela arquitetura tem essa amarra familiar. “O pai escultor, apoiado pelo pai mascate, modificou a trajetória social do seu descendente e com certeza determinou uma herança cultural esmeradamente transmitida”, diz Anamaria.

A arquitetura dialoga com o mundo da prática, dos cálculos, e com o mundo das ideias subjetivas, da arte, das formas, dos emoções. Por causa dessa mesma influência, o mesmo fluxo de relações apreciadas em família, Bruno, filho de Attilio, virou arquiteto, e Rachel, a neta do fundador de Goiânia, virou museóloga.

A família de Attilio tinha boas relações com o poder. José Octávio, por exemplo, fazia parte do círculo social do presidente Campos Salles (segundo presidente civil do Brasil, de 1898 a 1902). Esta informação diz muito sobre como Attilio chegou a Goiás. O cultivo das relações provavelmente vem do avô de Attilio também, adquirida com a prática do comércio, das viagens, dos negócios de mascate. Está implícito aí o aprendizado do jogo social.

Modernidade
Uma das maiores virtudes profissionais de Attilio estava na capacidade de observar e assimilar o contexto social em que se inseria. Segundo Anamaria, ele foi “um homem de fronteira entre o século XIX e o XX, representando os conflitos e contradições de seu tempo.” Começou nos estudos da arquitetura clássica, dentro dos conceitos das Beaux-Arts francesas, mas quando foi para a própria França, foi determinado a estudar urbanismo.

O curso de urbanismo era o que havia de maior novidade no país de Haussmann, um curso recente, fruto da necessidade de reconstrução das cidades europeias, arrasadas pelos combates da Primeira Guerra Mundial, um curso nascido no seio da modernidade europeia. “Ele percebeu que as transformações tecnológicas do mundo do pós-guerra exigiam outras respostas, além daquelas de caráter estético.”

Há uma passagem interessante no livro, em que Anamaria cita o interesse de Attilio pela racionalidade do modernismo de Le Corbusier, numa relação com a mecânica e os motores de avião. Qualquer aproximação desse interesse da arquitetura moderna com a construção do Plano Piloto de Brasília, projetado por Niemeyer, não é mera coincidência. Deve haver uma bibliografia imensa sobre isso.

Niemeyer estudou na Enba, depois da reforma feita por Lúcio Costa, implantando um modelo de estudo com base no modernismo encabeçado por Le Corbusier na Europa. Talvez tenha havido uma indefinição no espírito de Attilio ao não se atirar no modernismo, e acabou escolhendo a art déco como modelo arquitetônico para Goiânia.

Attilio foi o contrário de Niemeyer (1907-2012), seis anos mais novo que ele (o que faz uma diferença brutal no modo como se vê o mundo). Além da diferença de idade, outra diferença de escolha arquitetônica é o tempo. Ao ser chamado para fazer Brasília, Niemeyer já tinha 50 anos. Attilio tinha 32 anos quando foi contatado por Pedro Ludovico Teixeira para projetar uma capital de Estado.

Por que ele? Porque “era o único profissional brasileiro formado em urbanismo, com experiência em planejamento urbano, uma vez que colaborou nos planos de Agache para o Rio de Janeiro, enquanto esteve em Paris”, além de ter estudado no IUUP, diz Anamaria em sua dissertação.

Segundo, Anamaria, Attilio “não se sentia seguro para dar um salto em direção à cidade moderna corbuseriana.” Mas também, “o isolamento do canteiro de obras, as dificuldades dos materiais e a mão de obra rudimentar inviabilizaram sua pretensão” de fazer de Goiânia uma cidade moderna.

Intenções
À medida que o tempo vai passando, o trabalho de Attilio vai melhorando em direção ao moderno. Em Goiânia, tinha a ambição de construir uma bela cidade, criando espaço mais clássico dentro do qual pretendia erguer prédios modernos. Não deu muito certo. Acabou entregando o projeto inconcluso, num confronto com a família Coimbra Bueno.

Mas em 1937, participou da elaboração da Estação de Hidroaviões do Aeroporto Santos Dumont. “Nesse projeto, aplicou os preceitos da arquitetura moderna aos moldes de Corbusier”, como “pilotis, janelas em fita, a planta e a fachada livre, marcando a paisagem carioca”, diz Anamaria.

O primeiro volume de “O Itinerário Pioneiro do Urbanista Attilio Corrêa Lima” é constituído pelo percurso biográfico do arquiteto, com foco no período em Paris. Este pode ser aproveitado por qualquer leitor interessado em projetos de arquitetura. O segundo volume traz os fac-símiles das cartas analisadas, de interesse de pesquisadores.

No primeiro volume, há inclusive uma síntese da grade curricular do curso de Urbanismo do IUUP, com todos os elementos de estudos, e o modo como se estuda uma cidade, o plano de criação de um espaço urbano, com as seguintes seções: Evolução das Cidades (em que a cidade é vista “como um ‘ser’ em constante evolução”), Organizações Social, Administrativa e Econômica das Cidades, e Arte Urbana (Arte Técnica da Construção das Cidades).

O livro de Anamaria Diniz vale pela análise das “riquezas nas descrições das experiências de temas relevantes para a história do urbanismo no Brasil” nas cartas, que mostram uma intricada relação entre a vida e da obra do arquiteto. l

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