Atriz Camila Morgado: “O ator tem que ser vertical, tem que se aprofundar nas questões do indivíduo”

Atriz abriu o Fórum de Cinema do Fica 2015 com um bate-papo sobre a construção da personagem

Atriz Camila Morgado: "Eu gosto de personagem. Se ele é maravilhoso, tanto faz se é para teatro, televisão ou cinema"

Atriz Camila Morgado: “Eu gosto de personagem. Se ele é maravilhoso, tanto faz se é para teatro, televisão ou cinema”

Lutei pelo justo, pelo bom e pelo melhor do mundo”

Olga Benário

Yago Rodrigues Alvim

Ilustre por seu trabalho no filme “Olga”, a atriz Camila Morgado, que já se dedicou a outras personagens também aclamadas pelo público, abriu o Fórum de Cinema da 17ª edição do Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica). Ao lado do cineasta Aluizio Abranches, diretor de longas como “Do Começo ao Fim” — e com quem gravou um longa-metragem recentemente, ainda não lançado — a atriz bateu um papo com o público sobre a construção da personagem no teatro, televisão e cinema. Com o auditório da unidade de Sant’Ana da Universidade Federal de Goiás (UFG), na Cidade de Goiás, cheio, a atriz relembrou seus longas e novelas. Ao falar de “Olga”, não teve outro jeito a não ser, hora ou outra, segurar o fôlego e o choro. Você lê, a seguir, um pouco desta entrevista feita na quarta-feira, 12.

Quais as diferenças de atuação e interpretação no teatro, televisão e cinema?
Camila — É uma pergunta muito frequente. Na área de atuação e interpretação não tem cartilha, pois nós falamos do indivíduo e o indivíduo não tem cartilha. Existe diferença, sim, entre teatro, televisão e cinema, porque são linguagens diferentes. Comecei pelo teatro e ele é muito do ator; é a linguagem que mais é do ator, pois, quando acaba a direção, acaba cenário, figurino, tudo, só fica o ator. É um trabalho muito artesanal. E como existe uma diferença de perspectiva — você está no palco, diante o público e é muito o agora — o ator tem que ser muito expressivo para o público enxergar e compreender o que ele está dizendo. No cinema não; o olho humano é da câmera. O cinema é do diretor. Mas isso não é regra. Às vezes, o cinema pode ser grande e o teatro pequeno. A televisão é um folhetim, você conta uma história que vai todo o dia para a casa das pessoas. É uma história mais simples. As pessoas vão para casa e estão fazendo as coisas, parando vez ou outra para ver. Então, é uma linguagem mais simples. Você não pode dificultar muito, senão a linguagem não se aproxima do público. Ainda assim, “qual a diferença?”, eu não sei se tem, mas essas coisas que citei influenciam.

Diretor Aluizio Abranches: "Cinema não é só do diretor Eu participo desde o início até o último minuto e é um processo muito longo; leva quase um ano"

Diretor Aluizio Abranches: “Cinema não é só do diretor Eu participo desde o início até o último minuto e é um processo muito longo; leva quase um ano”

Abranches — Com o que a Camila falou, eu concordo plenamente. Mas cinema não é só do diretor, depende também da direção e do ator. Eu adoro ator, não chego com tudo marcado. Eu participo desde o início, até o último minuto. Desde roteiro até depois do lançamento. O cinema é um processo muito longo, demora um ano para você terminar um filme. O cinema é mais trabalhado e ele fica, perdura. Nós podemos assistir um filme de cinquenta, oitenta anos. Por isso, é mais trabalhoso e bem produzido. A televisão e as séries também, ainda que mais breves. E, quanto ao ator, vai muito da dedicação que ele tem. A Camila, por exemplo, se dedica às três formas de atuação. No teatro, tevê e cinema. No teatro, é onde mais se ensaia. No cinema, eu ensaio; mas muitos diretores não ensaiam e improvisam. Na televisão, o ensaio é pouco, pois é quase um filme por dia.

Camila, seu começo foi no teatro e você trabalhou com Gerald Thomas e com Antunes Filho. Qual a diferença entre os dois diretores?
Eu tive uma sorte, pois eu estudava na Casa das Artes de Laran­jeiras (CAL) e nossa turma se formou com o Gerald Thomas. Logo depois, eu fui para o Centro de Pesquisa Teatral (CPT) do Antunes Filho. No CPT, com o Antunes, foi como se um mundo novo tivesse se aberto. Ele é um homem da arte. Eu era muito jovem e eu fui parar neste centro de pesquisa com esta pessoa que é genial. A primeira coisa que eu entendi é que o ator precisa de técnica. Pois, muitas vezes, achamos que o trabalho do ator é muito intuitivo. Não é só uma energia, uma intuição. Você trabalha o corpo, a voz, a alma. Você tem que entender do indivíduo. Ele também falava que não existe cartilha. Existe um trabalho diário. Você trabalha seu corpo, sua voz, você se conhece, entende de que matéria somos feitos, quais as angústias, as sensações, os sentimentos. Ele me disse para me aprofundar. E como fazemos isso? Foi quando ele me contou sobre a verticalidade. O ator tem que ser vertical, se aprofundar nas questões. Quando você está com uma personagem, você tem que se aprofundar nele. E quando se aprofunda um pouco, você espera um tempo e, então, se aprofunda mais. O tempo faz com que você conheça a personagem. O aprofundar é vertical, é a matéria, é do que é feita a personagem. Já o horizontal são os detalhes que você coloca, encaixa. Há uma pesquisa constante. Você precisa ter técnica, pois o ator trabalha em cima da repetição. Você precisa fazer que aquilo volte de novo ao seu corpo. É técnica.

Eu voltei a trabalhar com o Gerald Thomas e ele é outra pessoa muito importante na minha vida, pois ele trabalha com arte. É difícil definir o que é arte, não sabemos. Mas arte te faz refletir, te faz questionar. Ambos trabalham com isso. Fiquei ali, com o Gerald, na Cia dele, por quatro anos e eu aprendi na prática. Diferentemente do Antunes, pois com ele, eu aprendia na teoria, na pesquisa. Com o Gerald, enquanto eu estava no palco, ele falava alguma coisa no ouvido e eu ia mudando; no dia seguinte, ele já mudou o texto. Portanto, é um trabalho em processo. Isso me deu muita prática. Ambos foram fundamentais para mim, pois são grandes pensadores, encenadores; eles são pessoas que gostam muito do que fazem. Eu fiquei contaminada, pois me ajudaram muito a entender o que eu estava fazendo.

Como foi o trabalho com a novela “O Rebu”? E, também, como foi o trabalho com o Jesuíta Barbosa?
Eu já tinha trabalhado com a mesma equipe de “O Rebu” na novela “O Canto da Sereia”. Eu, o diretor José Luiz Villamarim, o autor George Moura e o diretor de fotografia Walter Carvalho já tínhamos trabalhado e, assim, tínhamos intimidade, pois viajamos e era um núcleo bem pequeno de atores. Quando cheguei em “O Rebu”, já tínhamos este passado e, assim, foi mais fácil. Eu tive preparação, sim, e foi o que me ajudou. O “Zé” é um diretor que sabe muito do ator e ele me pediu algumas coisas que eu segui. O personagem não tinha uma moral; ela gostava de se divertir de todas as formas. Ela tinha qualidades muito específicas. Eu e a Vera Holtz, que fazia a minha mãe, já éramos amigas. Fizemos uma peça juntas e também já tínhamos intimidade. O Jesuíta, eu não conhecia. Tivemos uma preparação de elenco com o Chico Accioly. E, desde o primeiro dia, tivemos muita facilidade, que foi crescendo. Chegou um momento em que o Chico disse que não precisávamos fazer mais nada, pois eu e o Jesuíta já tínhamos também muita intimidade; e ele é um ator muito fácil. Foi sem bloqueio. Simples e aconteceu.

Como foi a preparação para “Casa das Sete Mulheres”?
Camila — Minha primeira aproximação é pelo texto. O processo de pesquisa, que é muito delicado, é o que eu mais gosto; mais do que decorar texto, que é um porre. Quando você testa tudo o que quer, é quando a criatividade está borbulhando e sua cabeça não para. Você começa a observar e trazer imagens para o que leu. É um mundo que se abre. Você conversa com o diretor, faz suas anotações e é tudo muito pessoal. Por isso, os personagens ficam diferentes se eu ou outro ator o faz; afinal, colocamos a maneira como enxergamos a vida no que fazemos. Não tem outro jeito, a matéria-prima do ator é ele mesmo. Eu começo um processo de criação que se esbarra em todos os lados. Desde fotografias, ao que eu vejo na rua, ao que lembro do que vi ou li, minha cabeça não para. É algo que começa e não para. E, mesmo quando termina, continua assim. Foto­grafia e filmes me ajudam muito. Você tem que descobrir como sua criatividade trabalha, se é que conseguimos descobrir isso. Você não pode se criticar, se julgar. Eu aprendi isso. Um gosta, outro não; é a opinião do outro, não tem muito o que fazer. Não se julgue, faça com verdade. Busque a sua verdade. “Como?”, eu não sei. É difícil, pois, hoje em dia, as pessoas representam o tempo todo. Buscar o espontâneo já é difícil, portanto, quanto menos representar, mais perto da verdade nós estaremos, mais perto do espontâneo.

Abranches — Por isso, a importância da técnica para o ator. Por exemplo, eu reconhecia coisas na Camila, no set de filmagem, que eram do Antunes; dá para ver por onde ela andou. Eu falava “Antu­nes”. Você sabe. E como ser espontâneo? Estudo e técnica, que são muito importantes. Se tiver alguém que queira ser ator ou atriz, estude muito; é importantíssimo.

Como foi sua experiência com o filme “Olga”? Qual foi sua maior dificuldade e o que você levou do filme?
Esse filme é muito específico, pois eu trabalhei cinco meses. Foram dois meses e meio me preparando e dois meses e meio gravando. Eu tinha acabado de fazer “A Casa das Sete Mulheres” e eu estava exausta. Eram duas heroínas, mas muito diferentes. Eu tinha 27 anos, na época. Hoje, eu tenho quarenta. Eu pensava que eu não fosse conseguir e o Jayme Monjardim, o diretor, queria que eu fizesse todas as épocas dela, desde os quinze até os 33 anos. Eu era muito ansiosa, fiquei muito nervosa. Comecei a estudar. Tinha que entender da época, pois era uma época que eu não vivi. Tive que estudar história. Eu até fui a Cuba, pois precisava ver algo de perto, entender que aquilo existiu, que era de verdade. Foi a melhor coisa que eu fiz. Depois, me preparei fisicamente. Fiz aula de defesa pessoal, aula de tiro, alemão e russo; eu ficava o dia todo estudando. Uma aula atrás da outra. Foi muito desgastante e, para piorar, a história da Olga é muito intensa. E dói, não tinha como. Eu estudava, estudava e não sabia onde ela estava e, como era um personagem que já existiu, era muito complicado. Você tem que ser fiel. Conheci a filha e a tia, atualmente já falecida. Dona Lygia me ajudou muito e a Anita também. Peguei um livro com as cartas entre Olga e Prestes e foi assim que eu cheguei a ela. Eram cartas dos dois. Ela contava sobre sua pequena, contava sobre seu dia a dia, contava como ela era, do material que ela era feita. Esse livro foi muito importante, pois me possibilitou entendê-la. O processo, ao todo, foi muito desgastante. Eu não tive escape, tive que entrar, mergulhar naquilo e, quando acabou, foi mais difícil do que quando começou. Eu estava completamente envolvida e exausta. Eu já sou muito magra. Na época, eu estava com 46 kg e com a cabeça raspada, vivendo aquela história e é um buraco que fica. Não tem um botão que você aperta para voltar a ser quem você é. O filme me desgastou, pois tem essa questão física muito forte, o que me deixou muito vulnerável. Eu fiquei vulnerável, é isso. Mas, aprendi muito. Pois, com 27 anos, fazendo um personagem deste tamanho, a vida fica diferente na prática. Psicologicamente, você aprende mais de si, até porque para fazer o outro, você tem que saber quem você é. Aprendi muitas coisas.

Como você conseguiu “desligar”?
Na época, eu votei para terapia. Eu fiquei muito triste, pois você se apaixona pelo personagem e como era tudo muito intenso, eu fiquei muito apaixonada. Eu senti uma saudade horrorosa. É um processo que você vai se afastando, se separando aos poucos e entendendo que as coisas acabam. A terapia foi muito boa para mim, me ajudou a lidar, pois se conhecendo melhor, você se machuca menos. Existe uma defesa, eu fiquei mais forte.

Você fez muitas mocinhas. Como foi fazer uma norte-americana e vilã, na novela “América”? Como foi fazer o anti-herói?
A vilã tem uma coisa boa, pois o público te odeia e isso significa que o trabalho está funcionado. Tem que ter uma autoestima boa. Me deu uma experiência de perceber como o público de novela é como torcida de futebol. Eles torcem e isso é muito bom, pois você vê como o trabalho está.

Atriz Camila Morgado conta que precisou fazer terapia depois de fazer o filme “Olga”: “Eu fiquei muito triste, pois você se apaixona pelo personagem e, como era tudo muito intenso na história, eu senti uma saudade horrorosa”

Atriz Camila Morgado conta que precisou fazer terapia depois de fazer o filme “Olga”: “Eu fiquei muito triste, pois você se apaixona pelo personagem e, como era tudo muito intenso na história, eu senti uma saudade horrorosa”

Qual o trabalho mais difícil e o mais marcante da sua carreira?
O mais difícil, eu tenho que citar a Olga, pois, eu trabalhei muito tempo e tive que me preparar muito, ter muita bagagem. Foi o mais complexo por sua carga e tempo. Na sexta semana, seria cena da prisão, em que a filha da Olga é retirada dela e, até ali, eu estava uma pilha. Era o auge. Depois que passou aquela semana, eu relaxei, pois o pior já tinha passado por mais que eu tivesse que ir para o campo de concentração. Esta cena, do nascimento, em que ela fica com a criança e, depois, é retirada dela, foi a mais complicada, pois eu não tinha filho; não tenho. Ficava pensando na perda e perder é isto, você não recupera. “Perder” uma coisa ou outra, ficamos chateados, mas acaba recuperando. Mas, quando você não recupera, o buraco fica e fica muito forte, grave. Isso se aproximava do que é perder um filho. Mas, ainda assim, é mais. Imagina perder um filho? Eu vi uma cena de uma leoa perdendo um filhote. Ela lutou fortemente até não poder mais. Aquilo me ajudou. Eu acho que era por aí, pois nós somos animais. As cenas espontâneas são as mais difíceis. Eu, atualmente, estou ensaiando um filme que se chama “O Animal Cordial”. Se passa num restaurante e acontece um assalto; é um filme muito pesado. A cena do assalto é o espontâneo e, do espontâneo, a gente não sabe. É como morrer e você não sabe. Ninguém volta para dizer. São cenas trágicas, são cenas em que algo te atravessa e você não sabe mais. São muito difíceis, você não racionaliza. Entra, então, a intuição. Pois, como você estuda, estuda, você sabe que não dá para fazer mais nada. É o jogo de cena. É uma troca com o outro ator, com suas reações. É o incontrolável.

Fellini, cineasta italiano, falava que o ator é o maior mentiroso. Como é isso?
Camila — Qual o poema do Fernando Pessoa? “O ator é um fingidor/Finge tão completa­men­te/Que chega a fingir que é dor”. Somos mentirosos e não só o ator. Todo mundo mente. A diferença é que o ator diz “eu minto”.

Abranches — O ator interpreta. No inglês, é play; no francês, é jouer. Não é mentira, é uma interpretação. De que maneira? Cada ator tem sua técnica e o diretor colabora também. Não é exatamente uma mentira. É interpretar e cada um tem seu jeito.

Camila — Eu acho que nós, atores, acabamos até sendo mais verdadeiros. Pois, do tanto que ficamos neste processo de liga e desliga que, na vida, nós falamos “vou ser verdadeiro” ou tentar, ao menos.

E na comédia, como é?
Abranches — Ela dá um show. Ela fez par romântico com o Alexandre Borges. Eles se encaixam. A Camila é engraçadíssima.

Camila — Eu adoro fazer comédia, pois é leve e é outro botão, outro acesso. Comédia é dificílimo, pois é crítica social. O filósofo francês Henri Bergson fala da comicidade. Procurem o livro “Riso: Ensaio sobre a Significação da Comicidade”; lá, ele fala que o riso é uma crítica do social. A comicidade é fruto de um pensamento construído, ela vem muito da cultura; a comédia inglesa é diferente da francesa e assim por diante, pois ela revela como você pensa, como a sociedade pensa. O livro é bárbaro, quem é ator deve lê-lo, pois é um bom objeto de reflexão. A comédia também é ritmo puro, você tem que ser absolutamente espontâneo. Se jogou uma piada que nem riu, continua e vai para próxima. Ela é feita para plateia, não se faz sozinho.

Como foi trabalhar com o Leandro Hassum em “Até que a Sorte nos Separe 2”?
Camila — O Hassum é hilário. Você acorda rindo e dorme rindo. Foi um personagem muito específico e não tinha muito esforço, era só ir ao Hassum, pois ele é engraçado o tempo todo. Comédia é muito bom, porque você fica leve e é uma delícia.

Abranches — E é tão difícil quanto fazer drama.

A Netflix anunciou, recentemente, uma série totalmente brasileira. Camila, como você vê isso?
Hoje, os dispositivos têm mudado. O mercado é muito melhor, mais competitivo. A abertura é muito legal, você trabalha com outros lugares, outras pessoas, tem infinitas possibilidades. Você percebe que elas existem. Assim, teremos que ficar melhores. Mudou muito, nós somos internet e qualquer pessoa pode fazer; se você tem uma ideia, você pode fazer e aprender com ela. Você cria uma cena autoral, se desenvolve. A internet possibilita isso. Você se desenvolve, é muito melhor.

O que você prefere fazer?
Eu gosto de personagem. Não tenho muito isso. Às vezes, um ou outro te proporciona algo mais ousado, mais entrega. Cinema te proporciona um aprofundamento melhor, pode ser mais ousado. Série também. Novela é mais fechado, já sabemos o molde. Mas, se o personagem é maravilhoso, tanto faz.

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