“Até você saber quem é”: a travessia de um escritor

O primeiro romance de Diogo Rosas G. nos dá a nítida certeza de que estamos diante de um estreante de peso que deverá surpreender-nos com outras boas criações no futuro

Diogo Rosas G. estreou no terreno da ficção com “Até você saber quem é”, em 2016 | Foto: Tatiana Foucz

Adalberto de Queiroz
Especial para o Jornal Opção

O romance de estreia de Diogo Rosas G. evidencia o enorme potencial do autor que, além de escritor, é diplomata e tradutor, e luta com consciência pela busca de sua identidade artística e por uma forma de expressão madura. Considerado excepcional por uns e uma narrativa “falha” por outros, que apontam como erro do autor sua opção pela estrutura técnica do romance curto (típico e adequado aos leitores do séc. XXI), “Até você saber quem é” (1ª. ed.- Rio de Janeiro: Record, 2016. 222 páginas) nos dá a nítida certeza de que estamos diante de um estreante de peso, que conhece a arte da escrita e que deverá surpreender-nos com outras criações de igual envergadura, no futuro. Após a leitura, ficamos com a vívida impressão que talento não falta, o que torna alvissareiras suas perspectivas futuras como romancista.

Abri o livro num período de veraneio, numa praia na Bahia, e não consegui parar de ler — apesar de curto, o romance é intenso e deixa ao leitor a sensação de que deve haver uma continuação. Os personagens não nos saem da cabeça. As referências literárias são primorosas, deixando-nos com um impacto que sugere leituras posteriores. Estou seguro de que, independente das falhas técnicas que possa conter, este romance merece ser indicado, com segurança, aos leitores, pois estamos diante de um escritor que diz ao que veio, com muitos méritos para conquistar um público significativo, capaz que é de construir histórias de boa qualidade; Diogo Rosas G., parece-me, há de encontrar um lugar de destaque na nova literatura nacional.

Já faz algum tempo que me propus a escrever sobre novos autores, tentando assim contribuir para uma fortuna crítica do acervo de jovens escritores brasileiros. Folheando um livro antigo, coloquei-me na pele do crítico Edmund Wilson (1895-1972) que, aos 70 anos, confessava ser “um homem do século XVIII — ou, seja como for, de não muito depois dos primórdios dos séc. XIX”. Ao modo de Wilson, sinto-me como um cavalheiro do século XX, tateando entendimento no século XXI. Ao final de “11 Ensaios” (Companhia das Letras, 1991. Trad. José Paulo Paes), Wilson olhava para si mesmo como uma pessoa que deixara de lado os hábitos mais comuns da massa estadunidense e se incluía entre os hábitos do “crítico aos sessenta” que “não fazia empenho algum de manter-se em dia com os autores americanos mais jovens”, dedicando-se aos clássicos com os quais sentia-se mais à vontade para ler. Também eu, às vésperas do 62º aniversário, não vejo TV, não vou ao cinema, e vejo muito poucas séries televisivas. Viajo muito e me dedico ao prazer de ler.

Guardadas as enormes proporções de talento crítico que me separam de Wilson, ouso convidá-lo, leitor, a encarar “Até que você saber quem é”. E por quê? Se sabemos que poucos leem romances hoje em dia, por que, então, dedicar tempo a esse gênero literário, quando há tanto mais a sua volta para entretê-lo e diverti-lo em seu “spare time”? Ora, decidi lançar um olhar para os jovens autores brasileiros que operam num contexto de saída do atoleiro cultural em que se meteu o país, com autores reféns da ideologia, onde sobram exemplos de narradores presos aos piores vícios da literatura que, segundo de Tzvetan Todorov em “A Lite­ratura em Perigo”, são: o formalismo, o nihilismo e o solipsismo. Procuro nos jovens escritores a riqueza do que fazem e de como buscam a beleza para se livrarem desses males. Se serventia não tiverem, essas minhas tentativas de “essais” servirão para apontar algumas hipóteses sobre o terreno da construção de uma literatura livre das influências malsãs dos anos que estivemos na prisão ideológica das universidades, dos produtores cinematográficos, dos jornais e dos blogs a serviço do poder.

Não estou aqui interessado “em falar das categorias que estão em jogo no texto literário”. Pretendo descobrir, garimpar, arrancar dos romances, poemas e crônicas lidos “o sentido do texto”, como assinala Todorov — daí, porque quase nunca enfatizo o enredo. A poética de enredo pouco se me dá, até porque os esqueço bem rápido, ficando-me apenas a essência do texto, aquilo que me deixa certo de que estou diante de uma obra de arte e não de um bloco de mármore.

Assim, peço ao leitor que abra o livro de Diogo Rosas G., que retrata uma história passada na última década do século XX, sob o signo dos acontecimentos candentes em que vivia o país. A história é narrada por um moço da cidade de Curitiba, que conta a saga de um jovem escritor amigo, “pactário” do Diabo, que sonha em superar Guimarães Rosa e se vê em meio ao turbilhão de depressão, insônia e crimes. A “travessia” do protagonista Daniel Hauptmann é-nos reconstruída por seu amigo e secretário (Roberto) que, ao mesmo tempo, nos leva a conhecer a ascensão e queda do jovem talento e nos oferece, ele próprio, um romance sobre a vida do amigo morto. O sobrevivente Roberto começa:

“Em uma tarde de setembro de 1992, enquanto o Congresso Nacional votava, em sessão extraordinária, o impeachment de Fernando Collor, um jovem alto, de cabelos claros e barba por fazer, desceu a rua General Carneiro, percorrendo as três quadras que separavam seu apartamento da livraria do Chain. A caixa de papelão que trazia nos braços era grande, mas o peso dos livros em seu interior e o calor úmido, fora de época, forçaram duas paradas ao rapaz, que tinha pressa… No exato momento em que Daniel exibia sua obra no Chain, eu discutia o verdadeiro lançamento do livro com André Weiss ao telefone. (…) O sonho de ser publicado havia transformado Daniel numa criança”.

Mas, se não for tão apressado quanto o personagem, o leitor verá a advertência da “Nota ao leitor”: “Sei que muitos chegarão às páginas deste livro buscando entender os homicídios cometidos por seu personagem principal, e isso não me surpreende. Thomas Hobbes escreveu que todos os crimes provêm de alguma falha do entendimento, de algum erro de raciocínio ou, ainda, de alguma força súbita das paixões…”. Pronto! Estamos aí a bordo da viagem ao coração de Daniel Hauptmann e sua obsessão com a escrita (e lançamento) de “Os diálogos do Castelo”; estamos diante de alguém em busca de uma travessia — romance dentro do romance do romance, do qual sabemos quase tudo pela mão do onisciente Roberto, que além de amigo é jornalista e secretário do escritor. Roberto se transforma em nosso guia pela história em que os personagens secundários são “vítimas e sobreviventes” da fúria demoníaca do possesso Hauptmann.

O livro assemelha-se a essas bonecas russas (“matryoshka”) em que você retira uma a uma, como num parto de uma boneca saindo de dentro de outra maior, representando o ato do parto. “Até você saber quem é” contém, pois, o germe de muitas histórias. O que vemos são personagens que “chegam e saem de um lugar encantado, assombrado por memórias e associações, feito de símbolos e linguagem”, para usar a expressão do próprio autor. Este ir e vir dos personagens possibilita ao leitor uma reflexão sobre o seu próprio devir — num processo de autoconhecimento.

Dessa forma, “Até você saber quem é” certamente pode ser lido por quem não é (nem pretender ser) escritor, olhando para o livro como “a história de alguém que mata, de alguém que morre e de alguém que volta para casa” — isso já é muito além dos demônios de uma Curitiba mítica — lugar de onde deseja sair — se anseia por liberdade. Nesse sentido, os pontos cardeais deste “romance epocal”, tal como é definido por Edwin Muir, são a própria Curitiba, São Paulo e Paris. Se o leitor for católico (ou mesmo ateu), poderá vislumbrar no livro um ponto de inflexão com a questão da possessão demoníaca (o Mal) — repensando aquele estágio em que Jean Baudrillard chamava de “transparência do Mal”… Ele, o Mal, está por toda a parte, em todos os poderes da República, na vida do país, como diria Adélia Prado.

ROSAS G., Diogo. “Até você saber quem é”, 1ª edição, Rio de Janeiro: Record, 2016, 222 páginas (capa: Marcelo Girard) | Foto: Reprodução

Outra variável importante no romance é o poder do nome, do autoconhecimento, da importância de saber-se um indivíduo — de “saber-quem-é”. Este poder do nome é central no romance. Assim, as referências à prece de São Bernardino de Siena — que é, para os ecumênicos de hoje em dia, quase um mantra, pois nos ensina que o poder da oração poderia ter livrado o personagem de sua tragédia neste que se assemelha ao “romance epocal”, mas que permite desdobramentos futuros a Diogo, para deleite de nós, leitores conquistados neste primeiro romance.

Católico confesso, Diogo Rosas G. não se nega a buscar epígrafes valiosas de um antirreligioso (Rushdie) e de um agnóstico-niilista (Cioran). Isso não enfraquece o compacto romance que serve como um alerta ao leitor sobre a presença do Mal na literatura (seja pela referência ao “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, seja pela presença obsessiva da maldição do “pactário” Daniel); sobre a Ambição como o mal central das “corjas literárias” (notável na referência a Leminski e à polêmica Tolentino vs. Campos); sobre o mal da Soberba (a carreira inteira do editor André Weiss, um típico editor dos dias atuais no Brasil); sobre o mal da “falta de disciplina dos Afetos” (S. Bernardo de Claraval) — evidente no comportamento afetivo aleatório de Hauptmann; sobre o mal das relações deterioradas pela contestação dos pais (Hauptmann e o presente do pai — a faca, que terá papel vital no clímax romanesco); enfim, de um mundo compactado em equívocos pela simples negação do Demônio.

O Catecismo da Igreja Católica ou a simples oração do Pai-Nosso talvez livrasse o protagonista de males conjunturais — e do Mal maior do pacto com o Demônio… é uma hipótese que parece saltar da narrativa dentro da narrativa. “Livrai-nos do Mal” não é dito nem pronunciado em nenhum momento, apesar de o personagem saber da força do Nome na consecução de seus objetivos em direção ao Sagrado ou à perdição de sua alma.

Hauptmann talvez soubesse a prece e esta petição: “Livrai-nos do Mal como requisito necessário e suficiente, porque, afinal: o Mal não é uma abstração, mas designa uma pessoa, Satanás, o Maligno, o anjo que se opõe a Deus. O «Diabo» («dia-bolos») é aquele que «se atravessa» no desígnio de Deus e na sua «obra de salvação» realizada em Cristo”. Porém, ao contrário de rezar, o protagonista empenha-se em firmar um pacto diabólico em nome do sucesso — o que o leva à depressão, à insônia e ao desespero final do clímax do romance. Aquele Hauptmann que faz a travessia da Curitiba asfixiante, conquistando o mundo ao preço de ter-se tornado um “pactário” (como o personagem Riobaldo Tatarana, transformado em Urutu Branco, por Rosa), é um sucesso para o mundo, mas um derrotado interior — ou, nas palavras do Evangelho: “Que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Mc. 8:36).

Dito tudo isso, deixo-lhe, dileto leitor, com a prece de São Bernardino com a recomendação de que leia e tire suas conclusões: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tende piedade de mim, pecador”, relembrando que, sim, vale a pena ler “Até você saber quem é”. Henry James tinha razão quando afirmava que “o romance é a mais independente, a mais elástica, a mais prodigiosa de todas as fôrmas literárias” com sua pluraridade de ação, seus conflitos e dramas capazes de nos levar a um movimento de interiorização e reflexão, ferramenta potencialmente poderosa para você saber que é. l

Adalberto de Queiroz é poeta e jornalista, autor de “Destino palavra” — (Poemas, 2016)

Trechos do livro:

“–Tudo o que posso afirmar, consciente de que descrevo sem explicar, é que algo em Daniel foi se tornando cada vez mais opaco à medida que uma depressão negra e sinistra descia sobre ele. Foi um tempo triste, que comprimo de propósito em poucas linhas. Em público, Daniel soava amargo e incoerente; entre amigos, niilista e desesperado. Relacionamentos amorosos sucediam-se em alta velocidade, relacionamentos que ele nem mesmo se dava ao trabalho de encerrar propriamente, a namorada anterior tomando conhecimento de que ele tinha outra quando os encontrava juntos em alguma festa ou evento. Inquieto e triste, sua expressão assumiu um ar permanente de angústia. Compondo o horror, a refração pública da crise acrescentava a tudo um elemento de fantasmagoria, pois, visto de for, seu comportamento se parecia muito com o esperado do personagem famoso que ele havia se tornado. Aos olhos da multidão, negatividade e depressão apareciam como estrelismo e dissipação”. (p.115-6).

“O que faz um escritor? Para mim, a tarefa principal do escritor é retrabalhar a matéria bruta da vida humana. Um grande escritor, e eu não tenho dúvida de que tenho um sentado aqui a meu lado esta noite, toma essa matéria bruta e a mói, pulveriza, aquece e destila até ter nas mãos outro material, de natureza semelhante ao anterior, só que mais puro e, em certo sentido, mais verdadeiro. O resultado desse trabalho é o que o artista entrega ao público sob a forma de uma peça, um romance, um conto ou algo do tipo.”

“[…] o espírito humano se assemelha muito a um diamante. Empregado da maneira correta é um instrumento cortante formidável, capaz de penetrar os obstáculos mais duros em seu caminho. E, no entanto, muitas vezes um único golpe revela toda a sua fragilidade e o reduz a mil pedaços.” (p. 220-21 – fala do personagem dr. Molinari, psicólogo).

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