“As Mulheres de Tijucopapo” como metáfora interessante do presente

Livro de Marilene Felinto, de 1984, mostra como as mulheres enfrentam o passado para se redescobrirem mais fortes, em sua identidade feminina

Livro da pernambucana Marilene Felinto foi o primeiro romance a colocar um personagem imigrante nordestino narrando em primeira pessoa a experiência de viver em São Paulo

O dicionário americano “Merriam-Webs­ter” definiu a palavra “feminismo” como o vocábulo do ano em 2017. É interessante ver essa conquista de linguagem principalmente quando ao longo de toda a história do século 20 vários movimentos feministas reivindicaram os direitos de igualdade da mulher.

O embate ainda seguirá por muito tempo. Mas, pela primeira vez na história da humanidade, parece haver uma luz mostrando que no futuro as mulheres alcancem uma posição de poder jamais imaginada por Mary Wollsto­necraft, por exemplo, mãe de Mary Shelley.

A filha foi autora de “Frankenstein: ou O Moderno Prometeu”, que este ano faz 200 anos da primeira edição. A mãe escreveu “Reivin­dicação dos Direitos da Mulher”, em 1792, que a editora brasileira Boitempo publicou em 2016. Este manifesto feminista é considerado o primeiro da história.

Nísia Floresta é considerada a primeira feminista brasileira, e era meio que uma discípula de Wollstonecraft. A jornalista e es­critora pernambucana Marilene Felinto é uma precursora destas duas. Marilene escreveu “As Mu­lheres de Tijucopapo” (Record, 2004, 3ª ed.), o primeiro romance a colocar um personagem imigrante nordestino narrando em primeira pessoa a experiência de viver em São Paulo.

A digressão deste texto, com falhas imperdoáveis em sua mostra, foi grande, mas é a este livro de Marilene que quer chegar. Ele, pioneiro em seu propósito, trata da identidade feminina, de certo modo, da identidade das mulheres nordestinas pobres imigrantes em São Paulo que sabem se reinventar.

Luta

“As Mulheres de Tijucopa­po” foi publicado originalmente em 1982. Seu personagem-narrador é Rísia, que está viajando a pé de volta para Pernambuco. Ela foi para São Paulo com os pais quando era menina, e muitas coisas aconteceram lá. Agora quer pôr a limpo sua origem.
Rísia é filha de Adelaide, que nasceu na fictícia Tijucopapo. Há em Pernambuco uma comunidade situada no mesmo local da trama, mas com um nome ligeiramente diferente, Tejuco­papo, onde no século 17 houve uma batalha entre as mulheres da região contra holandeses que queriam saquear a cidade. Essa passagem é sutilmente contada na narrativa e dá o tom histórico da luta fe­mi­nina. “As mulheres de Tijuco­pa­po são o primeiro grupo feminino armado que conseguimos montar.”

Rísia nasceu em Recife. Repre­senta o retirante nordestino por ser ela mesma uma retirante negra, filha de uma mulher de Tijucopa­po, aonde tentar chegar para recuperar sua i­den­tidade, e também porque de certa forma fra­cassou em São Paulo, como muitos fracassam.
Mas nem todos voltam. “Eu sou uma mulher de Tijucopapo”, diz ela no final, já se reconhecendo. Enquanto narra, caminha quilômetros e mais quilômetros. A prosa é uma caminhada, e no seu caso, uma caminhada regressiva, perscrutadora do passado. Ao chegar com a família ain­da criança na década de 1970, Rísia vai morar no Brás, região central de São Paulo, que já está em de­cadência. Eles migraram em busca do paraíso, seguindo uma propaganda de panfleto em Recife.

Exílio e identidade

No corpo da literatura brasileira, no que diz respeito a romances que tratam da migração para São Paulo, as imagens da capital paulista se cruzam e formam uma malha complexa da visão interiorana, um impacto sobre o espírito, mesmo que herdado, se estendendo da cidade pequena ou do campo sobre a metrópole. “As Mulheres de Tijucopapo” é importante neste quadro por mostrar o ponto de vista feminino, que reflete a imagem da mulher na metrópole, toda mulher, mas sobretudo as imigrantes.

Neste romance, São Paulo é vista com o glamour de sempre, mas um glamour entrecortado pelo gosto amargo de uma espécie de rejeição. Esse tipo de marcação entre o fascínio e a desgraça é inúmero. “São Paulo, a rica”, “cidade de mulheres perdidas”, onde “tudo é dissonância”.

“Nessa cidade de onde saio, essa cidade tão enorme de prédios e pessoas e carros e lixo passando e vida de cidade, as pessoas são jeitos perdidos. As coisas acontecem, as histórias se fazem aos milhares, mas as histórias se perdem também aos mi­lhares, morrem onde nascem. Cada pessoa é uma história perdida.”

A crítica social de “As Mulheres de Tiju­co­pa­po” sugere, e às vezes aponta diretamente, que os nordestinos que foram para São Paulo foram para encontrar uma vida melhor tal como se vê no cinema, mas não acharam vida nenhuma e per­deram a que tinham na terra natal. Alguns vol­taram, como Rísia, mas ficaram perdidos entre a lembrança da terra natal e o novo cenário en­contrado no lugar de origem. Perderam sua identidade.

Já Rísia, personagem feminino de Marilene, viajou para Tijucopapo justamente para se reencontrar, se descobrir, enfrentar o passado para recomeçar. “Vou para Tijucopapo para ver se sei por que sou pobre”, diz ela, Macabéa inversa, enquanto mostra para o leitor o roteiro sinistro do retirante. “Vou para Tiju­copapo para saber por que meu pai gostava tanto de dar em mim. (…) Eu ia querendo conhecer o lugar onde minha mãe nascera, Tiju­copapo, para descobrir se eu sou mesmo feita de lama.”

Modo geral, na literatura ou na vida, os homens só voltam para sua origem, após migrarem, se se sentirem vitoriosos, mas aí, já não se reconhecem mais entre os seus. E se voltam fracassados, não aguentam o baque. De qualquer maneira, perdem a identidade, de um jeito ou de outro, permanecendo no exílio ou voltando para casa, que já não é a mesma. Deslocam-se para sempre no abismo da existência.

Simultaneidade

Marilene Felinto: seu romance reflete a imagem da mulher na metrópole

As mulheres, mesmo quando fracassam, são capazes de enfrentar o mecanismo de dor que as jogou ali, voltando para saber o que são, e assim recomeçarem a luta. Foi o que fez Rísia, como se tivesse a chave do regresso.

Olhar para trás e ver toda a enxurrada de violência e abusos para dizer “não mais” é o que parece estar havendo agora como nunca houve. A chave do regresso agora é a internet, que mantém passado e presente numa espécie de simultaneidade que deixa tudo pulsando aqui e agora, não deixa nada enterrado e esquecido.

O regresso a Tijucopapo não deixa de ser uma metáfora interessante do presente, sobretudo se se levar em conta a luta das mulheres no passado, não só a luta das mulheres de Tijucopapo no século 17, mas a batalha diária desde as cavernas.

Marilene Felinto nasceu em Recife em 1957. Em 1970, mudou-se para São Paulo e estudou Letras na USP. Jornalista, tradutora e escritora, foi uma colunista brilhante do jornal “Folha de S. Paulo” por muitos anos, com textos contundentes contra as desigualdades sociais.
Nunca se curvou aos ditames do Manual de Redação do jornal. Em 2002, pediu demissão da “Folha” publicando um texto de comemoração à vitória de Luiz Inácio Lula da Silva e foi escrever na revista “Caros Amigos”.

Além de “Mulheres de Tijucopapo”, com o qual ela venceu os prêmios da União Brasileira dos Escritores (1981) e o Jabuti (1982), traduzido para diversas línguas, sua obra é composta pelo romance “O Lago Encantado de Grongonzo”, o livro de contos “Postcard” e a novela “Obs­ce­no Abandono: Amor e Perda”, entre outros.

Deixe um comentário