Arquivo reúne notícias sobre o julgamento de Eichmann

Pesquisa da USP busca preservar a memória do Holocausto e lembrar a postura do Brasil diante dos horrores do nazismo

Por Mariana Carneiro

Entre abril e dezembro de 1961, em Jerusalém, ocorreu o julgamento de Adolf Eichmann — oficial nazista responsável pela deportação de milhares de judeus para campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Eichmann foi um dos principais executores da chamada “solução final” apregoada por Adolf Hitler, que matou cerca de 6 milhões de judeus. O processo, que terminou na condenação de Eichmann à morte, foi marcado por uma extensa cobertura da imprensa e reacendeu o debate sobre a memória do Holocausto. Uma coletânea de notícias sobre esse evento histórico, publicadas nos principais jornais brasileiros da época, acaba de ser disponibilizada para consulta pública no Arquivo Virtual sobre Holocausto e Antissemitismo (Arqshoah), núcleo de estudos ligado ao Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação (Leer) da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

O arquivo reúne centenas de notícias sobre o processo de condenação de Eichmann publicadas pelos jornais brasileiros O Estado de S. PauloFolha de S. Paulo e O Globo. A plataforma hospeda textos que demonstram não apenas os horrores do depoimento de Eichmann — que se declarou inocente sob a alegação de que estava apenas cumprindo ordens —, mas também matérias sobre o dia do julgamento, a instalação do tribunal e a posição dos juízes, incluindo muito sensacionalismo. “A imprensa tratava o julgamento como um grande espetáculo”, informa a professora Maria Luiza Tucci Carneiro, docente do Departamento de História da FFLCH e coordenadora do Leer.

Para Maria Luiza, as notícias, obras, depoimentos e artigos referentes ao julgamento de Eichmann trazem luz à dimensão histórica do nazismo e são capazes de impedir que a lembrança do genocídio “morra por inanição e abandono”, especialmente em face ao atual retorno de grupos de extrema direita e à “reciclagem” do antissemitismo nas redes sociais.

“O Arqshoah surgiu em 2006 e, em 2009, financiados pela Fapesp, nós criamos nossa plataforma digital. A cada vez que inserimos novos documentos na página, nós conseguimos manter viva não apenas a memória do Holocausto, mas também a postura do Brasil diante dele”, diz.

Após o suicídio de Adolf Hitler e a queda do nazismo na Europa, em 1945, Eichmann fugiu para a América do Sul — como fizeram outros membros da extrema direita alemã. O oficial passou uma década na Argentina como foragido, até ser localizado e capturado pelo Mossad, o serviço secreto israelita, em 1960. Sua audiência judicial foi acompanhada por repórteres locais e correspondentes internacionais, entre eles Hannah Arendt, filósofa de origem judaica enviada pela revista The New Yorker. A pensadora produziu a mais célebre obra jornalística referente ao julgamento: Eichmann em Jerusalém – Um Relato sobre a Banalidade do Mal, publicado em 1963.

Página do jornal O Globo, do Rio de Janeiro, de 21 de junho de 1961 – Foto: Reprodução/O Globo

A filósofa Hannah Arendt, que produziu a mais célebre obra jornalística sobre o julgamento de Adolf Eichmann – Foto: Wikimedia Commons

O inventário de notícias disponibilizado pelo Arqshoah é resultado de uma pesquisa desenvolvida ao longo de quatro meses pelos pesquisadores Victor Barreto e Blima Lorber. O objetivo era atender a uma palestra de Maria Luiza no evento virtual internacional Recepção e Memória do Julgamento de Eichmann em Perspectiva Transnacional, do qual o Arqshoah foi um dos organizadores. Esse evento, que aconteceu entre 18 de outubro e 14 de dezembro de 2021, marcou a efeméride de 60 anos desde o início do julgamento de Eichmann e envolveu também grupos de pesquisadores argentinos e israelitas. Na segunda parte do projeto, segundo Maria Luiza, serão disponibilizadas matérias publicadas no Sul do Brasil pelos periódicos Jornal do Dia e Diário de Notícias, ambos de Porto Alegre, e Diário da Tarde, O Dia, Correio da Manhã e Diário do Paraná, todos de Curitiba. “É uma espécie de cartografia da memória da imprensa brasileira frente ao julgamento do Eichmann”, afirma a professora. 

Explicitar a relação às vezes esquecida entre o Brasil e o nazismo alemão também é um dos objetivos da apuração, de acordo com Maria Luiza. “Queremos criar um registro vivo da história do Holocausto, sendo o próprio Brasil um protagonista, porque recebemos alguns nazistas no País e acobertamos suas fugas”, reforça a professora. “O Arqshoah busca impedir que o negacionismo obstrua essas informações, uma tentativa de desfiguração dos fatos históricos.” 

A coletânea de notícias sobre o julgamento de Adolf Eichmann está disponível no site do Arquivo Virtual sobre Holocausto e Antissemitismo (Arqshoah) do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação (Leer) da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

Com informações do Jornal da USP

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