Argumentações a partir do filósofo coreano Byung-Chul Han

A democracia afirma-se com expectadores: damos nossa subordinação e não nossa participação. Excluídos são processados pelo algoritmo para justificar a deficiência

Salomão Sousa

Especial para o Jornal Opção

Sempre me questiono sobre a necessidade que temos de promover debates. Talvez para alterar o que compreendemos ou complementarmos o que sabemos ou confirmarmos ou ampliarmos a nossa dúvida ou expormos nossas incertezas. Talvez queiram a nossa resiliência a uma ideia ou a um produto e temos de negar ou acolher com nossa argumentação.

Byung-Chul Han, filósofo coreano com doutorado sobre Heidegger apresentado na Alemanha | Foto: Reprodução

Desde que cheguei a Brasília, em 1971, procurei participar de encontros literários e de diversos outros cursos. Ainda em 1975, participei de um curso sobre Semiótica ministrado por Décio Pignatari e Monica Rector. Quando saí do evento, estava em frêmito. Como poderei compreender o mundo? Estava com 23 anos e com uma formação precária, conseguida de forma solitária e insuficiente para a idade. Vinha de ambiente limitadíssimo, de uma família de analfabetos, de uma comunidade interiorana, com a agravante de estar instalado numa periferia de Brasília, sempre distante da possibilidade de acesso a um conhecimento questionador e a uma cultura mais inclusiva. Naquele curso de umas três palestras, pude entender que, além da leitura, nossa capacidade de interpretar se dá por intermédio do contato com a realidade. Na época, mesmo que eu quisesse, não conseguiria escapar de ser elemento de uma realidade agressiva. Depois pude entender que a compreensão do mundo exige ainda a absorção de informações que enriqueçam o conhecimento. Michel Foucault (1926-1984) e outros pensadores como Edgar Morin, de 98 anos, e Byung-Chul Han, filósofo coreano de 60 anos, viriam, futuramente, me reafirmar essa premissa. Assim, eu estaria em melhores condições de participar do processo de argumentação, que nos capacita para ter condições de conduzir os rumos da vida e, também, no caso do poeta, de trabalhar a poesia.

Relembro que, ao participar de uma oficina de literatura para internos da Papuda, penitenciária de Brasília, nos anos 1990, na dúvida do tema que poderia interessar aos presos, enfatizei que comparecia ao local para estar em movimento, pois a vida tem de ser gasta. Para gastá-la, o nosso tempo deve ser preenchido com alguma atividade que afirme destreza para estar presente na sociedade, já que a inércia nos dá a sensação de inutilidade. Hoje, devido ao tema que me proponho a tratar, acrescento que o debate, por mais irrelevante que pareça, contribui para arranjos de argumentação por menor que seja o grupo onde ele ocorra.

Li há uns dez anos um pequeno texto de W. B. Yeats (1865-1939), num livro que nunca foi traduzido no Brasil, em que o poeta relata a experiência de ter participado de uma reunião e, por considerá-la sem importância, não ter expressado a sua opinião sobre determinado tema que foi proposto, mas a sua ideia foi exposta por outro membro do grupo nos mesmos termos que ele calou. O poeta irlandês conclui que, por mais insignificante que seja uma manifestação num debate, o resultado é retirado do conjunto das ideias apresentadas por todos os participantes.

Kareem Abdul-Jabbar aponta a existência de um anti-intelectualismo preguiçoso e arrogante, que tem consequências perigosas | Foto: Reprodução

Anti-intelectualismo

Gostaria de mencionar, também, o artigo de Kareem Abdul-Jabbar, ex-jogador de basquete seis vezes campeão da NBA, publicado recentemente em vários países, que trata da “tendência perturbadora de anti-intelectualismo preguiçoso e arrogante, que tem consequências muito reais e muito perigosas para a sociedade americana”. Ele menciona a sociedade americana, mas a sociedade brasileira ou qualquer outra pode ser a destinatária do artigo. A citação é longa, mas oportuna:

“Todas aquelas pessoas que foram ensinadas na escola que falta qualquer base às suas convicções e que suas opiniões estão repletas de falácias lógicas agora podem se unir na ignorância compartilhada, mas disfarçada em conservadorismo. E, unidas, elas podem expressar seu desprezo pelos pensadores da ‘elite’. Podemos ser igualmente inspirados pelos insights de nossos poetas, pela visão de nossos filósofos, pelos avanços médicos conquistados por nossos cientistas. As duas coisas deveriam nos estimular a buscar a grandeza: tornarmo-nos mais inteligentes e mais fortes. O problema é que, quando uma pessoa média vê um atleta realizar um feito impressionante, existe sempre uma convicção subjacente de que qualquer um poderia fazê-lo, com treino e prática suficientes. A façanha parece estar ao alcance de todos. Mas, quanto aos feitos intelectuais, algumas pessoas os veem como além de sua compreensão e, portanto, além de seu alcance. Em lugar de inspirar esforços, os feitos intelectuais as levam a cultivar o ressentimento.”

Vivemos um momento de transição histórica, que prenuncia consequências irreversíveis, sem termos noções dos benefícios ou malefícios que vão recair sobre a Humanidade. Os estudiosos — que o establishment político deseja ver fora — enfatizam que o capitalismo vai tirar sempre vantagens disso. Se acabar a água, inventarão formas de vender tecnologia de produção de água. Se forem esgotadas as reservas de petróleo, buscarão outras fontes de energia para mover o capital. No entanto, se não forem encontradas alternativas para evitar o esgotamento da natureza, seremos extintos com ela, por mais que o laboratório venha funcionado na modificação do DNA para nos ajustarmos a ambientes, não hostis, mas inutilizados pelo capitalismo.

Vivemos um novo momento de extrema crise de identidade política, de desordem social e de legitimidade cultural, sem compreendermos onde iremos desaguar com a nossa solidão de Humanismo. Passamos a ser reféns de nós mesmos. Não usamos nossa máquina para criar liberdade, mas para agregar poder ao poder, tornando-nos reféns dele. Não reagimos com debate quando intentam ampliar os mecanismos de concentração de riqueza e menos ainda quando agem para abolir, descaradamente, as formas de produzir conhecimento para que continuemos com a nossa frágil argumentação.

Lógica do algoritmo

Hoje o algoritmo nos classifica em 70 categorias, cada uma delas podendo ser vendida, fatiadamente, dentro do mercado capitalista. Existimos como composição de índices de uma tabela de consumo, seja ele de bens ou de ideologias. Aquele sem nenhum poder aquisitivo, sem acesso a uma máquina, é classificado como “lixo” e, portanto, será vendido como elemento que serve apenas de abonação (e, se não serve para abonar, será descartado), pois os manipuladores precisam do lixo para continuidade do discurso; e o que aparece no topo do consumo será classificado será classificado à altura das estrelas. Os que estão à altura das estrelas são os detentores da riqueza do mundo, os patrocinadores para que a máquina do algoritmo continue funcionando sem que a pirâmide seja invertida, com os pobres na base e os ricos, excessivamente ricos, no topo.

Atualmente, com atuação nas redes, não participamos, só agregamos concordância. Cada vez que curtimos, diz o filósofo coreano Byung-Chul Han, dizemos amém. Assim, a democracia afirma-se com expectadores, pois damos a ela nossa subordinação e concordância e não nossa participação. Os excluídos agora também estão dentro do processo democrático, pois são processados pelo algoritmo para justificar a deficiência. Se existem os excluídos, estão justificados o desemprego, a violência, o fracasso da educação, o fracasso da saúde, dos serviços de água e esgoto. A política, ainda que negue, alimenta a existência dos excluídos para ter elementos de arregimentação para se retroalimentar.

Ser livre significa estar junto. Se não estamos juntos, não somos mais livres, mas objetos aprisionados na própria depressão. Ser livre é poder realizar junto, mas estamos abrindo mão dessa liberdade, passando a ser vítimas, pois entregamos ao poder, sem discussão, a capacidade de decidir nossos destinos, e acabamos sem direitos. O poder passa a gerar benefícios só para os dirigentes e para os donos do capital que os mantém.

O capital não gera para atender a necessidade do homem, mas para alimentar a própria ganância. A ganância não avalia a utilidade. Para que produzir livro e conhecimento se essa produção não retroalimenta o processo da necessária agilidade da ganância? O capital precisa produzir o que se desgasta rápido para não parar a máquina. A máquina não pode ficar ociosa. E, assim, a vida deixa de ser princípio. Temos de consumir o que nos destrói, o que nos aliena, o que nos aprisiona, o que centraliza a riqueza fora de nós. Quanto mais consumimos mais ficamos pobres. Inclusive, pobreza de espírito, pois o consumo não acumula experiência de Humanismo, inclusive desgasta o nosso organismo com produtos tóxicos e viciantes. Com o consumo, enfraquecemos nosso corpo e nos esvaziamos de espírito. Reduz em nós a capacidade de produzir e de consumir cultura. Dentro desse processo, somos medidos apenas enquanto dados para alimentação do algoritmo.

Walter Benjamin, filósofo alemão: nunca somos livres da religião, pois nunca quitamos nossa dívida para com Deus | Foto: Reprodução

Místico como empreendimento capitalista

Até a prática mística virou empreendimento capitalista. A religião se transformou em um sistema de produção de consumo. Consolidou-se todo um processo de arregimentação de adeptos para alimentar a máquina e a cadeia do segmento. Os dirigentes religiosos, assim como os dirigentes dos conglomerados capitalistas, também são treinados em workshops, em cursos de gestão, dependem de departamentos de marketing e administração, com metas de arregimentação massiva através do rádio, da televisão e de porta em porta, bem como de cotas de arrecadação para alimentação do caixa. Cada fiel é um contribuinte. O filósofo alemão Walter Benjamim afirmava que nunca somos livres na religião, pois nunca quitamos nossa dívida para com Deus, e, ademais, diríamos, com a dívida mensal dos 10% do dízimo. Não compramos mais uma entrada para o Céu, mas uma bênção para arrumar emprego, para conseguir uma vaga no ensino, um leito de hospital. Não aguardamos pelo milagre, mas pagamos para que ele ocorra. O lixo do algoritmo acaba sendo explorado pelo processo político e também pelo processo místico, que se retroalimentam com o processo de exclusão.

Os livros de autoajuda entram no processo de otimização do indivíduo como elemento do liberalismo disciplinador. Só interessa o indivíduo limpo, preparado para ajustar-se à produção e ao consumo. Assim, os autores de autoajuda e os pregadores evangélicos se igualam, pois são gerentes otimizadores, que estão incumbidos de esvaziar os processos emocionais, de resistência do indivíduo. São hábeis em manter o indivíduo limpo e resiliente. Resiliência está em voga nas pregações, pois o indivíduo precisa estar ajustado a uma proposta. Seu compromisso é inserir o maior número de pessoas no mercado de consumo, com o irracionalismo que torna as pessoas sem autocrítica — cegos — dispostos a dar fôlego a qualquer proposta, seja ela de xenofobia, de resiliência à exploração e ao irracionalismo. O pior escravo é aquele que é mantido na irracionalidade, pois não tem consciência da condição em que vive.

O liberalismo, com a otimização, atrofia a multiplicidade de experiências; com produção infinita, não dá lugar à surpresa. O mundo fica óbvio. Até as viagens de turismo levam ao mesmo olhar. No retorno dos pacotes de viagem, todos montam o álbum de fotos com o mesmo ângulo, a mesma paisagem ao fundo, sem acréscimo de pluralidade de experiência. Só olhamos o que nos vendem, pois aceitamos a proposta de ficar sem o filosófico, o antropológico, o histórico. Ficamos sem argumentos para interpretar o que vemos, se já nos vendem o que foi produzido para servir a um único olhar. Assim, no consumo, a humanidade vai se trancafiando num ambiente depressivo. A juventude, quando descobre o processo, se filia ao terrorismo, às milícias, pois é o que lhes resta para busca de expressão corporal, de aventura, dor, surpresa, já que não há trabalho (ou batalha) que gere cansaço, experiência física, outro ângulo, outra paisagem.  No filme “Sem Sol”, de Agnès Varda, uma catadora lembra que, em seu tempo, trabalhavam todo o dia e, à noite, se juntavam à mesa para conversar e se divertir com o diálogo. Não há mais a mesa, o convívio. A máquina não consegue classificar o conhecimento. O conhecimento não tem valor para o big-data classificar o indivíduo.

Ao liberalismo não interessa o conhecimento. O conhecimento gera argumentos que provocam alterações no big-data (acúmulo de dados sobre os consumidores). O Romantismo foi o movimento que enfrentou a estatística antiga (que corresponde ao big-data de hoje). O que mantém o impulso da vida, de sobrevivência, é a negatividade e a infelicidade. Quando reconheço e manifesto a minha negatividade, nego a minha resiliência, inverto o processo de arquivamento, fico inclassificável no big-data. Os intérpretes se desnorteiam. O consumo gera dados classificáveis; o conhecimento, dados desnorteadores. (Certa vez um pesquisador se negou a me manter na pesquisa, pois meu perfil não se enquadrava ao produto da empresa que a tinha encomendado. Não era um dado confiável, pois não significava arregimentação de um consumidor. Não há interesse em divergência, mas em inclusão de mais um amém. Desejava que eu mudasse de marca do produto e a ela fosse resiliente.) Ser resiliente corresponde a ajustar-se a uma única marca.

O poder de resistência da arte

Aqui entra o poder de resistência da arte, da Poesia. Num ambiente inodoro, celestial, onde só exista o azul, não há possibilidade de nascimento. Nascer é sanguinolento. O prazer é gosmento. A semente precisa de elementos apodrecidos para germinação. Não há germinação no vidro. A motivação se dá com resistência e o liberalismo quer o ambiente esterilizado, empurrando o descarte para a periferia, para os rios, para trás dos muros. É a possibilidade da surpresa que torna a vida uma aventura. Quando nos permitimos ser otimizados, não permitimos a nos aventurar. O Romantismo atual deve se renovar, não permitir o mesmo olhar. Temos de deixar de olhar no mesmo ângulo e de usar o mesmo pano de fundo. Minha tia Criola usava braçadas de moça-branca para perfumar a entrada do presépio e o poeta José Godoy Garcia enfeitava com folhas de bananeira as paredes dos amigos. O indivíduo tem de criar novo Romantismo, que negue entrada de dados no big-data, onde o indivíduo seja validado pelo que produz novamente. O novo indivíduo tem de ser validado enquanto ser gregário, comunitário, e não enquanto ser ilhado, refém da máquina e do marketing de consumo.

Michel Foucault, filósofo francês: a arte de viver é sentir a si mesmo, livrar-se da sujeição | Foto: Reprodução

Para conhecer o self (aquilo que sou, que não posso vender), e não a selfie (rosto que pode ser vendido), é necessária a narrativa e não a curtida e o aforismo, o poema piada. É necessário o mitológico, e não o irracional do ser higienizado pelos otimizadores. O novo indivíduo tem de estar preparado para compreender, interpretar e modificar aquilo que vive — a realidade —invólucro do Homem.

Assim, entra a necessidade da narrativa, que só o conhecimento pode elaborar. Só a narrativa elaborada pelo conhecimento cria espaço para moldar o caráter. No big-data, expressamos nossas preferências, mas não necessariamente construídas com experiência, que não podem ser colhidas através da tela, tais como o cheiro e o gosto. Temos de ser outro sujeito, não o sujeito de sujeição ao que nos é submetido, mas sujeitos ao acontecimento inesperado. Só o inesperado quebra a sujeição. Viver é aguardar o inesperado, o imprevisível, não podemos viver sempre numa mesma paisagem e com repetições do mesmo gesto. Para Foucault, e arte de viver é sentir a si mesmo, livrar-se da sujeição (leia-se aí o liberalismo, que é a arte de enquadramento do sujeito ao produto, ou vice-versa, de tal forma que o sujeito não possa se libertar do consumo). O melhor limite é libertar-se do consumo da política como enquanto produto de marketing, mas participar da política como produto da argumentação enquanto ser comunitário.

O poeta não pode ser membro do irracional, do mesmo ângulo, do mesmo gesto, não pode se acomodar ao pé do muro, como aconselha Sócrates, para aguardar a maré passar. Não ser resiliente à rota proposta. Se a sua missão é de ser desvinculador de sujeições, tem de ser um herege fora da manada. Dizer é atender ao chamado para desobstruir a arquitetura do óbvio, de negar o isolamento. Ser inteligente é conhecer e resistir.

Há excesso de pronunciamentos, mas pronunciar é abrir possibilidade de argumentação. Sem argumentos não há novas políticas, nova poesia, nova resistência.

Não podemos produzir Literatura sem conhecimento íntimo da realidade, com muita intuição e somatória de buscas. Se não conhecemos, só podemos compor com banalidade e superficialidades que nos permitiram ter acesso. Se nos trancafiamos, o nosso texto será um reflexo desse enclausuramento, e, certamente, contendo carga enorme de ressentimento. Com uma agravante – a intuição é estimulada. Só é possível intuir com os elementos que foram arquivados pela memória. Quanto mais pobre a experiência e o conhecimento, mais limitada a intuição e, consequentemente, o texto. O sujeito, para melhor expressão, tem de se permitir a experiência da realidade e das ideias paralelas. Se minha experiência é só da paisagem virtual, não posso expressar com cheiros, texturas, sabores; a paisagem da miséria não pode ser expressa com o olhar e a fome que a entranha. Quanto mais experiência e debate, mais elementos o autor tem para estabelecer conexões. Pelo virtual, podemos saber o que é um soco num rosto. No virtual, nos divertimos com o soco, mas não sabemos o que é o hematoma no próprio corpo, o que é o sangue que jorra na pele, a dor que infiltra no nervo. E com sangue e hematoma ninguém se diverte, no entanto, compreende o processo vital.

Se nos limitamos a ser consumidores de política, através das redes, através do que nos vendem em montes de mensagens óbvias, definidas por grupos econômicos, religiosos, ou profissionais da política, deixamos de nos incorporar ao processo da democracia. Qualquer predefinição conservadora é inibição do processo criativo. Não somos livres quando somos reféns de uma máquina, bem como dos alimentadores das redes acessíveis através dela. Quando só nos interessa a propriedade, o nosso conforto, a nossa palavra, a nossa mitologia religiosa, não somos mais elementos da pluralidade da vida e, consequentemente, da democracia. Somos democratas quando a nossa argumentação compreende, questiona, acrescenta e participa, quando permitimos a livre criatividade e a livre informação.

Só somos livres quando participamos da construção do projeto e dele usufruímos; quando somos elementos da comunidade e nos reconhecemos cidadãos; quando participamos do trabalho e usufruímos da riqueza; e quando contribuímos com argumentos e somos uma Nação.

Manter ativa a convivência social

Para encerrar, relembro o pequeno livro “Sobre a Tirania: Vinte Lições do Século XX para o Presente” (Companhia das Letras, 168 páginas, tradução de Donaldson M. Garschagen), de Timothy Snyder, elaborado após a eleição de Donald Trump, em que o autor ressalta a necessidade de o indivíduo manter ativa convivência social com vivo diálogo sobre questões políticas, pois só o debate modifica nossa forma de compreensão e estabelece as condições para nos posicionarmos sobre os problemas que precisam ser alterados à nossa volta. O debate modifica e enriquece o que pensamos, gerando posicionamento com resultados positivos na ação da cidadania. O debate enriquece e freia os excessos. O debate nos leva à compreensão até daqueles posicionamentos irracionais que julgávamos irremovíveis em nós. Por isso, as tentativas de negar o acesso ao conhecimento — o poder sabe que, sem ele, oferecemos concordância ao que o outro deseja. Assim, a necessidade de conhecimento para termos os rudimentos de desmontarmos argumentos que nos aprisionem.

Nesse oportuno livro, Timothy Snyder apresenta 22 propostas para que não abonemos o surgimento de governos totalitários ou tiranos. Destacamos as seguintes: defenda as instituições; cuidado com grupos paramilitares; se você tiver que portar armas, reflita; destaque-se; trate bem a língua; investigue; faça contato visual e converse sobre generalidades; pratique a política corpo a corpo; preserve sua vida privada; preste atenção a palavras perigosas; e seja o mais corajoso possível.

Acrescentemos, então, às suas 22 propostas, a necessidade de participarmos com argumentos dialogais do processo democrático, pois qualquer imposição de ideia ou apoio irrestrito a qualquer proposta deslocada no tempo ou castradoras de interesses e direitos comuns acabam gerando espaços para instauração inibidoras da liberdade. Quando abrimos mão da discussão assumimos que não somos livres.

Salomão Souza é poeta e crítico literário. O texto foi usado como base para palestra pronunciada na Academia Goiana de Letras em 30 de maio de 2019.

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