Areoaldo de Paula: a vitória da determinação sobre as dificuldades

Areoaldo de Paula foi classificado, pela Revista Acadêmica, entre os 100 melhores poetas contemporâneos do Brasil

João Carlos Taveira

Especial para o Jornal Opção

Introdução necessária — A biografia de Areoaldo de Paula, ou simplesmente D’Paula, por si só, já demonstra a luta empenhada pelo autor em prol do seu crescimento pessoal e profissional. Aliás, uma vitória do esforço sobre as dificuldades impostas pela condição de trabalhador braçal, num país que pouco oferece aos seus cidadãos. Em 1986, aos 44 anos de idade, e trabalhando na iniciativa privada, foi eleito operário-padrão de Brasília. Em seguida, partiu para o Rio de Janeiro a fim de disputar o título nacional. Obteve ótima classificação, entre os primeiros colocados. Por esse feito, recebeu das mãos do presidente da República, José Sarney, em solenidade no Palácio do Planalto, diploma, comenda e título de cavalheiro do mérito do trabalho. Em razão dessa premiação, recebeu também o troféu Rede Globo/Sesi, a medalha padrão ouro, e a medalha do mérito industrial Roberto Cochrane Simonsen.

Areoaldo de Paula: escritor | Foto: Arquivo pessoal

Dez anos mais tarde, já podia registrar sua participação em diversas coletâneas nacionais e internacionais, como escritor e homem de letras. Também angariou muitos prêmios e láureas para o seu vasto currículo: mais de noventa distinções, entre comendas, medalhas de ouro, prata e bronze, além de diplomas de mérito e uma orgulhosa moção expedida pela Câmara Municipal do Rio de Janeiro.

Depois de ter publicado dois livros (“Uma Rosa em Tua Mão”, de poesia, e “Reminiscências de Minha Velha Paracatu”, contos e poemas), e pertencer a academias, clubes literários, sindicato de escritores e casas de poetas, Areoaldo de Paula foi classificado, pela Revista Acadêmica, entre os 100 melhores poetas contemporâneos do Brasil.

Sob vários aspectos, isso não é pouco. Pelo contrário, para o homem octogenário de agora, os frutos colhidos em quase quarenta anos são provas incontestáveis de que vale a pena lutar pelo que se deseja e sonha. D´Paula é um vencedor e, mais que isso, um modelo de determinação e desprendimento. Sua trajetória pessoal e literária, com todos os méritos, tem sido motivo de orgulho para sua família e amigos, e deve constituir exemplo positivo para as novas gerações.

“Eliodoro Anta”: romance ou novela?

O livro de Areoaldo de Paula que se propõe analisar aqui — na verdade, uma novela — vem confirmar aquele crescimento de que se falou no início destas linhas. De posse de uma narrativa simples mas rica em humanismo, D´Paula descreve as peripécias, traquinagens e valentias do negro Eliodoro Anta, personagem histórica que viveu pelas bandas de Paracatu, entre meados do século XIX e quase dois terços do século XX. O homem era tido, por uns, como justiceiro implacável, e, por outros, simplesmente, como assassino de aluguel a serviço dos seus senhores. Por ser alto, forte e bem apessoado, foi um escravo privilegiado.

Quando não estava envolvido com caçadas de onças e sucuris, Eliodoro era visto amansando cavalos bravios e “colocando na linha” bois extraviados. No mais, era muito requisitado para os tais “trabalhos perigosos”, que geralmente demandavam longas viagens pelos sertões e vilarejos, para receber dívidas, ou acertar contas com desafetos de seus patrões. Dono de pontaria certeira, o homem andava armado até os dentes e conhecia como ninguém vários tipos de arma de fogo e seu uso. Fora isso, era-lhe permitido um período de descanso e tranquilidade, em certa época do ano. Nesses momentos de recolhimento, tinha por incumbência um servicinho extra: engravidar negrinhas novas e bonitas para a produção de mais escravos. Era um reprodutor de meninos de mão cheia, como se diz lá em Minas Gerais. Como é sabido, as meninas nascidas na senzala não eram muito bem-vindas, uma vez que a mão de obra escrava de maior serventia era atribuição exclusiva de machos.

Como viveu 119 anos, Eliodoro conheceu de perto todo tipo de humilhações por que passaram os escravos, embora, por seus méritos pessoais, nunca tenha ido ao tronco. Mas, longevo, pôde assistir também, para a felicidade sua e da nação, à abolição da escravatura no Brasil, em fins do século XIX.

O livro “Eliodoro Anta” (Thesaurus Editora), de certa maneira, premia valores culturais de uma época e realça certas virtudes tão caras ao crescimento do ser humano, sem preconceitos ou julgamentos. Embora infenso aos ditames impostos pela modernidade, no que tange linguagem e estrutura utilizadas, o texto de D´Paula acaba envolvendo o leitor, que, conquistado, se vê sucumbido ante os apelos de uma leitura agradável e muito rica em pormenores os mais esdrúxulos, segundo o nosso olhar urbano e mecanicista.

E mais: enquanto certa ordem capitalista, com seus ardilosos tentáculos, procura destruir povos e culturas milenares da face da Terra, homens de boa vontade, imbuídos de gesto e ação — à maneira do Dom Quixote, de Cervantes —, lutam com todas as forças para preservar costumes e culturas de um povo.

Ao contar a história de Eliodoro Anta, num misto de ficção e realidade, D´Paula se insere imediatamente no rol desses seres visionários. No seu livro, com certeza, há muito mais. Agora é lê-lo e descobrir essas outras pérolas.

Parabéns, Areoaldo de Paula, por sua criação literária. Que este seu “Eliodoro Anta” possa coroar todo o esforço da grande empreitada. E que outros livros venham à luz por intermédio de suas mãos benfazejas, plenas de realizações, além dos que já são por nós conhecidos.

João Carlos Taveira, poeta e ensaísta mineiro de Caratinga, reside em Brasília desde dezembro de 1968. Autor de vários livros publicados e pertencente a diversas entidades literárias, é colaborador do Jornal Opção.

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