Ao maestro, com feeling

Novo álbum do guitarrista Luis Maldonalle é resultado de um artista sólido, inquieto e que está em constante busca pela expressão

O album “Maestro”, nova obra do guitarrista Luis Maldonalle | Foto: Divulgação

Hélio Torres *

Em meados de 1968, o britânico Keith Milsom teve a ideia de criar uma loja com produtos voltados especificamente para pessoas canhotas: a Leftorium, que atualmente faz muito sucesso na internet, numa jornada sólida como negócio desde então.

A loja tornou-se uma referência no contexto dos nichos, que hoje se apresentam de maneira muito mais evidente.

Maestro é o nome do mais recente álbum do guitarrista goiano Luis Maldonalle e não, não é especificamente para canhotos e nem estará em trilhas sonoras de novelas, tampouco em playlists da garotada do Lollapalooza que não compreende a vibe de um álbum. Maestro é para um nicho bem específico.

“Guitarrista goiano” é só uma etiqueta de identificação de origem, pois há muito Maldonalle é um artista global e sólido no nicho do chamado metal neoclássico, shred ou qualquer outro rótulo que se dê às pessoas que lançam suas preferências para o universo da guitarra maioritariamente instrumental, com execução ultrarrápida, técnica superapurada, inclinação melódica e com influência direta da música barroca sob as bases referenciais propostas pelo guitarrista sueco Yngwie Malmsteen no início dos anos 80.

Guitarrista Luis Maldonalle se tornou referência que transcende fronteiras | Foto: Divulgação

Em Maestro, percebemos um Maldonalle inquieto, sedento e com uma energia diferente do que estamos acostumados, mesmo no álbum anterior, Viking Heart, lançado com proximidade e em que ainda se nota o calorzinho de recém saído do forno.

A canção de abertura já dá uma dica do que virá. Uma pancada moderna, power metal absurdamente melódico, digna de trilha de videogame cyberpunk que funciona como um choque de ombro com um desconhecido na rua que quase nos derruba, passa e vai embora sem pedir desculpas ou sequer olhar pra trás, e então ficamos inertes olhando o indivíduo desaparecer na multidão. Essa é Raptor Alpha 1.

Em seguida chega Medusa, que é uma canção com a mesma pegada melódica e com uma aura enigmática. É prazeroso ver como Maldonalle escolhe com muita habilidade os trechos rápidos entre os bridges elegantes que amarram toda a questão. A parte final é simplesmente arrebatadora. Destaque para a bateria com uma levada industrial. Tomara que não saia o vídeo, pois temo virar pedra.

O disco segue com canções que cumprem a proposta de inovação de timbres e de criação onde também destaco Armata Di Sange, Mea Culpa Partita Diablo, que são canções que serão apreciadas pelos fãs do gênero como o glacê de um bolo gourmet.

Crown of Thorns é corajosa e cria um ambiente sacro-herético, que tanto combina com o estilo. Não poderia também deixar de falar de Opus Valhalla, a grande assinatura do artista: feeling, técnica, segurança e criatividade. É a canção “repeat” do disco.

Maestro é o resultado de um artista sólido, inquieto e que está em constante busca pela expressão. É o produto de um músico experimentado que há muito deixou a fronteira do limite do domínio do instrumento e hoje alcança limites desconhecidos nas composições e que já transitou por todos os estilos exigentes da guitarra, como o jazz e o fusion, ademais dos gêneros populares e mega-saturados como metal, hard e blues. Figura em todos com extrema excelência. Por sorte, mantém o foco no metal neoclássico.

O álbum é um presente para o fãs do gênero, uma pérola para um público absurdamente crítico, exigente e que não costuma aceitar obras medianas. É também um indicativo da sede de criação de um artista que se realiza a cada obra, que se desafia em todas as canções e que merece como nota todas as estrelas que estão muito além do sol.

Play loud, maestro.

* Hélio Torres é professor, historiador e músico.

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