Análise de Adelto Gonçalves sobre Fernando Pessoa desagradou Antonio Tabucchi

Numa palestra no Equador, o crítico e biógrafo disse que o poeta português era “um conservador ao estilo inglês”, mas não reacionário

Adelto Gonçalves, crítico, biografo e escritor | Foto: Facebook

Quito — O jornalista e escritor Adelto Goncalves participou na segunda-feira, 10, de uma conversa no Centro Cultural Benjamin Carrion, em Quito, com o escritor Rogerio Pereira, ex-diretor da Biblioteca Pública do Paraná e editor do jornal mensal literário “Rascunho”, que contou com a moderação do poeta Santiago Estrella, jornalista do diário “El Mercurio”.

O encontro foi promovido pela Embaixada do Brasil em Quito e contou com a presença do embaixador Joao Almino, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras. Adelto Gonçalves fez uma leitura brasileira da obra e da vida dos poetas Fernando Pessoa, Bocage e Tomas Antônio Gonzaga. Rogério Pereira abordou a relação entre literatura e jornalismo como espaços confluentes.

De Fernando Pessoa, Adelto Gonçalves destacou que o ensaio “O ideal político de Fernando Pessoa”, que consta de seu livro “Fernando Pessoa — A Voz de Deus” (Editora da Unisanta, 1997) e foi publicado originalmente em “Estudos sobre Fernando Pessoa (Fundação Cultural Brasil Portugal, 1986), teve uma trajetória interessante, pois seria lido na Biblioteca Nacional de Lisboa pelo ensaísta Brunelo Natale De Cusatis, professor de Literatura Portuguesa na Universidade de Perugia, e citado no livro “Fernando Pessoa — Politica i Profezia: Apuntes y Frammenti 1910-1935” (Antonio Pelicanti Editore, 1996), do qual em 2018 saiu uma segunda edição.

Antonio Tabucchi, escritor italiano que faleceu em Portugal, em 2012 | Foto: Reprodução

Na introdução que escreveu para esta segunda edição, De Cusatis lembra que o fato de o ensaísta ter mostrado que o pensamento de Pessoa passava longe das hostes esquerdistas desagradou ao escritor italiano Antonio Tabucchi (1943-2012), tradutor da obra de Pessoa para o italiano. Em artigo publicado no diário “Corriere dela Sera”, de Milao, em 31 de maio de 2001, Tabucchi acusou De Cusatis de se basear num ignoto brasiliano (brasileiro desconhecido), como se le a página 24 da edição atual de “Politica i Profezia”.

De Cusatis lembrou que “Adelto Goncalves é um ensaísta de prestígio e crítico, autor de uma biografia crítica do poeta português Tomás Antônio Gonzaga publicada em 1999 pela editora Nova Fronteira, do Rio de Janeiro”.

Durante a apresentação, Goncalves lembrou que Fernando Pessoa se definiu como “um conservador ao estilo inglês, isto é, liberal dentro do conservantismo, e absolutamente antirreacionário”. Mais: Pessoa era contra o comunismo, o socialismo, o catolicismo e o revolucionarismo. Mas nunca fez a defesa explícita da escravidão. “Seria um anarquista utópico, mas de direita, tal como se autodefiniu certa vez Gilberto Freyre. Defendia, porém, que havia um imperialismo da cultura, ou seja, certos povos exerciam influência sobre outros. Como exemplo citava a Franca”, disse, lembrando que esta posição política do poeta tem despertado protestos de intelectuais africanos para a decisão da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) de dar o nome de Fernando Pessoa a um programa de bolsas para estudantes. E que seria melhor optar por um nome mais consensual, como o poeta moçambicano Jose Craveirinha (1922-2003), Prêmio Camões de 1991, filho de pai algarvio e de mãe ronga.

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