João Carlos Taveira

Especial para o Jornal Opção

O belo livro de poemas de Ático Vilas-Boas da Mota (1928-2016), intitulado “Alpondras — Travessia de Bucareste”, bem que poderia ter por título o que nomeia esta pequena resenha: “Alpondras — Guia Prático da Beleza”. E sem nenhum exagero. Trata-se de uma coleção de poemas das mais equilibradas que já vi e li nos últimos 30 anos, e constitui-se, para mim, no maior legado artístico do escritor, professor e dicionarista baiano, mesmo considerando os grandes nomes do nosso cânone literário.

Publicada pela Editora Universidade Federal de Goiás (UFG), já no século XXI, a presente reunião de poemas sugere uma porção concentrada de beleza, tanto do ponto de vista gráfico, quanto pelo conteúdo lírico. O autor, no espaço delimitado de dois anos (1999 e 2000), criou e reuniu versos da mais alta significação artística e humana, ilustrados com obras de escultura da genial artista mineira Maria Guilhermina Gonçalves Fernandes, que, nascida em Conquista (MG), há noventa anos, radicou-se em Goiás, onde vive e onde projetou sua carreira vitoriosa.

Leia-se, de início, uma pequena amostra:

                            Andorinhas

                            Dão voltas no ar,

                            mágicos do sonho,

                            alfinetes de sombras,

                            ressonância da dúvida,

                            nas dobras do silêncio.

                            Meninos alados,

                            pobres romeiros da tarde,

                            pedaços de recados

                            esquecidos no beiral do céu.

                            Velozes, aos atropelos

                            do último raio do sol,

                            seguem, nos confins do horizonte,

                            em busca de outros espaços,

                            alfabeto de muitas viagens.

                            Partem e ficam

                            e dançam e recortam

                            — com tesouras de prata —

                            a silhueta de quem foge

                            por não poder mais ficar.

                            Saltimbancos da estação,

                            em cada torre, abismo e tentação:

                            vertigem e sabor

                            do salto mortal!

Escritos no período em que Ático Vilas-Boas encontrava-se em Bucareste, onde foi professor de Literatura Brasileira, os poemas aqui apresentados permeiam uma trajetória que vai desde as primeiras impressões da infância até as ponderações lúcidas de um homem maduro que viveu intensamente cada momento de sua vida tão rica de experiência e sabedoria. Seu olhar percuciente sobre os seres vivos e as coisas torna-se, de repente, uma lente microscópica a vasculhar os escaninhos da alma humana, trazendo aos nossos sentidos um significado de puro encantamento e beleza. Mas esse testemunho transfigurado em poemas transcende o meramente literário e, em muitos momentos, atinge um elevado lavor artístico. Coisa rara na vida de um homem perto dos 80 anos.

Por oportuno, vale citar outro poema significativo, entre tantos:

                            Macaúbas

                            Minha cidade

                            é do tamanho do meu coração:

                            sem cadeado, sem alfândega,

                            sem fronteira, sem remorso!

                            Quem quiser ir até lá,

                            tem que chegar de pés descalços

                            para não espantar

                            os passarinhos pousados

                            em cada sonho dos habitantes do lugar.

Ático Vilas Boas: intelectual universal que atuou em Goiás e na Bahia | Foto: Reprodução

Ático Vilas-Boas foi um cidadão do mundo, conforme atesta seu currículo e vasta bibliografia. Homem viajado, professor emérito, estudioso das culturas humanas e escritor de escol, ele buscou na poesia a perenização da beleza. Mas, na verdade, seu recanto mágico chamava-se Macaúbas, terra em que viveu e presidiu a Fundação Cultural Professor Mota, criada em homenagem a seu pai. Ali, continuou criando, dando forma às suas impressões de vida e, sobretudo, publicando livros que fazem o orgulho dos brasileiros, principalmente os que acreditam na força da literatura como fonte remodeladora da língua e dos costumes do homem.

“Alpondras — Travessia de Bucareste”, certamente, há de ficar — para os amantes de poesia — como um manual de sensibilidade e depurado bom-gosto. E, assim, termino esta pequena resenha com um poema-síntese, bem ilustrativo dos argumentos apresentados:

                  Partida

                  Olhei para o céu

                  de primavera

                  e o comparei ao outono

                  com sua lição maior:

                  — os pássaros não morrem nunca,

                  eles apenas esquecem o caminho de voltar!

João Carlos Taveira é poeta, ensaísta e crítico literário, autor de vários livros de poesia publicados, entre os quais “Aceitação do Branco” (1991), “A Flauta em Construção” (1993) e “Arquitetura do Homem” (2005). É colaborador do Jornal Opção.