Edmar Monteiro Filho

Em “Mimesis — A Representação da Realidade na Literatura Ocidental” (Perspectiva, 688 páginas, tradução de George Bernard Sperber), obra capital dos estudos literários, o filólogo e crítico alemão Erich Auerbach elabora uma trajetória da condição humana ao longo do tempo, servindo-se de textos fundamentais da literatura ocidental. Páginas de Homero, Tácito, Rabelais e Cervantes, da Bíblia, de Dante, Virgílio e Boccaccio, Montaigne e Voltaire revelam o modo como o homem representou a si próprio e ao mundo por meio da arte literária.

No primeiro ensaio do livro, “A cicatriz de Ulisses”, Auerbach compara aspectos da “Odisseia”, de Homero, com a passagem bíblica do sacrifício de Isaac. Homero pauta-se pela descrição minuciosa de todo e qualquer aspecto surgido ao longo de sua narrativa. Assim, quando a serva Euricleia reconhece Ulisses através de uma cicatriz adquirida por ele numa caçada, esse episódio da juventude do herói imiscui-se por sobre o relato do reconhecimento, sem qualquer ruptura no tecido temporal. Tudo se esclarece, tudo o que interessa à compreensão da cena e dos personagens vem à superfície, fazendo com que a leitura avance sem percalços, como se o tempo fosse um oceano de águas calmas, que conduz a uma única e precisa direção.

No episódio bíblico, entretanto, Deus fala a Abraão, dita suas ordens e o homem as compreende e acata, partindo até o local onde deverá sacrificar seu filho. A essencialidade do relato é exemplar. Não nos é dado conhecer detalhes do local onde se encontrava o patriarca ao ouvir as palavras divinas; nada se sabe acerca da jornada, exceto sua duração: três dias; nada sabemos sobre a aparência dos personagens. Assim, enquanto o estilo esclarecedor de Homero apresenta o máximo de informação de que necessitamos para vislumbrar as cenas, os traços rústicos apresentados pelo narrador bíblico oferecem uma situação repleta de vazios, que é necessário preencher com nossa interpretação. Homero carrega nas tintas, mas nos mantém na superfície do texto. Na Bíblia, o autor nos convida à profundeza, sem permitir que nos dispersemos pela exterioridade.

A leitura de “Fugitiva” (Biblioteca Azul, 352 páginas, tradução de Pedro Sette-Câmara), livro da escritora canadense Alice Munro, parece oferecer uma possibilidade intermediária de reflexão acerca da representação das figuras humanas no texto literário. Em oito longos textos, Munro desfia as situações com extrema minúcia, seja do ponto de vista da descrição dos cenários, como do desenrolar dos acontecimentos. Seguimos os detalhes da espera ansiosa de uma estudante ao longo de todo um ano até a ocasião em que irá reencontrar o estranho pelo qual se apaixonou. Também é possível acompanhar o passar dos anos na vida de uma mulher, sua busca para compreender os motivos que levaram sua filha a partir sem apresentar explicações. Também podemos conhecer o dia a dia de uma viúva e de sua vizinha, que vive um casamento infeliz. Somos capazes de imaginar por que a velha senhora irá auxiliar a moça a deixar o marido. E à medida que a leitura avança pela existência dessas mulheres, suas agruras familiares, profissionais, seus pequenos dramas, encenados nas paisagens geladas do norte do Canadá, imaginamo-nos próximos delas, seus amigos e conhecidos, assistindo e torcendo para que tudo se resolva bem.

Alice Munro, de 91 anos: escritora canadense | Foto: Reprodução

Entretanto — e é onde reside a grande arte de Munro —, algo parece não funcionar tão perfeitamente. Se o estilo da escritora preenche de informações as telas que compõe, estas surgem atenuadas, seja pela distância, seja por uma ausência proposital, uma espécie de indiferença pelo destino de seus personagens. Os dramas transcorrem diante de nossos olhos, dissolvem-se, provocando um incômodo que parece ocultar-se na miudeza das cenas carregadas de pequenos detalhes sem importância. E é esse incômodo, justamente o que não se diz, que constrói a suspeita de que é preciso trazer para o plano das certezas simples a dúvida forjada em cores fortes, algo que essas criaturas desatentas não foram capazes de viver.

Auerbach ensina que, na Odisseia, a cena cotidiana deixa-se invadir pelo trágico sem sustos para o leitor. Mostra ainda que na singeleza das descrições bíblicas, o mistério de Deus é promessa à espreita em cada palavra. Nas histórias de Alice Munro não há apenas o vazio a preencher com a exegese bíblica ou a realidade minuciosa de Homero, mas o escorrer precioso dos instantes, aliado à certeza daquilo que escapa, quando só resta uma interpretação tardia e inútil.

Edmar Monteiro Filho é crítico literário.