Aliança entre o bizarro e o desconcerto na obra de Olga Tokarczuk, a Nobel de Literatura

A escritora postula que o polonês, sua língua, e seu país formam um conjunto riquíssimo para o questionamento existencial por meio da poesia

Fedra Rodríguez

Especial para o Jornal Opção

Este ano, as tradicionais bolsas de apostas para saber quem seria laureado com o Nobel de Literatura fervilhavam ainda mais do que em anos anteriores, já que em 2018 o prêmio havia sido cancelado pelos escândalos sexuais envolvendo o diretor do Nutidsplats för Kultur e marido da poeta Katarina Frostenson — Jean-Claude Arnault.

Olga Tokarczuk, escritora polonês recebeu o Prêmio Nobel de Literatura | Foto: Reprodução

O hiato de dois anos na premiação gerou muitas especulações sobre os possíveis vencedores, as quais geraram listas longas e debates em sites e revistas como The Week, Nicer Odds e também no Jornal Opção. Entre os nomes figuravam Margaret Atwood, Javier Marías, Yoko Tawada e até George R. R. Martin, de “Guerra de Tronos”, que não foi descartado do ranking do Literary Hub.

Olga Tokarczuk estava entre os dez autores mais cotados, o que significa dizer que a concessão do galardão à psicóloga, roteirista e escritora polonesa, que agora se junta aos seus conterrâneos Wladyslaw Reymont, Czesław Miłosz e Wislawa Szymborska, engordando a galeria de premiados da Polônia, não foi uma surpresa. Em 2018, Tokarczuk já havia levado o prestigioso Man Booker International Prize por seu livro “Bieguni” (2007), traduzido para o inglês por Jennifer Croft com o título de “Flights”, e para o português por Tomasz Barcinski como “Os Vagantes”, publicado pela Editora Tinta Negra, em 2014. Atualmente a edição traduzida por Barcinski está esgotada, mas ganhará uma retradução por Olga Bagińska-Shinzato, que deverá ser lançada pela Editora Todavia.

Mas foi muito antes de Bieguni que garantiu seu lugar entre os importantes escritores da contemporaneidade. Seus primeiros passos nas letras começaram não casualmente por uma coletânea de poemas intitulada “Miasta w lustrach” (“Cidades em Espelhos”), em 1989. Na concepção da autora, a língua polonesa é uma das mais apropriadas para expressar “coisas complexas”, impressões que surgem com certa frequência para quem nasce e vive em um país situado entre Ocidente e Oriente e que é percebido por seus nativos como caótico e inseguro do ponto de vista existencial. Assim, segundo Tokarczuk, o polonês, sua língua, e seu país formam um conjunto riquíssimo para o questionamento existencial por meio da poesia.

Do texto poético, a escritora se lança à prosa e debuta no gênero em 1993 com o livro “Podróż Ludzi Księgi” (“The Journey of Book-People”), ambientado na França do século 17. Nessa obra em que se busca o sentido da existência, as metáforas aparecem em profusão e a realidade e o mundo tomam a forma física de um livro, enquanto as letras — e os espaços entre elas, que também possuem um sentido de existir e de atender a uma função necessária para a lógica da construção da vida — correspondem aos seres humanos. Tokarczuk se questiona e lança uma pergunta: para quem esse “livro-vida” permanece aberto?

A grande obra da autora

Outros textos em prosa marcam a carreira da autora, entre eles, a narrativa “E.E.”, que mergulha no reino do inconsciente (e aqui ela realiza o casamento da literatura com sua formação profissional, a psicologia); “Prawiek i Inne Czasy”(“Primeval and Other Times”), de 1996, romance em que moradores de um vilarejo do interior da Polônia são assistidos por arcanjos; e sua magnum opus, “Księgi Jakubowe” (“The Books of Jacob”, 2014). Este livro, com extensão de 900 páginas, parece ter sido feito para desconcertar o leitor e fazê-lo aceitar que qualquer possibilidade de conclusão definitiva sobre seu significado pode ser um exercício em vão. A história se passa em 1792, na região da Podólia, entre as atuais Ucrânia e Moldávia, e descreve a vida dos habitantes que sofrem com uma miséria tão severa que mostra suas marcas até nos rostos das mulheres nativas mediante ulcerações repugnantes. Em meio a esse cenário, surge Jakub Frank, que se autodeclara o messias e acaba convertendo toda a comunidade, formada por judeus, ao cristianismo e ao islamismo. Tokarczuk leva seu leitor a fazer uma auto-indagação acerca de temas como fé, dogmas e crenças, além de interrogar sobre a natureza da maldade, o maniqueísmo sobre o qual as religiões se construíram e os limites da interferência de um deus e do destino nas vidas humanas.

Olga Tokarczuk: autora de uma literatura que escapa à “prisão” dos gêneros | Foto: Reprodução

Máscara e ambiguidade

Poderia e deveria mencionar também o romance-coletânea de contos — não é possível definir claramente o gênero deste texto, que mais parece uma sequência de narrativas curtas que no final se fundem, compondo uma prosa única — “Dom Dzienny, Dom Nocny” (“House of Day, House of Night”), mas não gostaria de fechar este artigo sem mencionar meu primeiro contato com a instigante obra de Olga Tokarczuk, o qual se deu por meio de um conto incluído na antologia organizada e editada por Aleksandar Hemon em 2011, intitulada Best European Fiction 2011, em que um autor de cada país da Europa apresentava uma narrativa breve. A autora polonesa contribuiu com “The Ugliest Woman in the World”, traduzido para o inglês por Antonia Lloyd-Jones. Como o título indica, a protagonista é uma mulher de feiura assustadora que atua em um circo itinerante apenas exibindo sua face monstruosa. Tal aparência fascina um empresário a ponto de que este deseja casar-se com ela.

“The Books of Jakob”: magnum opus de Olga Tokarczuk

Inicialmente, a relação é completamente dúbia: ele realmente viu alguém especial sob o físico medonho ou deseja fazer dela sua fonte de lucro? Apesar do aspecto repulsivo e da ambiguidade da relação entre o empresário e a mulher, a personagem (cujo nome não nos é revelado nunca) parece à vontade consigo mesma, não reluta ou se revolta com o invólucro que carrega seu ser. Aos poucos, as mazelas pessoais vêm à tona, bem como as reais intenções, especialmente as do homem, que passa a perceber o rosto da esposa como uma imagem palpável da sua própria imoralidade. Em dado momento, ele descobre um “segredo”: todos estamos sob disfarces, cada rosto humano é uma máscara, e a vida não é mais do que um baile de carnaval. O homem, sob efeito de álcool, fantasia “arrancar” as caras das pessoas, especialmente a da sua horrível esposa. Mas fica claro que não conseguiria realizar tal ato, pois o que encontraria sob o rosto da mulher seria a sua própria face.

O texto traz um desfecho inesperado e perturbador e retorna à ambiguidade da abertura: quais as reais intenções que existem em cada indivíduo, inclusive em nós?

Seguindo a proposta deste enigmático conto de Tokarczuk, retomamos o início deste artigo: é inegável que os demais autores cotados para levar o prêmio referente a 2018 também nos dariam razões suficientes para estarmos de acordo com a Academia Sueca, caso esta os tivesse laureado, mas Olga Tokarczuk nos coloca particularmente diante do bizarro e do grotesco que existe no indivíduo humano, através de seus personagens esdrúxulos que geralmente vivem em séculos passados, mas que funcionam perfeitamente como espelhos destes modernos tempos revoltos. Como resultado, somos levados a assumir a condição de anti-Narcisos, não com o objetivo de provocar uma autoaversão sem propósito, mas para uma reavaliação profunda e quem sabe uma possível remitência.

Fedra Rodríguez, tradutora e crítica literária, é colaboradora do Jornal Opção.

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