Carlos Russo Jr.

Ano 1939. Os nazistas haviam transformado a Alemanha em uma máquina de guerra. Os opositores ou estavam presos, ou assassinados. O massacre e a destruição das famílias judaicas eram uma realidade cotidiana.

Nas vésperas da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o físico alemão Albert Einstein (1879-1955) alertou o presidente norte-americano Franklin D. Roosevelt de que a Alemanha poderia estar desenvolvendo uma arma atômica a partir do urânio.

Logo a seguir, os cientistas Einstein e Leó Szilárd (1898-1964) tiveram uma reunião de trabalho com Julius Robert Oppenheimer (1904-1967 — viveu 62 anos), que trabalhara em pesquisas com partículas atômicas na Alemanha, anteriormente ao nazismo.

Oppenheimer a partir de então começou então a pesquisar tenazmente sobre o processo de obtenção de urânio-235, enriquecido a partir de mineral de urânio natural, ao mesmo tempo em que determinava a massa crítica de urânio requerida para a realização de uma bomba de fissão.

Antifascista, Oppenheimer é o pai da bomba atômica

J. Robert Oppenheimer, nova-iorquino, filho de um industrial judeu alemão, formou-se tanto em matemática e ciências, como em literatura grega e francesa.

Albert Einstein e J. Robert Oppenheimer: dois dos mais notáveis físicos do século 20 | Foto: Alfred Eisenstaedt

Mudou-se para o Reino Unido para pesquisar no Laboratório Cavendish, dirigido por Ernest Rutherford. Foi convidado por Max Born para ingressar na Universidade de Göttingen, onde obteve um doutorado em 1927 e trabalhou ao lado de outros físicos alemães eminentes, como Niels Bohr e Paul Dirac.

Retornando aos Estados Unidos, ocupou cargos acadêmicos na Universidade da Califórnia em Berkeley e no Instituto de Tecnologia da Califórnia, com contribuições significativas no campo da física teórica, incluindo mecânica quântica e física nuclear.

Cedo se envolveu em assuntos políticos, preocupado pelo auge do nazismo na Alemanha. Em 1936 se mostrou partidário dos republicanos na Guerra Civil Espanhola (1936-1939).

Ao herdar a fortuna do pai, falecido em 1937, não perdeu nenhuma oportunidade de subvencionar diversas organizações antifascistas tanto nos Estados Unidos quanto fora deste país.

Decepcionado com o terror stalinista dos anos 1937/1938, rompeu com o Partido Comunista Americano, embora sua mulher, a bióloga Katherine “Kitty” Oppenheimer (morreu aos 62 anos, como o marido), e seu irmão, nele continuassem a militar.

Roosevelt ouviu Einstein e nomeou Oppenheimer.

Em 1942, o Projeto Manhattan foi iniciado, destinado a gerir a investigação e o desenvolvimento por parte de cientistas britânicos e estadunidenses da energia nuclear com fins militares.

Biografia de Julius Robert Oppenheimer | Foto: Jornal Opção

A sede central, o laboratório secreto de Los Alamos, no Novo México, foi escolhido pelo próprio diretor científico, Oppenheimer.

Oppenheimer logo percebeu que havia subestimado enormemente a magnitude do projeto: Los Alamos cresceu de algumas centenas de pessoas em 1943 para mais de 6.000 em 1945.

Em abril de 1945, aos 63 anos, morre o presidente Franklin Roosevelt, que era contrário ao uso da energia nuclear contra civis.

Com Harry Truman no comando dos Estados Unidos, ocorre a primeira explosão nuclear próximo de Alamogordo, Novo México, em 16 de julho de 1945. Alguns cientistas presentes descreveram a reação de Oppenheimer ao sucesso do projeto como de “triunfalismo desconcertante”.

Hiroshima e Nagasaki: milhares de mortes

Logo a seguir, duas bombas foram lançadas contra as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, entre 6 e 9 de agosto de 1945, causando entre 150 e 250 mil mortes.

Efeito da bomba atômica jogada em Nagasaki, no Japão, em 1945 | Foto: Reprodução

“Agora eu me tornei a Morte, o destruidor de mundos” — com essa frase J. Robert Oppenheimer demonstrou todo seu arrependimento pela criação da bomba atômica.

O físico demitiu-se do Projeto Manhattan.

Dois anos depois foi eleito presidente da Comissão para a Energia Atômica estadunidense, cargo que exerceu até 1952. Em plena guerra fria.

A perseguição política movida pelo almirante Lewis Strauss (1896-1974) e pelo antigo advogado de Donald Trump.

Devido a sua antiga vinculação com os comunistas e por ser um forte defensor do banimento total das armas nucelares e um opositor à criação da bomba de hidrogênio (fusão nuclear), foi vítima da caça às bruxas da Comissão McCarthy, articulada por Roy Cohn. (Posteriormente, Roy Cohn foi advogado de Donald Trump, assim como de figuras máximas da máfia, tais quais Tony Salerno, Carmine Galante, e John Gotti, dentre outros assassinos, sonegadores e corruptos. Vide: https://proust.net.br/o-prototipo-de-um-canalha-advogado-conselheiro-e-modelo-de-donald-trump/).

J. Robert Oppenheimer e sua mulher, a bióloga Kitty | Foto: Reprodução

Ademais, o FBI de J. Edgar Hoover (1895-1972) passou a fornecer aos inimigos políticos de Oppenheimer evidências de que ele poderia ser “ainda” um comunista. Dentre eles estava o almirante Lewis Strauss, um empresário que fazia parte da Comissão de Energia Atômica dos Estados Unidos (AEC), e que fora jogado à sua insignificância científica anos atrás pelo físico nuclear.

Em 21 de dezembro de 1953, Strauss informou Oppenheimer que sua autorização de segurança havia sido suspensa, devido às acusações descritas em uma carta. Ele também solicitou a rescisão do contrato do físico com a Comissão, mas Oppenheimer optou por não renunciar e solicitou uma audiência.

Entre abril e maio de 1954, após 19 dias de audiências secretas, a Comissão de Energia Atômica revogou a autorização de segurança de Oppenheimer. O físico não só teve suas credenciais bloqueadas — que lhe davam acesso aos segredos atômicos do governo — como o fato também levou ao fim sua carreira científica.

Por pouco escapou do destino dado há um ano ao casal Rosenberg. Julius Rosenberg e Ethel Rosenberg foram executados em 1953, após serem denunciados e condenados por espionagem. As acusações foram em relação à transmissão de informações sobre a bomba atômica para a União Soviética.

Antes considerado um herói da ciência, J. Robert Oppenheimer passou a viver como um homem de “má reputação”, possível aliado dos “vermelhos”.

A partir de 1954 “exilou-se”: viveu na ilha de Saint John (Ilhas Virgens), com sua filha Toni e sua mulher Kitty.

Foi condecorado pela França como oficial da Ordem Nacional da Legião de Honra em setembro de 1957 e em 3 de maio de 1962 pela Royal Society da Inglaterra.

Os últimos anos de sua vida foram dedicados também à reflexão sobre os problemas surgidos da relação entre a ciência e a sociedade.

Morreu de câncer na garganta, aos 62 anos de idade, em 1967.

A reabilitação de Oppenheimer, em 2022

Em 2014, o governo de Barack Obama tornou pública as centenas de páginas recentemente desclassificadas das audiências secretas contra Oppenheimer. O testemunho demonstrou que as “provas” contra o cientista haviam sido manipuladas.

Apenas em dezembro de 2022, o governo norte-americano declarou que a decisão que encerrou a carreira científica do físico foi um “processo falho”, após 68 anos da condenação.

O filme de Christopher Nolan narra o julgamento que Oppenheimer foi submetido em 1954, acusado de ser um agente da União Soviética.

Carlos Russo Jr. é escritor e crítico literário.

Referências

Julius Robert Oppenheimer, pai da bomba atômica/ Crédito: National Security Research Center

Oladipo, Gloria (17 de dezembro de 2022). «US voids 1954 revoking of J Robert Oppenheimer’s security clearance». The Guardian

Broad, William J. (16 de dezembro de 2022). «J. Robert Oppenheimer Cleared of ‘Black Mark’ After 68 Years». The New York Times.

«J. Robert Oppenheimer (1904 – 1967)». Atomicarchive.com.

«Royal Society | About the Society | About us | The Fellowship | Directory of Fellows & Foreign Members». web.archive.org. 24 de novembro de 2007.

«Oppenheimer’s Legacy on St. John – Old Town Crier». web.archive.org. 10 de janeiro de 2018.