Agnaldo de Assis Nascimento: “Sou filho de um tempo de hibridismos, como tantos outros da minha geração”

Autor de “Horses” e “Marte em Áries”, paulistano revela os bastidores de seu primeiro romance em depoimento póstumo

Márwio Câmara

Especial para o Jornal Opção

Perfil de Agnaldo de Assis Nascimento

Faleceu no dia 24 de abril deste ano o escritor e músico Agnaldo de Assis Nascimento. Autor de “Horses” e do mais recente “Marte em Áries”, que levou o Prêmio Paraná de Literatura 2021, o paulistano de 34 anos era uma das novas vozes da cena literária brasileira. Formado em Letras e Comunicação, apresentava talento e sofisticação por meio de uma prosa polifônica adornada pela introspecção, pela fúria e pela melancolia de uma nova geração perdida, com elementos da cultura pop e também do universo homoafetivo.

Em idos em 2020, foi convidado, durante a epidemia da Covid-19, para participar do quadro Bastidores, tendo o seu depoimento, ainda inédito, publicado somente agora de forma póstuma.

Gestação literária

Vasculhando meus cadernos e arquivos perdidos no notebook, encontrei a data de redação de “Horses”: junho de 2016/ julho de 2017. Parece um período curto para um livro de mais de 400 páginas. No entanto, essa data só diz respeito mesmo ao “sentar-&-escrever”. Provavelmente “Horses” já vinha sendo gestado por mais de um ano, de forma caótica, dentro da minha cabeça, antes que qualquer arquivo fosse criado e passasse a receber nomes provisórios e obsessivos (como Livroversão1, Livroversão2, Livro_final) ou algum título joyceano como Work_in_progress, etc.

Acho interessante pensar um pouco sobre o período pré-escrita, esse tempo “assombrado”, ciclo de gestação-fantasma em que não se escreve propriamente, mas se produz muito. Nessa etapa, busquei referências de todo tipo: musicais, literárias, filosóficas, políticas, etc.

Os personagens de “Horses” foram chegando, com muito estardalhaço, e foram ganhando estofo dentro desse território/ciclo, abandonando sua condição anterior de espectros e sussurros, deixando suas carapaças etéreas e se impondo de forma sólida, o que me levou a uma rotina de escritura. Até então eu não havia sido tão disciplinado na escrita. Já havia me exercitado em alguns romances curtos e contos, mas nada que exigisse uma meta diária. Eu sabia que se não estabelecesse essa meta (palavra horrível para um escritor), o romance poderia apodrecer. As vozes e os lugares evocados poderiam perder a cor e o sentido. Os diálogos poderiam derreter como uma escultura de gelo num fim de festa. Então não tive outra opção, a não ser trabalhar. A maioria dos personagens de “Horses” é jovem & urgente, reclama a musculatura e a respiração dos cavalos, então dá pra imaginar o quanto me foi exigido de tônus nesse período de pouco mais de um ano e 400 páginas.

Além da construção híbrida e urgente dos personagens – jovens artistas em busca de um caminho “não dado” — foi preciso apagar e redesenhar as fronteiras daquilo que chamam gênero, além de rir um pouco junto com o cânone, claro, como uma criança que, entre risadas, aponta a falta de braços na Vênus de Milo. Antes de “ir contra” é preciso rir junto para que se possam descobrir quais rachaduras aparecem no rosto das instituições canônicas. Portanto, a ironia também é lança que atravessa o galope de “Horses”, interferindo e agudizando sua estrutura narrativa.

Agnaldo Nascimento: escritor | Foto: Divulgação

Filho da pós-modernidade

Acontece que sou filho de um tempo de hibridismos, como tantos outros da minha geração e isso é uma espécie de número de série, é difícil se expressar de outra forma (mas não é impossível). “Horses” parte de um abalo estrutural interno, de dentro para fora. São os personagens e as situações que determinam a estrutura de cada um dos vinte capítulos. Tem-se a impressão de que cada novo capítulo reinicia o livro, a partir de uma perspectiva distinta. Esse mecanismo, na verdade, nada mais é do que a busca dos personagens por outro meio de enxergar e/ou atuar no mundo. Um devir calcado em referências, tanto em nível de hibridismo pessoal (nada menos ortodoxo que as emoções e as experiências de uma vida), quanto de outros autores, como James Joyce, David Foster Wallace, Virginia Woolf (especialmente “As Ondas”), Julio Cortázar e William Faulkner, entre tantos outros (foi com esse cânone que eu ri junto). Para cada capítulo, foi proposto um novo panorama de influências.

A música como influência

O universo musical é o cerne em “Horses”. Por ser músico eu não consigo dissociar a música da literatura, é como se partissem do mesmo tronco de árvore, como se fossem galhos que, ora se distanciam, ora se reencontram, enquanto crescem em direção a.

Desde o título, que é o mesmo do disco de estreia da cantora Patti Smith, à presença de artistas fictícios ou não, que expõem seus questionamentos sobre o fazer artístico ao longo do livro, “Horses” carrega a aura musical da primeira até a última página. Devo alguns mecanismos literário-musicais à leitura de Caio Fernando Abreu, que sempre teve o talento de fazer uma música “dizer o personagem” ou de fazer um disco “rodar” uma narrativa. Mas é sempre necessário um olhar crítico quando se recorre a uma ferramenta que já foi amplamente usada, como é o caso das referências musicais na literatura. É muito fácil cair na armadilha dos “catalogismos” e pedantismos baratos, que só servem para expor uma erudição afetada por parte do escritor, e que acabam enchendo o leitor de tédio. Como bem nomeou o Alexandre Rabelo na orelha de “Horses”, trata-se de uma “epopeia de punk art”, entendendo aqui epopeia enquanto “tentativa de englobar um mundo próprio”. Sempre gostei de romances que encerram em si verdadeiros mundos, que são ao mesmo tempo verossímeis e insólitos, como “Graça Infinita”, “Ulisses”, “Os detetives Selvagens” e “A Montanha Mágica”. Acho que fiz essa tentativa em “Horses”, ao contar uma história que cavalga no mesmo compasso de uma prece dos subúrbios.

Trecho do romance “Horses”

“Não faz muito tempo eu fiquei sabendo de um garoto que encostou aqui neste

mesmo muro e previu que ia ter uma noite de merda tipo um desastre monumental e que

isso nada mais era do que um simulacro da sua vida fodida e mal paga diga-se de

passagem muito mal paga naqueles dias em que ele servia mesas e revisava os trabalhos

acadêmicos dos amigos da faculdade em troca de uns trocados e acendia cigarros feito

um demente um atrás do outro e faz isso até hoje um nojo pior do que eu que acendo

aqui e agora um cigarro contra o sereno da noite e eu sinto que enquanto o isqueiro

falha eu percebo que o garoto esteve aqui fazendo esses mesmos movimentos e se a

noite ruim dele era um simulacro da vida de merda dele eu devo ser então um

simulacro dele tendo a vida de merda dele ou sei lá as coisas vão se duplicando e só de

vez em quando essas duplicações são capazes de gerar pequenas rupturas que vão

produzir coisas diferentes daquilo que está sendo duplicado repetido copiado e por Zeus

eu odeio repetições nunca gostei um horror e a minha cabeça anda meio fodida

ultimamente e agora com essa coisa de se despedir de um irmão embora seja só uma

mudança de CEP a poucos bairros de distância mesmo assim eu tenho sentido o gosto

da ferida que é esse vazio e eu me abrigo nos momentos que tenho com aqueles que me

rodeiam e que de alguma forma emanam o seu amor de um jeito bom e cálido e eu me

aqueço e me alimento disso e o meu próprio irmão tem isso também isso de emanar a

irmandade dele na minha direção e eu acho que tá tudo bem e que eu vou levar numa

boa só preciso de um tempo e cigarros e de botar fogo no meu baixo a cada show e de

beijar a garota que diz que me ama e que eu sinto que me ama de verdade e eu sei que o

garoto que esteve aqui nesse muro faz nem tanto tempo assim também tem um jeito

meio complicado de emanar amor na direção de todos porque ele é bom o cara é

filhadaputamente bom em sangrar versos que nos aquecem e a gente acaba nem

precisando botar fogo na nossa mobília nas noites mais frias do ano basta botar os

versos dele pra tocar seja num disco seja num show e é ainda mais louco pensar que sou

eu que estou do lado dele ajudando ele a botar isso pra fora esse filho de Patti Smith

com Lou Reed esse nerd por vezes amargo mas com amarguices perdoáveis já que a

vida bem a vida é isso aí que todo mundo já tá cansado de saber mesmo sem entender

um horror e desde o início eu venho repetindo que é pelo maldito torrão de açúcar que

estamos todos correndo pra lá e pra cá mas ando meio cansado sabe cansado de me

repetir e esse cigarro luta contra o frio da noite e eu sinto a fibra dos meus músculos um

pouquinho rígida tipo como se eu estivesse prestes a entrar na porrada com alguém o

que deve ser alguma espécie de efeito colateral da despedida que acabei de ter lá em

cima com o meu irmão ou talvez o efeito de deixar partidas de sinuca em suspenso e

logo em seguida descer escadas ao som de Gloria e não saber o que esperar agora.”

Márwio Câmara é escritor, jornalista, crítico literário e professor. Autor do livro “Escobar” (Editora Moinhos). É colaborador do Jornal Opção.

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