Adriana Lisboa e sua jornada pela natureza humana

Uma das grandes vozes da literatura brasileira, a autora carioca embarca para o Japão em “Rakushisha”, uma de suas tantas premiadas obras

Adriana Lisboa escreveu um romance de viagem que compõe um retrato das inquietações humanas | Reprodução

Adriana Lisboa escreveu um romance de viagem que compõe um retrato das inquietações humanas | Reprodução

Yago Rodrigues Alvim

“Para andar, basta colocar um pé depois do outro. Um pé depois do outro. Não é complicado. Não é difícil. Tenha em mente pequenas metas: primeiro só a esquina”, começa Adriana Lisboa o romance “Rakushisha”. De 2007, a obra é só uma dentre as várias já publicadas pela a autora carioca, que se aventura pelo campo da memória. Trata-se de um romance de viagem que vai muito além da jornada e compõe um retrato das inquietações humanas, do que é feita a vida.

Encantada pelo livro que Haruki carrega nas mãos, num vagão de metrô, Celina, que nem o conhecia, acaba por aceitar o convite que recebe de viajarem juntos ao Japão, onde ele, de origem nipônica, encabeça uma pesquisa do universo de Matsuo Bashō e de seu “Diário de Saga”, uma obra clássica japonesa a cuja tradução ele foi designado a ilustrar. Celina aceita.

Sem muitos “por quês” respondidos, o que se vê ao longo do romance é o estabelecimento de uma teia da vida dos personagens. “Foi só um gesto, só um modo de interromper o desenho e levantar o rosto, e um filamento se estendeu dos olhos dele até os olhos dela. Uma ponte de seda de aranha. (…) Na memória, a voz do pai dela disse: só conseguimos ver a teia de aranha por causa do reflexo da luz do sol. O diâmetro do fio é pequeno demais para o olho humano”, escreve Lisboa, que envolve em sua teia narrativa Celina, Marco e Alice.

Não dá para dizer muito, pois algumas perguntas são respondidas. Mas vale contar que, com Marco, Celina dá vida à menina Alice que adorava andar de bicicleta descalça. Que com Marco, ela se vê atada num passado já remoto à cama, travessura de casal, e à pergunta que fez a ele: “E se fosse seu último dia comigo?”, travessura do destino.

Ainda na teia de Lisboa, Haruki e Yukiko – a tradutora dona da silhueta nua repousada na cama, de onde ele tenta apreender no papel um desenho que a eternizasse em sua vida. Ela se mexe, acorda e aquele encontro, breve, marca-o como nos marcam as coisas simples, inesperadas.

Viajar ou viver
São estas as distintas linhas da história que se tocam (paralelamente ou não), no Japão. Com um silêncio inquieto, Haruki e Celina caminham como quem pisa em ovos, cuidadosamente, em busca por respostas de perguntas que nem eles mesmos elucidam, muito distante do porto que era a cidade carioca onde viviam.

Muito de voz feminina, o romance da “cabana dos caquis caídos” (significado de Rakushisha) é uma releitura da obra de Bashō. Finalista dos prêmios Jabuti, Zaffari-Bourbon e Casino da Póvoa (Portugal) e vencedora da bolsa da Fundação Japão, Lisboa ensina que “a viagem sempre é pela viagem em si. É para ter a estrada outra vez debaixo dos pés. Há sempre um E SE em algum lugar. (…) Que a vida é o caminho e não o ponto fixo no espaço. (…) E aquilo que possuímos de fato, nosso único bem, é a capacidade de locomoção. É o talento para viajar”.

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