Adérito Schneider: organizando uma cidade sombria

Jornalista, roteirista, cineasta e professor universitário fala sobre a organização do livro de contos noir que reúne vinte e oito trabalhos de escritores consagrados e jovens talentos, todos com histórias que se passam em Goiânia

Adérito Schneider: “Temos a necessidade de afirmação identitária, que se confronta o tempo todo com a tentativa de sermos cosmopolitas, o que acaba se tornando outra forma de viralatismo.”

ADEMIR LUIZ
Especial para o Jornal Opção

Adérito Schneider é jornalista, roteirista, cineasta e professor universitário. Está finalizando uma tese de doutorado sobre o filme noir à brasileira “A Dama do Cine Shangai” (1988), dirigido por Guilherme de Almeida Prado. Seu interesse pelo gênero levou-o a organizar a coletânea de contos “Cidade Sombria”, reunindo vinte e oito trabalhos de escritores consagrados e jovens talentos.

Todos os contos se passam na ensolarada cidade de Goiânia. Esta, aparentemente, inusitada proposta estética é o foco da entrevista, em que Schneider disseca os intrincados rumos tomados pelo noir na literatura, no cinema, nos quadrinhos e, principalmente, pelas ruas de Goiânia.

Você organizou o recém-lançado livro “Cidade Sombria”, uma coletânea de contos noir. Como definir o “noir”? O que uma obra precisa ter para ser classificada como noir?

O mais interessante do noir é que seu próprio conceito é bastante confuso. O noir tal como o conhecemos surgiu na França para designar alguns filmes estadunidenses dos anos 1940, como o clássico “Relíquia Macabra”, de John Huston (1941), com Humphrey Bogart no papel do detetive Sam Spade, personagem de Dashiell Hammett, em adaptação do romance “O Falcão Maltês” (1930).

O problema é que este rótulo surgiu apenas após a Segunda Guerra Mundial, por volta dos anos 1950, para falar de filmes que, nos Estados Unidos, não eram classificados como noir ou coisa do tipo. Os críticos franceses deram unidade a alguns desses filmes. Nem todos eram adaptações de romances policiais, nem todos tinham um detetive como protagonista. Eles enxergaram características em comum nesses filmes, tanto do ponto de vista estético, estilístico, iconográfico, quanto no que se refere à temática.

A partir disso, houve um movimento duplo. Primeiro, retrospectivo: o noir como rótulo para um subgênero da literatura policial, especialmente produzida nos Estados Unidos a partir dos anos 1920 e 1930, num fenômeno muito ligado às pulp magazines; e também para este cinema revisitado a partir da leitura crítica francesa, num movimento a posteriori.

Em seguida, na segunda metade do século 20, veio o segundo movimento: houve uma espécie de boom do noir (ou neo-noir), com produção cinematográfica, literária, de histórias em quadrinhos, séries de televisão, programas radiofônicos, entre outros, com o noir mais delimitado ou bem definido como (sub)gênero; uma coisa mais pensada, formatada a partir de uma estética e de uma temática melhor determinada; conscientemente noir.

Hoje, o noir é um rótulo volátil que pode estar ligado tanto ao noir mais clichê, quanto a uma ideia mais aberta do gênero. Contudo, há características em comum que costumam ser mantidas, como as temáticas urbanas, a violência, o crime, um mal-estar social fruto da modernidade, uma linha tênue e difusa que nos confronta com os limites da ética – da moral, da legalidade –, uma crise da masculinidade, entre outros elementos.

Quais são os mestres do gênero?

Normalmente, quando pensamos o noir a partir da literatura estadunidense da primeira metade do século 20, os grandes nomes são Dashiell Hammett e Raymond Chandler, mas há outros, claro. Hammett é considerado o pai da literatura noir, e seu romance “O Falcão Maltês” talvez seja a obra definidora do gênero. Mas confesso que a obra de Chandler me atrai mais.

Considero Chandler como o pupilo que superou o mestre. Independentemente disso, esses dois autores (e outros, claro) foram os responsáveis por tirarem a literatura policial do ambiente hermético e por vezes aristocrático do romance policial clássico (Arthur Conan Doyle, Agatha Christie etc).

A literatura noir matou a ideia de detetive como “máquina infalível de dedução e raciocínio” e transformou-o em um sujeito comum. O noir acabou com esta ideia de supercriminosos brilhantes e crimes mirabolantes praticamente perfeitos e insolúveis e trouxe o crime para o plano do banal, do cotidiano. Ele rompeu com a lógica por vezes maniqueísta e jogou os personagens num mundo em que os limites da ética, da moral e da legalidade não são muito claramente definidos.

O noir, principalmente, humanizou os personagens: pessoas cometem erros, falham, agem por impulso, se envolvem emocionalmente e afetivamente umas com as outras, criam seus próprios códigos de ética e de conduta etc.

O gênero noir costuma ser reconhecido como alta literatura pela crítica de imprensa ou acadêmica?

Acredito que não. A literatura policial (de maneira geral; não apenas o noir) é, segundo o historiador Eric Hobsbawm, o grande fenômeno da arte de massa do século 20. Há uma quantidade muito grande de autores, de obras e, sobretudo, de leitores.

O próprio Georges Simenon, que é um dos grandes nomes do gênero, escreveu mais de 500 obras, entre contos, novelas, romances etc. E isso para ficar em apenas um exemplo. Então, tenho a sensação de que a literatura policial, como praticamente todo fenômeno de massa, acaba sendo muitas vezes ignorado ou desprezado pela crítica, pela academia.

É um tipo de literatura tido mais como comercial, como pop – o que não é necessariamente ruim, embora seja muitas vezes negativizado. Mas, claro, isso é uma generalização, e é uma percepção minha. Certamente, há uma parcela da crítica da imprensa especializada ou acadêmica que não torce o nariz para o noir.

Naturalmente, num universo tão grande de publicações, existem as obras-primas, mas também muita coisa mediana ou mesmo bem ruim. A pluralidade é sempre a melhor saída. Torcer o nariz para a literatura policial pode ser um erro tão ruim quanto aquele cometido pelo leitor que só lê literatura policial.

Em casa, a literatura policial está na mesma prateleira que Machado de Assis, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, James Joyce, Dostoiévski, Tolstói, Virginia Woolf, Philip Roth, ou seja lá o que for considerada “alta literatura”.

É sempre bom lembrar: policial ou noir são apenas rótulo, frágil, ineficiente e perigoso como qualquer rótulo. Algumas obras ou autores assumem esse rótulo, intencionalmente, e outras obras não são classificadas como tais, mas, de alguma forma, estão também marcadas por ele ou contém elementos em comum com a literatura policial, com o noir. No fim das contas, tudo é literatura.

E fora da literatura? Quais os mestres do noir no cinema ou nos quadrinhos, por exemplo?

Eu não sei se conseguiria delimitar quem são os grandes mestres do noir no cinema ou nos quadrinhos. Talvez, não exista um cineasta que seja marcadamente noir, mas grandes diretores fizeram obras que são comumente classificadas como pertencentes a este gênero, desde Howard Hawks e seus contemporâneos (incluindo Orson Welles), passando por Roman Polanski, Martin Scorsese, Woody Allen, Ridley Scott até autores mais contemporâneos, como Joel e Ethan Coen e cineastas pops como Robert Rodriguez.

Quanto aos quadrinhos, confesso que é uma área que não domino muito. Agora, o que me vem à cabeça é Will Eisner (com “Spirit”) e Frank Miller (com “Sin City”), mas sei que existem muitos outros.

A ideia central do livro “Cidade Sombria” é apresentar narrativas que se passam em Goiânia. Como surgiu essa proposta?

“A ideia foi misturar diferentes gerações e trazer diferentes olhares a partir de pessoas familiarizadas com diferentes linguagens ou tipos de texto”

A literatura policial é parte importante da minha formação como leitor, desde a época da Série Vaga-Lume ou até mesmo antes disso. Fui uma criança muito encantada pela atmosfera detetivesca. Depois de adulto, praticamente não li mais literatura policial. Mas por volta de 2013, durante meu mestrado, houve uma época em que eu andava bem cansado das leituras e escritas acadêmicas (eu estava estudando cinema documentário brasileiro) e, certo dia, estava numa livraria, matando tempo, e dei de cara com um livro do Raymond Chandler.

Comecei a ler o livro e, de repente, estava saindo da livraria com a obra dele praticamente completa, compra parcelada no cartão, uma coisa meio impulsiva mesmo, numa época em que eu estava lá todo fodido, vivendo de bolsa, mal dando conta de chegar ao fim do mês.

Só que foi bom, porque me dei conta de que estava mesmo precisando voltar a ler por pura diversão, sem muita pretensão. E Chandler é bom pra caralho. Daí, meio que ressuscitei em mim este interesse pela literatura policial e, especialmente, pelo noir. Fui atrás de outros livros, filmes e tudo mais.

Li e reli, vi e revi muita coisa e, quando me dei conta, estava chegando à reta final do mestrado e precisando pensar em um tema para projeto de doutorado. Como eu não queria continuar com cinema documentário brasileiro, que era um tema que eu vinha estudando desde a especialização, decidi estudar o filme “A Dama do Cine Shangai” (Guilherme de Almeida Prado, 1988), e o noir voltou a fazer parte da minha vida, agora de modo mais sério, mais formal.

Pesquisando sobre cinema e literatura policial no Brasil, acompanhei quando o Tony Bellotto (guitarrista dos Titãs e autor de romances policiais) lançou uma série organizada por ele chamada “Rio Noir”, uma antologia de contos do gênero. Os contos foram escritos por vários autores e com narrativas ambientadas na cidade do Rio de Janeiro. Cada autor cobriu um bairro ou região diferente.

O projeto do Bellotto, por sua vez, é a versão brasileira de um projeto gringo que rendeu vários livros semelhantes, nessa mesma lógica. Foram feitas edições em várias cidades do mundo. Assim, fiquei tentado a fazer algo semelhante, pensando em Goiânia. E aí, surgiu a ideia do “Cidade Sombria”, com contos noir inéditos ambientados em Goiânia e escritos por autores goianos.

Desde o início, a proposta era que o livro fosse parte de um projeto maior, mais amplo. E foi assim que rolou o “Cidade Sombria” como evento literário, como concurso literário e como obra literária. A ideia era contribuir para o fomento da produção literária goiana ou goianiense e, sobretudo, discutir Goiânia, pensar a cidade por meio da literatura, mas escapando ou sem incorrer no clichê a que estamos habituados de uma pegada regionalista.

São clichês do noir ambientes sombrios e chuvosos, protagonistas vestindo pesados sobretudos, damas sofisticadas e fatais e coisas assim. Como adaptar essas marcas do gênero para o cenário ensolarado de Goiânia? 

Em um primeiro momento, Goiânia não parece mesmo ser uma cidade para o noir. Mas isso é só se a gente pensar nos clichês do gênero. Não dá pra usar sobretudo nem na época do frio da pecuária. Porém, se nos libertarmos um pouco dos clichês, Goiânia é puro noir. É uma cidade planejada que, como toda cidade planejada do projeto desenvolvimentista e moderno brasileiro, fracassou.

Goiânia fracassa cotidianamente, diariamente. Goiânia é uma das maiores cidades brasileiras, mas só está no mapa do Brasil pela música sertaneja e por ser a capital de um Estado de produção agropecuária. O lance é que, mesmo não tendo muitas das qualidades dos grandes centros urbanos brasileiros (basta comparar com Brasília, aqui do lado), não perdemos em nada nas partes sujas deste projeto de urbanização, de desenvolvimentismo.

Goiânia é uma cidade extremamente violenta, com dados alarmantes de criminalidade, com muita pobreza, miséria, desigualdade social. Aqui tem poluição, o trânsito é caótico, tem crime organizado, grupos de extermínio, corrupção alastrada nas esferas púbicas e privadas, tretas entre torcidas de futebol, repressão violenta contra manifestantes e militantes políticos, e muito mais.

Isso sem falar de alguns temperos especiais, como esta mistura muito peculiar entre o urbano e o rural, o acidente do Césio 137 como cicatriz em nossa história e outras coisas. Entretanto, um fato interessante é que a pesquisadora Sandra Reimão considera “Parada Proibida”, de Carlos de Souza, um repórter fluminense radicado em Goiânia, como o primeiro romance noir brasileiro.

A obra foi escrita em 1967 e publicada em 1972, pela extinta editora Oriente, aqui da cidade. E a história é ambientada em Goiânia mesmo. Portanto, desse ponto de vista, pode-se dizer que o noir brasileiro “nasceu” em Goiânia – o que não deixa de ser irônico. O livro está há anos esgotado e é um tanto quanto raro, infelizmente. Não que seja uma obra literária realmente boa, mas é interessante do ponto de vista histórico, de pesquisa (ou de colecionismo).

A lista de autores convidados é bem diversificada. Conta com escritores veteranos e consagrados, jovens autores, acadêmicos, entusiastas do noir entre outros. Essa amplitude de perspectivas foi intencional desde o começo do projeto ou foi tomando forma ao longo do desenvolvimento do trabalho de curadoria? 

Desde o começo, quis investir nesta pluralidade. Por isso, convidei nomes consagrados da literatura de nossa cidade, como Bariani Ortêncio, que é um autor comumente lembrado por suas obras policiais, além de Heleno Godoy, Miguel Jorge, Edival Lourenço e Valdivino Braz, mas convidei também nomes de uma nova geração de autores, como André de Leones, que hoje vive em São Paulo, e Luis Maldonalle, além de você (Ademir Luiz), né?

Além disso, convidei pessoas que não são necessariamente conhecidas por escolherem a narrativa ficcional como primeira opção de suas escritas literárias. São professores, pesquisadores de literatura, alguns mais lembrados pela produção em poesia, como é o caso da Fernanda Marra, da Eugênia Fraietta, do Jamesson Buarque, do Marcelo Ferraz de Paula e do Luiz Fafau.

Ainda, convidei pessoas comumente lembradas pela atuação profissional em outras áreas, como o jornalismo (Adele Lazarin e Pablo Kossa), o cinema (Edem Ortegal, Jarleo Barbosa, Ludielma Laurentino, Márcio Jr., Márcia Deretti, Pedro Novaes e Thiago Camargo) e a história, como é o caso do Rafael Saddi.

Finalmente, há ainda os vencedores do concurso literário: Divino Rufino, Edivaldo Ferreira, João Paulo Lopes Tito e José M. Umbelino Filho. É gente pra cacete. São 28 autores e 28 contos inéditos. O livro tem quase 400 páginas.

Muitos dos autores estão publicando pela primeira vez literatura (incluindo eu, que nunca havia publicado nada na vida e agora, além de organizador, sou um dos autores). A ideia foi misturar diferentes gerações, dar espaço para veteranos e iniciantes, e trazer diferentes olhares a partir de pessoas familiarizadas com diferentes linguagens ou tipos de texto. Acho que o resultado ficou bem massa, nesse sentido.

É claro que muita gente bacana ficou de fora (ou porque não quis participar ou porque não rolou mesmo, por outros fatores, incluindo vacilo meu). Por exemplo, só fui descobrir a Maria José Silveira e sua obra depois que os nomes estavam fechados. Apesar dessas faltas, que são naturais em toda seleção, acho que “Cidade Sombria” é um retrato bem bacana da cena literária goiana ou goainiense atual.

Além disso, o projeto me obrigou a conhecer melhor a produção literária local, o que foi muito bom também. Li e reli muita coisa boa desde que comecei a idealizar o projeto, de Hugo de Carvalho Ramos, Bernardo Élis, Carmo Bernardes, Ely Brasiliense e José J. Veiga até autores mais novos e menos conhecidos; pessoas de quem nunca havia ouvido falar.

O André de Leones mesmo é um autor que venceu o Prêmio Sesc de Literatura em 2005, com seu romance de estreia “Hoje Está um Dia Morto”, e, desde então, vem publicando por editoras grandes (“nacionais”) e, mesmo assim, eu nunca havia ouvido falar nele. Li a obra dele completa até então (cinco romances e um livro de contos) e arrisco dizer que é um dos melhores autores da atual geração.

O livro é o resultado final de um projeto maior, que envolveu oficinas, palestras e até um concurso literário. Como foi isso?

O projeto nasceu pensado como algo maior, que fosse além do livro, como afirmado anteriormente. O “Cidade Sombria” foi divido em três grandes etapas. Primeiro, um evento literário que contou com palestras do escritor goiano radicado no Rio de Janeiro Flávio Carneiro, que vem se destacando como autor policial (embora tenha publicado obras de outros gêneros, como o romance “A Confissão”, que é muito bom) e do gaúcho Paulo Scott, autor de poesia, contos, romances e muito premiado em diversos prêmios nacionais (e que publicou “Voláteis”, um romance tido como noir).

No caso desse evento, a ideia foi ajudar a suprir esta carência que Goiânia ainda tem de formação na área de literatura e de contato com autores mais inseridos no mercado editorial nacional (embora de forma bem singela, claro, pois tenho consciência de que isso é um processo muito maior, macro, que depende de políticas públicas na área da arte e da educação, de uma mentalidade social maior que envolve desde o público até os próprios escritores, o mercado editorial ou livreiro, a imprensa etc).

Além disso, a partir desse evento literário, havia uma proposta de discussão do próprio noir como conceito para criar um mínimo de unidade estética entre os contos, pensando tanto nos autores convidados quanto num público geral que poderia se interessar pelo concurso literário.

Então, em seguida, rolou o concurso literário. Recebemos dezenas de contos e selecionamos quatro deles, dando espaço para pessoas que estão fora de nossos círculos de contatos, fora destas bolhas da vida artística da cidade.

E, finalmente, veio o livro “Cidade Sombria” como cereja do bolo, como produto que é o registro final deste processo todo e, ao mesmo tempo, como disse anteriormente, uma espécie de retrato da atual cena literária goiana ou goianiense.

Um dos destaques do “Cidade Sombria” é a arte de Julio Shimamoto. Tanto na capa quanto nas ilustrações espalhadas por todo o livro. Ao mesmo tempo em que elas carregam muito do noir clássico, como detetives com sobretudo e damas fatais, há elementos de ambientação nacional. Como foi o processo de desenvolvê-las? 

A arte do Shimamoto está presente neste projeto graças ao Márcio Jr., que, além de autor convidado, acabou assumindo o projeto gráfico e a co-produção (em parceria com sua esposa e também autora convidada Márcia Deretti). O Shimamoto é um dos nomes mais importantes dos quadrinhos brasileiros, do mercado editorial brasileiro, das artes gráficas no Brasil.

E parceria dele com o Márcio e a Márcia é de longa data. Eles fizeram uma animação (“O Ogro”) que é adaptação de uma HQ do Shimamoto e, além disso, o Márcio e ele estão produzindo uma HQ juntos e que também tem essa pegada noir (deve ser lançada em breve). Mas, em relação às ilustrações do “Cidade Sombria”, o que houve foi um trabalho do Márcio de seleção das artes, pois ele tem acesso a grande parte do acervo do Shima.

Além da capa, o livro conta com outras ilustrações internas e até mesmo uma arte para cada um dos contos. Mas são ilustrações que acompanham o texto literário, e não ilustrações dessas narrativas, de cenas dos contos. Nenhuma ilustração foi feita para os contos; elas já existiam independentemente disso. Então, pode-se dizer que existem duas narrativas interdependentes no livro: uma literária e outra das ilustrações, que, naturalmente, dialogam com os contos.

Você também é um pesquisador do noir na academia. Está finalizando uma tese de doutorado sobre o gênero. Em linhas gerais, do que trata sua pesquisa? Qual sua hipótese?

A minha pesquisa é sobre o filme “A dama do Cine Shangai” (Guilherme de Almeida Prado, 1988). O filme é um noir brasileiro, mas acaba que o noir é um tema transversal na minha pesquisa.

A minha tese está mais pensada na trajetória do cinema brasileiro, na história do cinema nacional e, mais especificamente, em pensar onde e como “A dama do Cine Shangai” se localiza nesta cronologia. É que o filme é de uma época muito interessante e particular, pois é de um período de fim do cinema moderno brasileiro (levando em consideração a tese de Ismail Xavier) e também de uma crise mais geral do cinema nacional, inclusive do ponto de vista de indústria, de mercado, da crise da Embrafilme.

“A dama do Cine Shangai” ficou numa espécie de “limbo” do cinema brasileiro, entre o final dos anos 1980 e a Retomada, de meados dos anos 1990. Eu, particularmente, gosto bastante do filme e sei que ele aglutina alguns “fãs” aqui e ali, especialmente por ser um noir.

Porém, o fato é que, apesar de prêmios no Festival de Gramado ou coisa do tipo, o filme foi desprezado na época, de maneira geral. E isso por diversos motivos, mas, principalmente, por uma leitura crítica de então que o reduziu a mero pastiche de noir estadunidense e a uma obra meramente comercial (o que não acredito ser verdade, em nenhum dos casos). E, de alguma forma, esta leitura ainda persiste.

O filme é muito ignorado, mas, quando lembrado, é quase sempre tratado com algum desprezo, com desdém. E aí, eu me proponho a entender o porquê disso. A minha hipótese é de que há uma questão política e de mercado (o Guilherme de Almeida Prado produziu e lançou o filme num momento de crise para o cinema brasileiro e isso gerou desafetos entre ele e parcela significativa dos demais cineastas da época), mas, principalmente, uma questão temática.

O filme não trabalha (ao menos explicitamente) com temas que são caros ao cinema brasileiro da época e, de alguma forma, ao cinema brasileiro desde sempre e de hoje, ou seja, uma discussão “sociológica” da realidade brasileira, da desigualdade social brasileira, a ditadura civil-militar brasileira, entre outros.

“A Dama do Cine Shangai” ficou rotulado como cinema “pós-moderno” brasileiro, mas no sentindo negativo muitas vezes atribuído a este rótulo. Esta coisa pop do filme ficou colada de maneira muito ruim, ainda que exista ali tanto qualidade técnica ou estética quanto um projeto muito claro de cinema de autor.

Na apresentação do “Cidade Sombria” você escreveu que “ninguém pode falar que ama (ou odeia) uma cidade (sua cidade?) sem encará-la no fundo dos olhos”. Você é autor de um dos contos do livro, intitulado “Sete Polegadas”. Como foi a experiência de olhar Goiânia, nossa cidade sombria, nos olhos? O abismo olhou de volta para você?

Nasci em Goiânia, poucos meses antes do acidente do Césio 137. Mudei-me para Mato Grosso aos quatro meses de idade (primeiro, Cocalinho; depois, Barra do Garças, onde cresci). Acho até que o lance do Césio 137 pesou na decisão dos meus pais de se mudarem daqui (embora não tenha sido o principal motivo). Logo, a minha relação com Goiânia foi, durante muitos anos, uma relação meio diferente.

Sempre vinha a Goiânia nas férias, em feriados, vinha várias vezes ao ano. Tinha parentes e amigos aqui. Muitas vezes, passava meses seguidos em Goiânia. Mas não era um morador da cidade. Então, Goiânia era uma cidade que me fascinava e que, de alguma forma, era a única referência que eu tinha de metrópole, de cidade grande. Fora isso, tinha uma questão afetiva mesmo: casa de avó e de tios, primos, amigos, essas coisas.

Depois, mais velho, fazendo faculdade em Cuiabá, sempre estava por aqui nas férias e acompanhava a cena rock dos anos 2000, Martim Cererê, bares, essa vida de juventude classe média, universitária. Mudei para cá definitivamente em 2010, jornalista formado, e fui viver a cidade de outra forma.

Morei alguns anos no Setor Sul, solteiro, dividindo casa com amigos, e, portanto, vivi muito inserido nesta vida de juventude “alternativa” de classe média em Goiânia, numa cena de rock, “maculelê”, Universidade Federal de Goiás, Cine Cultura e festivais de cinema, botecos do centro, casas noturnas do Setor Sul, vez ou outra bares do Setor Bueno e Marista etc.

Assim, aos poucos, meu olhar sobre a cidade e as pessoas foi mudando. É claro que, desde criança, lembro de meninos cheirando cola na Praça da Bíblia, galera “surfando” em buzão. Minha avó morava na L-13, a última rua do Bairro Feliz, de frente para o trilho de trem e a poucos metros de uma “favela”.

Essas situações me marcaram na infância, mas não corrompiam a visão meio idealizada que eu tinha da cidade. Acho que, mais até do que por estar adulto, tem algumas coisas que você só se dá conta quando vive a cidade, de fato. E digo não apenas coisas mais óbvias, como a violência urbana ou o trânsito, mas especialmente nuances que você só percebe quando vive a cidade e conhece outras cidades, compara estas realidades.

Goiânia vive um paradoxo de metrópole roceira que é muito curioso. Somos ainda muito marcados por uma síndrome de vira-lata. Temos uma necessidade de afirmação identitária, regionalista, que se confronta o tempo todo com uma tentativa de sermos cosmopolitas, o que acaba se tornando outra forma de viralatismo. É muito maluco isso.

Acho que foi isso que eu quis passar no meu conto. Nesse sentido, o abismo olhou de volta para mim, sim, mas por meio da literatura, claro. Como eu poderia falar deste lado sombrio da cidade sendo um homem branco de classe média, escolarizado, que vive mais as benesses do capitalismo do que as consequências negativas e sórdidas do projeto desenvolvimentista? Como não cair nos clichês do noir e usar a cidade de Goiânia como mero espaço para a realização de um fetiche como escritor?

Se a Goiânia que eu vivo é muito menos sombria do que a de muita gente, o que me restou foi imaginar, ficcionalizar mesmo. É óbvio que eu teria o direito e poderia ter feito qualquer coisa, considerando a liberdade quase ilimitada que a literatura nos permite, mas optei por adotar como personagem-narrador um jovem de classe média inserido neste contexto de vidinha (pseudo)“underground” de Goiânia, pois é desse ponto de vista que eu olhei para a cidade por muitos anos e ainda olho, de certa forma.

Eu me joguei neste abismo e saí, aparentemente, ileso, mas não sei até que ponto. Pessoalmente, escrever este conto e organizar esta antologia (editando cada um dos contos e conversando sobre cada um deles com seus autores) me ajudou a entender um pouco melhor Goiânia, a literatura e a mim mesmo.

Ademir Luiz é professor doutor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), em Anápolis

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