Adelto Gonçalves lança livro que renova estudos da história de São Paulo

O doutor em literatura e crítico literário diz que o Brasil e Portugal precisam cuidar da Língua Portuguesa falada e escrita na África

Euler de França Belém e Ítalo Wolff

Adelto Gonçalves tem um percurso intelectual dos mais interessantes. Foi jornalista de “O Estado de S. Paulo” e, em seguida, decidiu-se pela carreira acadêmica, tornando-se um scholar, expert na poesia e na vida de, entre outros, Tomás António Gonzaga e Bocage. Mas não deixou de escrever na imprensa, como um crítico literário que escreve com extrema clareza. Trata-se de um divulgador da literatura de escritores brasileiros, portugueses, africanos (de expressão portuguesa) e latino-americanos. Ao mesmo tempo, é prosador.

Adelto Gonçalves, crítico literário: “Discordo do fato de as editoras lusófonas darem muita ênfase aos escritores lusodescendentes — como Pepetela, Mia Couto e José Eduardo Agualusa | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

O mestre, de 68 anos, esteve em Goiânia, recentemente, e concedeu uma breve entrevista ao Jornal Opção. Adelto Gonçalves vai lançar  brevemente “O Reino, a Colônia e o Poder — O Governo Lorena na Capitania de São Paulo (1788-1797)”. Ele contou que está pensando em se mudar para Goiânia e quer pesquisar sobre um político que atuou no Estado para escrever possivelmente um romance histórico.

Como avalia a literatura escrita por africanos em Língua Portuguesa?

Discordo do fato de as editoras lusófonas darem muita ênfase aos escritores lusodescendentes — como Pepetela (Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos), Mia Couto e José Eduardo Agualusa. Ressalto que não estou falando mal da literatura dos três autores, e sim constatando um problema. Se o Brasil e Portugal não cuidarem da Língua Portuguesa falada e escrita na África — em países como Angola, Moçambique, Cabo Verde e Guiné-Bissau —, ela tende a desaparecer. Quem vai manter a literatura africana de expressão portuguesa se não os autóctones?

Germano Almeida, escritor de Cabo Verde

Quais, na sua opinião, são os grandes escritores africanos negros?

Há vários, de alta qualidade e, portanto, merecem ser lidos e mais bem conhecidos. Cito, para ficar em poucos exemplos, João Craveirinha (de Moçambique), Florentino Dick Kassotche (de Moçambique, autor de “Inventário Passional”) e Germano Almeida (de Cabo Verde, autor “O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo”). João é sobrinho do escritor José Craveirinha, laureado com o Prêmio Camões.

No mestrado, o sr. estudou qual literatura?

No mestrado, quando troquei o jornalismo pelo estudo de literatura, fiz um trabalho sobre a literatura neo-picaresca da Espanha. Analisei a obra do escritor Eduardo Mendoza. O autor de “La verdad Sobre o Caso Savolta”, de 76 anos, é de Barcelona. Meu trabalho não foi publicado e ficou desatualizado.

Eduardo Mendoza se tornou autor de best sellers?

De fato, Eduardo Mendoza é um escritor importante e sempre vendeu muito. Ele adaptou a picaresca de “Dom Quixote”, de Miguel de Cervantes, ao século 20, acabando por modernizar a literatura espanhola. O autor catalão foi influenciado pelo boom latino-americano, quer dizer, pelo colombiano Gabriel García Márquez, pelo peruano Mario Vargas Llosa e pelo cubano Severo Sarduy. Quando surgiu — seu primeiro romance é de 1975 —, a literatura espanhola (da Espanha, esclareço) estava muito “fechada” e, ao buscar a experiência dos latino-americanos, contribuiu para, digamos, modernizar a prosa de seu país.

O sr. se interessou pela história de cavalaria?

No mestrado, estudei a literatura de cavalaria e, em seguida, comecei a estudar a literatura portuguesa. Para o doutorado, depois de uma pesquisa exaustiva — iniciada em 1994, e para a qual ganhei uma bolsa do CNPq —, escrevi a biografia do poeta Tomás António Gonzaga (1744-1810), que era português e participou da Inconfidência Mineira. Fiquei um ano em Portugal pesquisando a vida de Gonzaga, que morreu em Moçambique. Estudei detidamente a vida do barbo na África.

O que o sr. descobriu de novo sobre Tomás António Gonzaga?

Para entender a vida de Gonzaga, tive de reescrever a história da Inconfidência Mineira (1789) — que é muito idealizada. Mas, por trás do ufanismo, existe a má vontade dos portugueses nascidos no Brasil, que, na verdade, já eram brasileiros de fato. Havia o descontentamento dos grandes financistas — aqueles que recolhiam os impostos para a Coroa Portuguesa. Portugal sempre foi um reino pequeno, sem importância, se comparado ao espanhol. Basta comparar os palácios espanhóis e portugueses para notar. A rigor, Portugal não tinha estrutura para ter e manter todo o império. A arrecadação de impostos era privatizada. Um grande comerciante se responsabilizava por recolher impostos de entrada de mercadoria. Arrecadavam, mas não repassavam para a Coroa. Eles se tornaram “grossos” devedores — na terminologia da época. O governador e o ouvidor não pressionavam e faziam uma composição. O erário régio era lesado. Daí nasce a conspiração, a vontade dos grandes arrematantes de contrato de se separar de Portugal para livrarem-se das dívidas. Entretanto, se você contar assim, a história da Inconfidência de 1789 perde o glamour.

 Qual a conexão entre a poesia de Gonzaga e a Inconfidência? A obra resiste à passagem do movimento político?

A obra poética de Tomás António Gonzaga está intrinsecamente ligada à Inconfidência Mineira. Nas “Cartas Chilenas”, ele diz que a lei funcionava para os pobres e diz que os grossos contratantes devedores nunca tinham soldados à porta para cobrar. Sempre faziam composições, todo mundo saía ganhando, e a dívida era rolada. Martinho de Melo e Castro, que era secretário do Ultramar do Reino de Portugal, foi pressionado a pagar as dívidas. Tentaram pressionar, negociar as dívidas. Daí imaginaram a separação. Mas a conspiração demorou a sair, então um delator [Silvério dos Reis] pulou para o outro lado e entregou todo mundo em troca do perdão das dívidas. Entretanto, a história da Inconfidência se tornou fundação da identidade nacional. Se contá-la assim, principalmente em Minas Gerais, não tem muita aceitação.

Adelto Gonçalves: pesquisa do brasileiro revisou história do poeta português Bocage | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

Quem é o maior poeta do período: Cláudio Manoel da Costa ou Tomás António Gonzaga?

Tomás António Gonzaga. É difícil saber quem é o melhor, mas considero Gonzaga o mais refinado. Resiste até hoje, tanto que os livros dele são reeditados sempre.

… Mas o sr. estava falando de sua pesquisa?

Levantei os dados no arquivo porto-mineiro, em Ouro Preto e em Portugal. Assim, pude reconstituir a vida de Gonzaga em Moçambique. Descobri inclusive que muitas coisas que se acreditava verdadeiras sobre ele era falsas. O professor português Manuel Rodrigues Lapa dizia que Gonzaga havia se casado com a filha de um traficante de escravos. É uma balela, não é verdade. Na verdade, o poeta se casou com a filha de um subordinado dele. Gonzaga ficou preso no exílio, acusado de participar da conspiração. Mas, quando chegou à Ilha de Moçambique, era a única pessoa bem formada. Lá praticamente só havia analfabetos. Então o ouvidor que estava em exercício deixou sua vara com Gonzaga e aproveitou o mesmo navio que deixou os inconfidentes na África para voltar para Portugal. Em Moçambique, Gonzaga sempre exerceu cargos importantes. Era a única pessoa com educação, tinha feito a faculdade de leis de Coimbra. Se casou com a filha de um lisboeta que tinha ido para Moçambique, Alexandre Mascarenhas, escrivão da Seção de Defuntos e Ausentes.

Tomás António Gonzaga era, portanto, um homem rico?

Era uma pessoa com propriedades, porque se casara com uma mulher que já tinha posses na família, mas não era nenhum potentado, como escreveu Lapa, e nem traficante negreiro. E mais: Mascarenhas morreu no ano em que Gonzaga se casou. Lapa dizia que o poeta havia ajudado o sogro a “arredondar a fortuna” (expressão dele) — o que não é verdade.

O sr. descobriu mais algum fato novo?

Também descobri que Eleutério José Delfim, filho de um empreiteiro de obras públicas no Rio de Janeiro ligado à Maçonaria, chegou a Moçambique e ficou com o título da infantaria que era do Mascarenhas, recém-falecido. Eleutério José Delfim foi quem levou a credencial da maçonaria do Rio de Janeiro a um colega estudante brasileiro em Montpellier, para fazer uma aproximação com Thomas Jefferson, ministro da América inglesa. Isso foi o que despertou interesse de Kenneth Maxwell pelo meu trabalho. O historiador britânico é autor do livro “A Devassa da Devassa: A Inconfidência Mineira — Brasil e Portugal, 1750-1808” (Paz e Terra, 444 páginas, tradução de João Maia).

Qual foi, de fato, a participação de Tiradentes na Inconfidência Mineira?

Tiradentes não era o pobretão que é pintado na história. Existem registros no Arquivo Histórico Ultramarino do pedido feito por Tiradentes para a construção de um trapiche no Rio de Janeiro — um guindaste com roldanas para movimentar quadrúpedes. Então ele não podia ser tão pobre. Pode-se dizer que teve uma participação importante como ideólogo. Há boatos de que teria ido à Europa, mas a documentação em meu livro mostra que não teve tempo de deixar o Brasil.

Por que o sr. decidiu estudar o poeta português Manuel Maria de Barbosa l’Hedois du Bocage, conhecido apenas como Bocage (1765-1805)?

Como havia estudado Gonzaga, tinha uma noção do século18 português. Tive de estudar um pouco a estrutura judiciária portuguesa, e o pai de Bocage foi um ouvidor em Beja. Ele também é o resultado dessa estrutura judiciária. Por isso eu também fiz esse projeto que apresentei para a Fapesp. Fiquei um ano, em Lisboa, em 1999, e a biografia “Bocage — O Perfil Perdido” foi publicada pela Editorial Caminho, em 2003.

Como é a história de que a pesquisa do sr. mudou a casa de Bocage?

Pois é: de Manuel Maria Barbosa du Bocage, um dos mais importantes poetas de Portugal, até a casa consegui mudar o lugar, mas os portugueses ficam meio reticentes e não aceitam. Dizem que nasceu em uma determinada casa — eu pesquisei, pesquisei e não morou nenhum Bocage naquela casa. Eles moraram em Setúbal.

“Goiás escapou de cair nas mãos dos espanhóis”

O sr. está prestes a publicar outro livro. Do que se trata?

O livro “O Reino, a Colônia e o Poder — O Governo Lorena na Capitania de São Paulo (1788-1797)” sairá pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. Trata primeiro dos antecedentes de 1709, com a separação de São Paulo da capitania de Minas do Ouro, até a chegada do governo Bernardo José de Lorena. É um resumo de 70 anos da história da capitania de São Paulo, mostrando como tudo funcionava. Também procurei mostrar que há uma ideia pré-concebida pelos historiadores mais antigos de que São Paulo não representava muita coisa. Eles foram iludidos pelo discurso da época. Esse é o papo das elites, elas mesmas estão sempre prejudicados, segundo dizem. São Paulo sempre teve papel decisivo na construção do Brasil. Não era uma capitania que tivesse grandes movimentações na cana-de-açúcar, mas era entreposto estratégico e havia preocupação dos paulistas de avançar para o oeste. Saíam de Araritaguaba, hoje Porto Feliz, com canoas, cada canoa contendo 25 índios, negros e bandeirantes. Vinham todos para cá, avançando, e, se não fossem eles, Goiás teria ficado na mão dos espanhóis. Bem ou mal, conseguiram direcionar a economia da capitania de São Paulo — aproveitando o fato de estarem no meio do país. A importância é tão grande que a Independência se deu lá.

Quem era exatamente Lorena?

Lorena era filho adulterino de Dom José, o rei. Ele teve sua importância. Como governador teve uma visão importante ao estabelecer o Porto de Santos como porto único. Prejudicou os demais portos de Cananéia, Paranaguá, São Sebastião, bem como o Rio de Janeiro. De maneira autoritária, baixou uma determinação que ficou conhecida como “lei do porto único”. Para facilitar a descida da produção de açúcar do interior, mandou construir a Calçada do Lorena, a primeira via pavimentada da América Latina. Antigamente, havia sido um caminho de índios que os tropeiros seguiam, o açúcar indo no lombo das mulas. Lorena mandou pavimentar com pedras para facilitar a descida até o porto. Foi a partir daí que São Paulo deu um salto.

Onde o sr. fez a pesquisa?

Pesquisei principalmente no arquivo do Estado de São Paulo, que tem microfilmados os documentos referentes à capitania de São Paulo. Consegui estabelecer a sequência dos governadores da capitania — o que existia estava tudo errado. Meu próximo livro mostra a sequência para ajudar o leitor a enxergar o período de cada um, bem como a sequência de ouvidores. É muito importante para quem vai pesquisar agora ter essa base, porque na história, se um pesquisador comete um erro no século 19, o erro é repetido agora. Você tem de ir atrás de documentos originais. O historiador Carlos Guilherme Motta disse que meu livro está muito acima dos outros com cobertura da imprensa. Jornalistas que escrevem sobre história sabem escrever muito bem, mas não vão atrás da documentação da época; citam muitos livros de historiadores.

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