Academia Brasileira de Letras divulga biografia envergonhada de Bernardo Élis

Por que ignorar a demissão do escritor do cargo de professor da Universidade Federal de Goiás e sua aposentadoria forçada da Escola Técnica federal de Goiás?

Nilson Jaime

Especial para o Jornal Opção

A Academia Brasileira de Letras tem publicada em seu site uma biografia de Bernardo Élis (1915-1997) — autor de “Ermos e Gerais” (elogiado por Monteiro Lobato), “O Tronco” e “Veranico de Janeiro” — que não se parece nem um pouco com o imortal goiano.

Bernardo Élis e seu livro “Veranico de Janeiro” | Foto: Reprodução e Jornal Opção

Em nome da diplomacia e da boa convivência com o regime civil-militar que governou o Brasil de 1964 a 1985 — afinal, os “Marimbondos de Fogo” incluíram Sarney, mas deixam Gilberto Mendonça Teles, poeta e crítico formidável, de fora —, a ABL retirou da história do escritor corumbaense qualquer referência aos dissabores que teve com a ditadura.  Ele que, sim, foi um intelectual da esquerda.

Ou não foi relevante a demissão de Bernardo Élis Fleury de Campos Curado do cargo de professor na Universidade Federal de Goiás e aposentadoria na Escola Técnica Federal de Goiás por motivos ideológicos?

Bernardo Elis e seu romance mais conhecido, “O Tronco”

Poder-se-ia argumentar — falsamente — que a ABL só aborda aspectos literários da vida dos acadêmicos. Ou que a biografia do autor de “O Tronco” foi elaborada ainda durante o regime militar, sob forte censura. Mas, transcorridos 34 anos do fim da ditadura, e mais de 20 anos do passamento do imortal para o Parnaso, não seria hora de se reescrever sua biografia?

Omitir o forte caráter social (de certa forma contestatório) da obra de Bernardo Élis é semelhante a olvidar que Graciliano Ramos esteve preso antes e sob a ditadura Vargas e seu Estado Novo. O livro “Memórias do Cárcere” deixaria de existir, assim como boa parte da obra do autor de “Veranico de Janeiro”. Pode-se sugerir que a biografia da ABL é um verdadeiro ermos e gerais…

Ao elaborar a biografia do criador do conto “A Enxada” para a “Goyarum — Enciclopédia das Letras Goianas”, pretendo visitar essa seara espinhosa. Justiça seja feita a alguns críticos, que abordaram em seus estudos literários, a temática social da obra do filho de Erico Curado. Vale lembrar que Monteiro Lobato, Guimarães Rosa e Antonio Candido, o maior crítico brasileiro, eram admiradores da prosa de Bernardo Élis — contista e romancista de primeira linha.

Nilson Jaime é doutor em agronomia, escritor e colaborador do Jornal Opção.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.