A vida é complexa, e Philip Roth nos ensina isso

Autor de romances seminais como “Operação Shylock”, “Pastoral Americana” e “O Teatro de Sabbath”, escritor americano, morto na noite de 22 de maio, nos presenteou com a ironia ferina de suas palavras, traduzindo um pouco do ordinário mundo de que somos feitos

Escritor americano, Philip Roth (1933-2018) nasceu em Newark, Nova Jersey, onde ambientou boa parte de seus contos e romances, incluindo “Adeus, Columbus” e “Pastoral Americana”| Foto: Eric Thayer

“Adorei o ‘Complexo de Portnoy’, Philip. É sensacional! Passo-o para meus alunos na universidade. ‘Aqui está um judeu’, eu digo a eles, ‘que nunca teve medo de dizer o que pensa sobre os judeus. Um judeu independente, e tem sofrido por isso, também.’ Tento convencê-los de que existem judeus no mundo que não são absolutamente como os que temos aqui. Mas pra eles o judeu israelense é tão mau que acham difícil acreditar. Olham em volta e pensam: que foi que eles fizeram? Cite uma única coisa que a sociedade israelense tenha feito! E, Philip, meus alunos estão certos – quem são eles? Que fizeram? As pessoas são rudes, barulhentas e empurram a gente nas ruas. Eu morei em Chicago, em Nova York, em Boston, morei em Paris, em Londres, e em lugar nenhum vi gente assim na rua. Que arrogância! O que criaram eles como vocês judeus lá fora no mundo? Absolutamente nada. Nada além de um Estado fundado na força e na vontade de dominar.”

Quando Philip Roth (1933-2018) lançou seu primeiro livro, “Adeus, Columbus” – criando um retrato humano dos judeus americanos, que ele conhecia muito bem, e nada lisonjeador –, foi vilipendiado pelos seus. A recepção do livro na comunidade judaica foi tão possuída de fúria que se chegou a dizer “alguém precisa parar esse rapaz”.

Ainda não sabiam que pela frente viria mais, passando por “Complexo de Portnoy”, de 1969, quando foi acusado de traidor e antissemita, até chegar a “Operação Shylock” (1994), do qual foi retirado o texto acima, em que um árabe chamado Ziad que mora em Jerusalém encontra-se com Philip Roth, personagem do romance do Roth real, que vai a Jerusalém para desmascarar um outro Philip Roth, falsário que se fazia passar pelo escritor e se dizia presidente de uma associação chamada ASA: Antissemitas Anônimos.

A ASA é um grupo de recuperação de pessoas que odeiam os judeus, com seus próprios princípios antissemitas sendo usados como antídotos, crentes de que a aceitação da doença é a melhor maneira de começar a curá-la, terapia bem parecida com a dos alcoólicos anônimos.

O duplo de Roth defendia a ideia de que os judeus que migraram para o Oriente Médio no final da Segunda Guerra Mundial deveriam voltar para a Europa sob pena de sofrer outro genocídio, dessa vez executado pelos árabes. Enquanto isso, Ziad continuava seu vitupério: “Os judeus têm fama de serem inteligentes, e são inteligentes. O único lugar em que estive onde todos os judeus são burros é Israel.”

Ao expor um confronto existencial, histórico e político da condição judaica, Philip Roth, o narrador, se pergunta: “O Mossad vai mandar me matar, como fez o aiatolá com Rushdie?”. Essa sátira corrosiva ao estilo de autoficção é uma obra-prima da literatura ocidental por colocar em evidência as controvérsias do ódio aos judeus, e ao mesmo tempo, as gamas de acusações que recaem sobre quem vier a criticar a atitude de poder dos judeus, ou suas condutas morais, carregando a pecha de antissemita.

Escuro da alma

Por trás da fina camada sobre a qual se encontram os judeus como personagens dos romances e contos de Philip Roth, no entanto, está a condição humana. Seus 31 livros versam sobre a dor emocional, a tragédia sem sentido da vida, a doença, o sexo, a traição, a pequenez, os pensamentos impuros, os desejos escondidos no ponto mais escuro da alma, as intrigas do poder, tudo sendo cortado pela ironia ferina de suas palavras. E é aí onde ele é grande.

Desse modo, apesar do aparente universo monotemático de sua obra, por falar do humano como sói existir para dentro e como sói aparecer socialmente, Roth é versátil como todo grande escritor. Ele partiu dos contos e romances de sua juventude botando o dedo na ferida judaica, mas escreveu vários outros livros extraordinários, como “Pastoral Americana”, “Casei com um Comunista” e “O Teatro de Sabbath”, que concorre como o melhor romance dos EUA do século 20.

Em um documentário francês de 2014, intitulado “Encontro com Philip Roth – Biografia de uma Obra”, exibido atualmente no Canal Curta!, Roth diz que, quando começou a escrever, precisou descortinar a sociedade americana pelo desdém, partindo de sua Newark natal. Desdenhou o lado comercial da vida americana, desdenhando assim a classe média e a intimidade dos que orbitavam sua vida, os próprios judeus. “Precisei desdenhar tudo isso para conseguir me tornar, não apenas um escritor, mas um determinado tipo de escritor”, diz ele.

Roth está falando das tramas contidas nos contos de “Adeus, Columbus” como gênese de sua literatura, mas está falando também da obra inteira. Primeiro, ele encarou a muralha moral e seus cumes de decência e decoro dos anos 1950, depois surfou sobre um tecido social que tinha muita coisa inscrita, principalmente no avesso dessa tessitura.

“O Teatro de Sabbath” é o microscópio que capta as inscrições nos recônditos da alma humana. Mickey Sabbath é o mais shakespeariano dos personagens rothianos. Na América, sobretudo, no século 20, ninguém foi mais shakespeariano com seus personagens do que Philip Roth.

Manhas da luxúria

Mickey Sabbath é um ator de teatro de títere de 64 anos que está em crise existencial, depois de se mudar de Nova York para o interior do Estado, acusado de desaparecer com a primeira mulher décadas atrás. Casado de novo, manteve uma amante 12 anos mais jovem, Drenka, que acabara de morrer. Este é o palco de Sabbath, em que ele atua para existir no absurdo mundo das convenções.

Obsceno, depravado, oportunista, sedutor de menores, Mickey Sabbath vê todos os fantasmas do passado se misturarem em sua crise existencial, mesclados na memória irrevogável de Drenka. Atormentam-no a figura da mãe, também morta (dilema de quase todos os personagens de Roth), a imagem viva do irmão morto na Segunda Guerra Mundial, a corrosão da alma e tantas outras amarguras.

Uma das cenas mais dramáticas e existencialmente ridículas de Mickey é quando ele é pego se masturbando no túmulo de sua amante, já velho, de calças e máscaras arreadas. Sua vida como palco, onde sua sombra errante já não sopra mais no ouvido de ninguém, é rica porque nos mostra todos os vícios que também são nossos, embora, muitas vezes os canalizamos de modo diferente, escondemo-nos, escamoteamo-nos, morremos sem confessá-los.

“Tão pouca coisa na vida é passível de ser conhecida”, diz o narrador, o próprio Mickey em seu teatro. “Muitas transações cômicas, ilógicas e inconcebíveis se acham subordinadas às manhas da luxúria”, continua o narrador na defesa de seu personagem.

“Nossa vida é tão emocionante quanto os nossos segredos, tão abominável quanto os nossos segredos, tão vazia quanto os nossos segredos, tão desesperada quanto os nossos segredos; nós somos tão humanos quanto …”, diz Mickey, já cansado, se revelando.

No final, no final de tudo mesmo, Mickey nos deixa como legado essa lapidar observação: “A gente leva a vida inteira para entender o que realmente importa e, então, já não está mais lá”. E assim, Philip Roth expôs um América vulnerável, visceral, de violência palpitante, de esfacelamento da velha moral, com o tabu do sexo à mostra. E no fundo era mais do que a América, éramos todos nós.

Existe entre alguns a mania idiota de se querer simplificar a vida, mania que acaba sendo uma das fontes do totalitarismo. A vida é complexa, e Philip Roth nos ensina isso. Para aprender a lição, no entanto, é preciso encarar a aventura de lê-lo.

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