A vida atribulada do político e escritor Ricardo Paranhos, admirado por Malba Tahan

Nascido em Catalão, foi deputado e senador estadual, patrono na Academia Goiana de Letras, “príncipe dos poetas catalanos” e editor de jornal

Luís Estevam

Uma das avenidas mais conhecidas de Goiânia, no Setor Marista, leva o nome do catalano Ricardo Paranhos. Mais do que uma simples avenida, a Alameda Ricardo Paranhos se tornou um dos sofisticados pontos que movimentam a cidade, constituindo bela vitrine urbana no cenário da capital. Com pista de caminhada, academias de rua. Bastante arborizada, a alameda virou endereço certo para opções de gastronomia, ponto turístico, exibindo em suas imediações, um setor imobiliário de alto padrão.

Ricardo Paranhos: político e escritor de Catalão | Foto: Reprodução

Poucos goianienses sabem, entretanto, que Ricardo Paranhos, além de político, foi um refinado intelectual, patrono na Academia Goiana de Letras e o príncipe dos poetas catalanos. Quando faleceu, em 1941, Goiânia sequer havia sido inaugurada e o Setor Marista ainda era puro cerrado. Durante a construção da capital, Ricardo Paranhos, em avançada idade, residia na casa de sua filha, em Corumbaíba, dedicando-se somente à literatura.

A vida de Ricardo Paranhos foi repleta de adversidades políticas e econômicas. Filho do coronel Antônio da Silva Paranhos e de Belisária da Costa, nasceu em Catalão, em 1866, onde seu pai tinha um sobrado comercial bem no centro da cidade. Frequentou a escola Nosso Senhor do Bonfim em Entre-Rios (Ipameri) e, aos 15 anos, foi aluno interno do colégio Moretzsohn em São Paulo.

Quando estava para cursar Direito, na Faculdade do Largo São Francisco, Ricardo teve que abandonar os estudos, por motivos de saúde, voltando para Catalão. Viera a contragosto porque em São Paulo havia descoberto sua vocação para a leitura e escrita, fazendo parte da União Literária, sendo o primeiro presidente e orador da agremiação.

Assim, retorna a Catalão, em 1884, o jovem de estatura mediana, olhos azuis, cabelos alourados e pince nez, que utilizava para leitura, sobre o nariz levemente adunco. Sempre vestido elegantemente, de maneiras aristocráticas, passou a trabalhar no comércio. Tornou-se sócio da Casa Paranhos e Cia, estabelecimento que revendia produtos do Rio de Janeiro, onde sua família possuía outra loja comercial.

Seu pai, Antônio da Silva Paranhos, nascera no Rio de Janeiro, em 1822, descendente de tradicional família lusitana. Parente próximo do diplomata José Maria da Silva Paranhos, o Visconde do Rio Branco, tornou-se, mais tarde, um dos coronéis da Guarda Nacional.

Não se conhece as razões que levaram o coronel Antônio Paranhos a se estabelecer em Catalão, onde abriu casa comercial na metade do século XIX e se casou com uma jovem de Paracatu. Sabe-se, apenas, que era muito amigo do chefe político local, coronel Roque Alves de Azevedo, do vigário Luiz Antônio da Costa e do escritor Bernardo Guimarães, autor do romance “A Escrava Isaura”.

Algumas décadas depois, com a Proclamação da República brasileira, o coronel Paranhos foi eleito, em 1890, o primeiro senador por Goiás, cumprindo obrigações no Rio de Janeiro, mas continuando a residir em Catalão de onde não mais saiu.

Ricardo Paranhos, seguindo a carreira política do pai, foi eleito deputado estadual para a Constituinte estadual em 1891, ocupando a secretaria da Assembleia. Foi quando surgiram as adversidades políticas que ele e sua família tiveram que enfrentar.

De um lado, o seu mandato de deputado foi cassado. O governo de Goiás destituiu a Constituinte, pelo fato de a maioria ser de oposição, decretando o fim dos trabalhos legislativos. Ricardo Paranhos chegou a armar um contragolpe, invadindo a Prefeitura de Catalão com uma tropa de correligionários, na esperança de ser imitado por outros municípios, mas não foi bem-sucedido.

De outro lado, sua família passou a enfrentar violenta oposição em Catalão, sendo atacada a tiros na própria residência, cercada por jagunços e adversários políticos. O tiroteio de 1892 durou vários dias e somente cessou por intervenção do vigário Luiz Antônio da Costa, após a morte de um jagunço. Mas a família Paranhos foi obrigada a deixar a cidade, refugiando-se na fazenda do capitão Augusto Netto Carneiro.

Em pouco tempo, o coronel Paranhos arregimentou amigos na zona rural do município e retornou à cidade liderando uma centena de simpatizantes armados. Somente assim, pôde retomar suas atividades comerciais e políticas.

O acontecimento de 1892 foi denunciado e narrado, em detalhes, por Ricardo Paranhos, inclusive, apontando mortes de fazendeiros que ocorreram após o episódio em Catalão. Publicou um livreto de 34 páginas, no Rio de Janeiro, sob o título de “O crime de Catalão”, editado em 1894 pela Tipografia Ribeiro, Macedo e Cia. Não imaginava ele que crime pior ainda estava para acontecer.

Retornando a Catalão, Ricardo Paranhos foi novamente eleito deputado em oposição ao governo estadual. Com a saúde debilitada, reclamava dos constantes deslocamentos que suas responsabilidades políticas o obrigavam a cumprir. Chegou a registrar, nos seus apontamentos: “Que viagens custosas e demoradas! Quantas vezes não fui eu de Catalão a Goiás, a cavalo, a fim de tomar parte nos trabalhos legislativos! 80 léguas escanchado, como uma tesoura aberta, no lombo de um burro trotão, dias e dias exposto à inclemência do sol, que me punha vermelho como tijolo cru e me pilava por completo o apêndice olfativo”.

Em Catalão, os embates políticos prosseguiam ao ritmo dos tiros de carabina. Não havia liberais, democratas ou republicanos. Tudo se resolvia nas detonações das papo-roxo ou papo-amarelo e nos capangas que tombavam, ora de um lado, ora de outro. Vários fazendeiros foram vítimas de tocaia e os moradores da cidade evitavam sair à noite ou frequentar vendas e armazéns.

Catalão nos tempos de Ricardo Paranhos | Foto: Reprodução

Até que, em novembro de 1897, o senador Paranhos caiu, varado por balas de carabina, em pleno dia, na porta do seu sobrado. Os tiros partiram da janela da casa vizinha e surpreenderam o velho político que cruzava pela rua central de Catalão. Seguiu-se um violento tiroteio que durou vários dias.

Abalado com a morte trágica do pai, Ricardo Paranhos viajou para o Rio de Janeiro para denunciar o fato e cuidar de interesses comerciais que a família tinha na capital federal. Redigiu um novo folheto, vigoroso e candente, com mais de trinta páginas, narrando o assassinato do senador e os bastidores do crime.

O livreto saiu publicado em 1898, pela mesma tipografia anterior, com o título de “Os Canibais”. Um texto emotivo que detalha os pormenores que levaram ao acontecimento naquele funesto dia. Em certa altura, registrou emocionado: “Como era horrível se ver aquele ancião de cabelos de prata, respeitável pela idade e pela posição social, de joelhos em plena rua, todo banhado em sangue e envolto em camadas densas de fumaça, ao concerto lúgubre das detonações!”

A notícia ganhara repercussão nacional e Ricardo voltou para Goiás, sendo nomeado delegado de polícia em Catalão, em 1899, numa tentativa governamental de resgatar a ordem pública na cidade. Mas ficou pouco tempo no cargo, tendo sido eleito senador estadual no ano seguinte. Assumiu o mandato em 1901, continuando a residir em Catalão. Nessa época, ajudou a fundar o jornal “Goiás e Minas”, sendo o redator principal por quase dois anos.

Ricardo Paranhos seguia cumprindo suas obrigações de representação política em demorados deslocamentos à Cidade de Goiás. Até que, em 1904 resolveu mudar-se, com a mulher e filhos, para a velha capital, ao ser reeleito senador estadual e nomeado para a mesa diretora da Assembleia. Foi quando escreveu o famoso poema “Despedida de Catalão”.

Ao término daquele mandato, tudo se transformou na vida política de Goiás. Totó Caiado e correligionários promoveram, em 1909, uma revolução, sob a força das armas, assumindo o poder político no Estado. O ambiente, na velha capital, ficou desfavorável às pretensões de Ricardo Paranhos. Por cima, o novo governo nomeou, para intendente municipal de Catalão, Eliseu da Cunha, um dos executores do seu pai, no crime de 1897.

Assim, a partir de 1910, Ricardo se sentia exilado político em sua própria terra. Não tinha condições hospitaleiras de permanência na Cidade de Goiás e, muito menos, em Catalão. Voltou a cuidar de negócios particulares em Araguari e Anhanguera, onde possuía serrarias voltadas para a produção de dormentes para a estrada de ferro que se aproximava de Goiás.

Em 1913, a estação ferroviária de Catalão ficou pronta e os trilhos alcançaram a cidade. Faltava apenas a inauguração oficial. Foi aí que a direção da ferrovia, em Araguari, convidou Ricardo para ser o orador oficial nas cerimônias de inauguração em Catalão. E foi aí que Ricardo Paranhos esteve pessoalmente ameaçado de morte.

No dia da inauguração, um comboio festivo partiu de Araguari carregando os diretores da ferrovia, vários convidados do Triângulo Mineiro, e Ricardo como orador principal. Afinal, tratava-se de um ilustre catalano em visita a sua terra natal.

Ricardo Paranhos saudou o público presente nas estações ferroviárias de Anhanguera, Cumari e Goiandira. Mas ao descer do trem em Catalão foi ameaçado de morte pelo coletor Isaac da Cunha que, de revólver em punho, decretou: “Aqui, você não fala! E, se abrir o bico, morre!” Com isso, a confusão se generalizou, o povo dispersou, e as ameaças continuaram no bate-boca das lideranças políticas locais.

Ainda bem que Ricardo não insistiu na sua pretensão de discursar, porque Isaac da Cunha não era homem de ameaçar em vão. Tanto que, pouco tempo depois, comandou um massacre na estrada de ferro, assassinando mais de uma dúzia de trabalhadores. Era tão violento que foi morto em briga com os próprios familiares, em uma venda no centro da cidade.

Mas Ricardo Paranhos, naquele mesmo dia, proferiu o seu discurso em lugar fechado, perante alguns correligionários e os diretores da ferrovia, no hotel em que se hospedara. O episódio teve larga e negativa repercussão na zona da estrada de ferro. Diziam que Catalão era a única cidade que não permitira a inauguração ferroviária pacificamente.

Na época, Ricardo havia sido eleito, mais uma vez, senador estadual pela oposição, para o mandato de 1913 a 1916, comparecendo às reuniões na Cidade de Goiás.

Todavia, findo o mandato, afastou-se da política. Ao invés de comemorar a carreira, passou a lamentar o tempo perdido na longa militância. De acordo com ele, somente obteve mágoas e sofrimentos no período. Revelou que: “Quando entrei na política, o que fiz de corpo e alma, era muito moço e inexperiente, cheio de ideias, de ilusões, de entusiasmo, tempo feliz em que eu enxergava tudo através de um prisma cor de rosa”.

Ricardo também afirmou que: “Raros são os homens de caráter que galgam posições políticas; estas pertencem de preferência aos bigorrilhas, aos que se amoldam a tudo, aos que mudam de opinião como os camaleões mudam de cor”. E arrematou: “O homem de hoje se distingue pela inteligência e a cultura; o antigo se impunha pela honestidade e o caráter. Valores que estão fora dos requisitos exigidos pela política rasteira”.

Visitado por Malba Tahan

Em dado momento, a partir da década de 1920, Ricardo Paranhos se descobriu um homem pobre economicamente. As verbas de representação política, que recebera ao longo da vida, foram bastante modestas e os cargos serviram mais de status do que de remuneração.

Ele próprio confessou estar falido quando as duas serrarias que possuía — em Anhanguera e Engenheiro Bethout — foram levadas por uma enchente do Rio Paranaíba inviabilizando totalmente o negócio. Brincou, na época, dizendo que, ainda bem que Jesus era carpinteiro e não produtor de toras.

A partir de então, passou a se dedicar inteiramente à literatura e a viver modestamente na casa de sua filha casada, em Corumbaíba.

Acabou sendo reconhecido como um grande escritor e poeta que marcou a literatura de Goiás. Seu reconhecimento era tamanho que Malba Tahan, o respeitado matemático carioca, foi visitá-lo em Corumbaíba, atraído pela beleza de seus versos.

Pena que restaram apenas um terço de seus escritos, de acordo com o próprio Ricardo Paranhos. Ao longo de sua atribulada vida, a maior parte ficou extraviada. Quando se mudou para a Cidade de Goiás, em 1904, alugaram sua casa em Catalão e perdeu todo o acervo de escritos, documentos e livros. Como ele próprio escreveu: “Deixei tudo encaixotado e transferi-me temporariamente para Goiás, onde estive cerca de três anos. Na minha ausência alugaram a casa a um negociante de fora e este removeu o caixão de papéis, da sobreloja em que se achava, para o armazém térreo, salitrado, úmido. Perdi toda a livraria e tudo o mais que com ela encaixotado estava!”

De outra feita, a própria mulher de Ricardo viajava com alguns cadernos, de crônicas e poemas, que foram esquecidos na poltrona de um vagão de passageiros da estrada de ferro. O valioso pacote nunca mais foi encontrado.

Muitas crônicas que escrevia ficaram para a posteridade, porque foram publicadas em periódicos da velha capital, na imprensa do Triângulo Mineiro e no jornal “Goiás e Minas” em Catalão. Nesse último, criou uma coluna fixa, que batizou de Arcádia Catalana, onde editava textos de intelectuais da cidade. Muitos ficaram conhecidos no mundo da literatura em função da iniciativa de Ricardo Paranhos.

O Anuário Descritivo Histórico e Geográfico de Goiás, em 1910, apresentou o poema “Convalescência”, de Ricardo Paranhos, e teceu elogios aos poetas catalanos, resgatados e divulgados pelo escritor. O Anuário, organizado pelo professor Francisco Ferreira dos Santos Azevedo, elegeu Catalão como a “Atenas de Goiás”. Esta feliz denominação foi abraçada pelos catalanos e passou a constar no hino oficial da cidade.

Durante toda a vida, Ricardo Paranhos esteve ligado à sua terra natal. Mesmo quando morava fora, cumpria temporadas em Catalão onde fazia suas famosas serenatas. A noitada começava depois de um aperitivo na casa do Sr. Li Araújo e o conjunto de seresteiros compunha-se de sua mulher Cota e algumas jovens cantadeiras, entre as quais Isabel Paranhos Netto e Astréia Borges. Varavam a noite cantando ao violão e o percurso geralmente terminava na residência de Randolfo Campos com o dia amanhecendo.

Ricardo Paranhos tinha o espírito boêmio. De certa feita, criou o Clube Suan, onde somente servia arroz, acompanhado de suan e pinga crua. Nada mais, porque o objetivo do clube era proporcionar diversão barata, em que todos catalanos pudessem participar, independentemente de sua condição social. Todas essas extravagâncias encontram-se divertidamente registradas em suas crônicas. Numa ode à bebida escreveu: “Todo mundo tem a sua cachaça. A minha, é ela mesma!”

Era um humorista incorrigível. Brincava com tudo e com todos, uma alma de criança grande. Monsenhor Primo, escrevendo a respeito de Ricardo Paranhos, lembrou que, “os poetas têm o dom de conservar, pela existência afora, a ingenuidade e doçura dos pequeninos, que contemplam o mundo como uma caixa de brinquedos, a abrir-se todos os dias com surpresas inéditas”.

Ricardo Paranhos demonstrou ter acalentado três paixões na vida: a sua mulher, a cidade de Catalão e a arte literária.

Casado com Maria Carolina Leite (a sua Cota), teve quatro filhos: Orestes, Osires, Alceste e Diva. Somente o primeiro ingressou na política, tendo sido vereador na cidade de Araguari. Teve, durante a vida, um carinho todo especial pela sua Cota e com ela viveu até o fim de seus dias. Vários poemas foram feitos com inspiração em sua mulher e companheira ao longo da vida.

Catalão, por sua vez, esteve sempre guardado no seu coração. Mesmo quando residia fora buscava, na solidão da noite, algo que pudesse apontar, nos céus, o clarão de sua cidade natal. No poema “Talvez”, escreveu um verso que dizia: “Quero, quando eu morrer, ser sepultado lá no cimo do monte, ao pé da grande cruz, defronte a capelinha…”, referindo-se ao Morrinho de São João.

O verso acima, sem dúvida, era apenas veleidade poética e não exatamente expressão de um desejo. Mesmo porque Ricardo Paranhos já havia dito que gostaria de ter, como epitáfio, a inscrição no seu túmulo: “Aqui jaz Ricardo Paranhos, muito contra a sua vontade”.

Mesmo assim, a Academia Catalana de Letras recolheu seus restos mortais no cemitério de Corumbaíba, em 1978, e os sepultou ao pé do cruzeiro, no alto do Morrinho de São João, em Catalão.

A energia do poeta, e filho ilustre da terra, contagia, até hoje, os visitantes daquele verdadeiro santuário.

Luís Estevam, doutor em economia pela Unicamp e escritor, é colaborador do Jornal Opção.

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