A tetralogia de Nova York de Woody Allen

“Annie Hall”, “Manhattan”, “Hannah e Suas Irmãs” e “Crimes e Pecados” são filmes nos quais a “personagem principal” é uma cidade

Diane Keaton e Woody Allen no filme “Annie Hall” | Foto: Reprodução

Roberta Ribeiro

O período entre a segunda metade da década de 1970 e o final da década de 1980 costuma ser apontado por críticos de cinema e biógrafos de Woody Allen como o período mais criativo e contundente de sua produção. Ao longo desse intervalo, de pouco mais de dez anos, o cineasta criou o que designo como Tetralogia de Nova York, composta por “Annie Hall”, de 1977, “Manhattan”, de 1979, “Hannah e Suas Irmãs”, de 1986, e “Crimes e Pecados”, de 1989.

É importante frisar que Woody Allen produziu filmes que se passam em Nova York antes de “Annie Hall”, contudo é apenas a partir dessa obra que a cidade deixou de ser um cenário, plenamente substituível se fosse o caso, para ser um personagem estrito da narrativa. Da mesma forma, Nova York reaparece na obra de Woody Allen diversas vezes após “Crimes e Pecados”, mas não mais com a mesma força dramática, consistência narrativa e, sobretudo, como parte de uma proposta consciente de reflexão sobre a cidade.

Woody Allen não começou sua carreira cinematográfica colocando-se essencialmente como um cineasta de Nova York. O início de sua trajetória artística desenvolveu-se segundo as especificidades da indústria do cinema sediada em Hollywood, na Costa Oeste dos Estados Unidos. Atuou e escreveu o roteiro de alguns filmes de grande orçamento antes de estrear no comando de uma produção pequena. Seu primeiro filme, “O que Há, Tigresa”, de 1966, foi basicamente um exercício estético de montagem a partir de dois longas-metragens japoneses. O segundo, “Um Assaltante Bem Trapalhão”, de 1969, tem Nova Jersey como principal cenário. Apenas em seu terceiro trabalho na direção, “Bananas”, de 1971, Nova York surge como ponto de partida das aventuras do protagonista na América do Sul. A mesma presença circunstancial da cidade é observada em seus filmes subsequentes, até a mudança ocorrida em “Annie Hall”, considerada sua primeira obra de maturidade artística. Em outras palavras, “em 1977, Woody decidiu largar Hollywood e fixar-se na sua querida Manhattan” (Leão, 2006, página 342).

“Annie Hall”

Significativamente, “Annie Hall” representou o início de um processo de afastamento estratégico de Woody Allen da estrutura corporativa dos grandes estúdios de Hollywood, sediados em sua maioria nos arredores de Los Angeles. Ao longo de toda a duração do filme, de modo explícito e incorporado à sua narrativa de comédia romântica, há críticas e piadas ao “estilo de vida descolado” californiano. O diretor contrasta o espírito cosmopolita e intelectualizado de Nova York com o que considera a existência banal, superficialmente espiritualizada e hedonista amplamente observável e difundida em Hollywood. De certo modo, “Annie Hall” é um retrato comparativo entre as duas cidades. E também um registro irônico das realidades espelhadas de Nova York e Los Angeles.

Com “Annie Hall” Woody Allen reinventou um dos gêneros mais tradicionais de Hollywood, a comédia romântica. Com títulos como “Aconteceu Naquela Noite” (1934), de Frank Capra, “Levada da Breca” (1938), de Howard Hawks, e “A Princesa e o Plebeu” (1953), de William Wyler, tendo estabelecido as regras do gênero, Woody Allen produziu uma inversão tanto dos papeis desempenhados pelos personagens quanto do sentido geral da narrativa. Ao invés da narrativa cronológica de encontros e desencontros, usou fartamente flashbacks, metalinguagem, com especial utilização de quebra da quarta parede.

Diane Keaton e Woody Allen numa cena clássica de “Annie Hall” | Foto: Reprodução

Talvez a mudança mais significativa tenha sido no perfil do protagonista masculino, redefinindo-o para caber em sua persona artística. No modelo anterior, o personagem interpretado por Allen, um intelectual inseguro e hipocondríaco, seria no máximo o amigo excêntrico do herói romântico. Aqui ocupa o lugar de protagonista, ficando o wasp típico no papel do amigo, e a personagem feminina não como um objetivo a ser alcançado, com a simbologia de representar a felicidade final e inconteste, mas como um episódio exemplar em sua trajetória. Nota-se que em quase todos os filmes que têm por título o nome de um personagem, esse personagem é o protagonista (o filme chama-se Annie Hall no original). Entretanto, no caso, o personagem central é Alvy, e não Annie.

O projeto de comédia “realista” de Woody Allen teve diversos títulos de trabalho. O primeiro e principal foi “Anhedonia”, em português “Anedonia”, palavra que designa uma situação clínica psicológica que gera no paciente a incapacidade de sentir prazer. Esse título foi abandonado por determinação dos executivos do estúdio United Artists, que não conseguiram criar uma campanha publicitária que conseguisse explicar para o público o significado do termo médico. Foram sugeridos como substitutos “It Had Tobe a Jew”, ou “Tinha que Ser um Judeu”, e “Me and My Gou”, ou “Eu e minha gói”, que fortaleciam e sublinhavam desnecessariamente o aspecto étnico do enredo. Acabou-se optando pela simplicidade de “Annie Hall”.

Annie Hall é cínico, irônico e, embora aspectos da dramaturgia sejam surreais, realista. O perfil da protagonista feminina, cujo nome dá título ao filme, é definidor neste sentido. É uma boa cantora, mas não excepcional. É cheia de complexos e sentimentos de culpa. Sua família é fria e distante, com óbvios problemas sentimentais escamoteados. Gosta de ler poesia, mas não é particularmente culta. Não há idealizações românticas. Em seu pessimismo, para Alvy, sua amada Annie é miserável e deve se sentir feliz por isso.

“Annie Hall” foi muito bem recebido por público e crítica. O DVD comercial lançado no Brasil apresenta na contracapa o trecho de uma crítica da revista “Saturday Review” preconizando que nesta obra Woody Allen havia “completado a jornada de cômico a humorístico, de cineasta inventivo a artista criativo”. Apesar das ironias de Woody Allen à indústria do cinema, a Academia de Hollywood consagrou “Annie Hall” na cerimônia do Oscar. Indicado em cinco categorias, o longa-metragem ganhou as láureas de melhor filme de 1977, melhor diretor, melhor atriz para Diane Keaton, melhor roteiro original, que Woody Allen dividiu com Marshall Brickman. Perdeu apenas o Oscar de melhor ator, para a atuação de Richard Dreyfuss no filme “A Garota do Adeus” — um resultado questionável.

Em todo caso, tamanha consagração foi uma atitude corajosa da comunidade artística de Hollywood. “Annie Hall” disputava diretamente com o grande sucesso crítico e popular “Guerra nas Estrelas”, dirigido por George Lucas, obra responsável por modificar todo o parâmento do cinema de entretenimento jovem. “Guerra nas Estrelas”, longe de ser ruim, é um filme de fantasia direto, aventuresco e inspirador.

Woody Allen não compareceu à cerimônia do Oscar. Atitude que se tornaria um hábito nas décadas seguintes. Sintomaticamente, uma das piadas mais significativas do filme é justamente uma citação ao humorista Groucho Marx, uma das grandes influências de Woody Allen, com Alvy dizendo que sua vida “é como a velha piada de Groucho Marx… que não quero participar de nenhum clube que me aceite como sócio” (“Annie Hall”, 00:18:01). Confirmando e ao mesmo tempo expandindo o universo ficcional de “Annie Hall”, será esse clube Hollywood? O sim parece ser uma resposta crível. A partir daí, definitivamente, Nova York passou a ser sua cidade símbolo e sede criativa.

“Manhattan”

Se Nova York foi transformada por Woody Allen em personagem de sua obra cinematográfica em “Annie Hall”, deixando de ser mero pano de fundo ou cenário, não havia aqui, ainda, um discurso apologético à cidade. Sua defesa, quando em comparação, sobretudo, com Los Angeles, tratava-se de uma preferência, quase uma idiossincrasia, do protagonista, que chega a admitir, ironicamente, que gosta de Nova York porque “gosta de lixo”.

Woody Allen e Mariel Hemingway no filme “Manhattan” | Foto: Reprodução

A crueza desse comentário revela que mesmo os mais ferrenhos admiradores da cidade não negavam os problemas urbanos vivenciados por seus habitantes. A sujeira, a violência, a má administração são fatos incontornáveis. Mas o amor por Nova York existe apesar deles.

Em “Annie Hall”, Nova York é uma cidade real, com defeitos, mas também com qualidades que a tornam digna de admiração. Com “Manhattan”, o plano de Woody Allen era construir uma sinfonia da cidade. Sobrepor toda e qualquer concepção de cidade real ao peso simbólico da cidade ideal. A cidade é mostrada, mas é apenas vagamente problematizada. É importante lembrar que Manhattan foi produzido em um contexto de crítica ao processo de agigantamento urbano, a transformação das grandes cidades em metrópoles ou megalópoles cada vez mais complexas e, administrativamente falando, inviáveis. Allen optou por fazer uma apologia à cidade de Nova York justamente na época em que o cinema começou a discutir de maneira mais séria sua degradação urbana, em filmes como “Serpico”, de 1974, “Um Dia de Cão”, 1975, e “Taxi Driver”, de 1976.

Enquanto cineastas colegas de geração produziam filmes que se pretendiam realistas e cínicos, na segunda parte de sua Tetralogia de Nova York Allen desejou realizar uma homenagem deliberada.

A Nova York de Woody Allen tornou em 1979 essa cidade celeste, muitas vezes vista de cima e por cima, entre fogos de artifício e flocos de neve, uma metrópole quase imaginária. Depois da Nova York “lixo” carismático de “Annie Hall”, a nova Nova York de “Manhattan” é uma cidade mágica, bela, idealizada e, pelo menos em sua superfície, limpa. Literalmente, uma espécie de utopia.

Essa proposta de utopia como “lugar que não existe”, mas que deve ser buscado, foi pouco a pouco sendo incorporada ao imaginário coletivo ocidental e não foram poucas as propostas políticas em diferentes versões deste conceito que emergiram ao longo dos séculos, com os mais diversos tipos de repercussões. Porém, de modo sistemático, é quase regra que a ideia de utopia se ampare na noção de lugar. A utopia, para além de um modo de vida, é um lugar em que esse modo de vida se torna factível. No mundo moderno e contemporâneo, salientando uma perspectiva já forte em períodos anteriores, estabelece a cidade como chave nesta equação simbólica.

Ao realizar sua “utopia” cinematográfica o cineasta precisa estar disposto a defendê-la como tal, como um “faz-de-conta”, como uma projeção, correndo o risco de ver sua criação ruir sob o próprio peso caso opte por ir além, caso opte por oferecer sua utopia como possibilidade ou proposta. Isso seria extrapolar a esfera artística, passando para a ideológica, que não é objeto desta análise. Para o diretor, mesmo uma utopia pode ser alvo de piadas. O que fica explícito na sequência de abertura de “Manhattan”, quando, numa narração em off, o personagem principal Isaac, interpretado por Woody Allen, descreve suas percepções da cidade.

Ocorre uma sutil, mas fundamental, modificação entre a abertura de “Annie Hall” e “Manhattan”. Em “Annie Hall” não há música. Os letreiros desfilam na tela em silêncio. Depois ouvimos a voz de Alvy, interpretado por Woody Allen, e em seguida o visualizamos focalizado em plano aproximado, quase um close-up, em um fundo neutro. Não há cenário, não há paisagem. Apenas depois de algum tempo de tela que o expectador é informado que a narrativa se passa em Nova York. Em “Manhattan” a equação se inverte já na sequência de abertura. A primeira imagem é uma vista plenamente reconhecível de um conjunto de prédios nova-iorquinos. Destaca-se entre eles o Empire State Building. Aos poucos, delicadamente, se introduz os primeiros acordes da melodia de “Rhapsody in Blue”, de George Gershwin. Em um crescente a música sobe e, no ritmo de seus compassos, a edição do filme mostra uma longa sequência de imagens em preto e branco da cidade. Todas as estações do ano são contempladas. Aparecem inclusive montes de lixo, prédios com a pintura descascada e zonas de gueto. Embora seja impossível precisar, algumas cenas parecem registros reais do cotidiano dos habitantes da cidade, como se fosse documentário ou reportagem, enquanto outras são encenadas. Woody Allen rege a combinação entre música e imagens como um maestro rege uma sinfonia. Em um dos edifícios se vê um letreiro em neon, na horizontal, em que se lê “Manhattan”. Ele serve como letreiro de apresentação do título do filme.

Uma bela cena (praticamente um quadro) do filme “Manhattan” | Foto: Reprodução

“Manhattan” é possivelmente um dos trabalhos de Woody Allen em que os elementos técnicos da construção cinematográfica foram trabalhados com maior esmero.  Woody Allen é, em geral, um cineasta mais da palavra do que da imagem. Em “Manhattan” há a fusão das duas possibilidades. Com “Manhattan”, definitivamente, Woody Allen amalgamou-se à imagem de sua cidade natal.

Em linhas gerais, “Manhattan”, assim como “Annie Hall”, é uma comédia romântica agridoce, marcada pelo signo do desencontro. Conta a história de um roteirista de televisão chamado Isaac, que despreza seu trabalho e, de modo intempestivo, abandona tudo para realizar seu sonho de escrever um romance. Isaac foi deixado pela segunda esposa, que o trocou por uma mulher, com a qual está criando o filho do casal. Em sua crise de meia idade, para se auto afirmar, namora uma jovem estudante e aspirante a atriz, de apenas 17 anos, chamada Tracy, interpretada por Mariel Hemingway. Isaac é amigo e confidente do professor universitário Yale, que, sendo casado com Emily, mantém um caso extraconjugal com Mary, interpretada por Diane Keaton, uma intelectual de formação conservadora. “Manhattan” termina como uma obra aberta. Não sabemos o destino final das personagens. Só sabemos que, antes de partir, Tracy pediu para Isaac ser mais otimista, para “acreditar mais nas pessoas”. Essa é a última fala do filme. Certamente, o filme seguinte da Tetralogia de Nova York, “Hannah e Suas Irmãs”, foi, sobretudo, um filme sobre pessoas e suas relações com a cidade.

“Hannah e Suas Irmãs”

De cidade personagem em Annie Hall à utopia urbana em Manhattan, Nova York passou a ser representada como mosaico em Hannah e Suas Irmãs. Essa multiplicidade está contemplada na obra, é seu motor. Se Manhattan é, como foi definido por alguns críticos, um filme sobre estar apaixonado em Nova York e por Nova York, Hannah e Suas Irmãs abre um leque muito mais amplo de sentimentos e ações: é sobre estar apaixonado, sobre encontros, mas também sobre desencontros, traições, arrependimentos, culpa, amizades, inimizades, integridade artística, dividir gostos e ter gostos diferentes, sobre perdoar e sobre não saber de nada.

Em “Hannah e Suas Irmãs” as cenas urbanas de cartões postais não são tão importantes quanto nos filmes anteriores. O que vemos são ruas que possuem tanto prédios velhos, com paredes descascadas, quanto edifícios imponentes, clássicos, modernos ou contemporâneos, com fachadas lindamente preservadas, numa mostra da diversidade urbana de Nova York.        A trama de Hannah e Suas Irmãs é, comparativamente, mais complexa e ramificada do que nas produções anteriores da filmografia do diretor. Não por acaso Woody Allen define “Hannah e Suas Irmãs” e “Crimes e Pecados” como seus “romances no cinema”. A narrativa é dividida em seguimentos indicados por cartazes que estabelecem a cronologia, sugerem ação, contexto, apresentam epígrafes ou comentam os desdobramentos do enredo. Sua principal fonte de inspiração foi a peça “Três Irmãs”, do dramaturgo e contista russo Anton Tchekhov (1860-1904). As personagens título do filme, igualmente três irmãs, espelham as personagens da peça.

Cena do filme “Hannah e Suas Irmãs”: um novo retrato de uma cidade | Foto: Reprodução

Hannah, a irmã mais velha, interpretada por Mia Farrow, embora talvez seja a figura com menos tempo de tela, é o elemento chave da narrativa. É uma atriz respeitada, tendo recentemente participado de uma bem-sucedida montagem de “Casa de Bonecas”, de Ibsen, mas jamais a vemos no palco. Somos informados de seus sucessos pela fala de terceiros. Seu sucesso oprime os demais personagens.

O ator inglês Michael Caine interpreta o contador Elliot, segundo marido de Hannah. Atraído por Lee, encarnada por Barbara Hershey, Elliot, tal qual um adolescente apaixonado, espera a cunhada, escondido nas estruturas de ferro de um prédio em reforma. Os dois acabam se envolvendo romanticamente, apesar de Lee também estar comprometida com um artista plástico mais velho, erudito e casmurro.

A outra irmã de Hannah, Holly, interpretada por Dianne Wiest, também está numa situação afetiva delicada. Separada de um ex-marido viciado em drogas, ela está sempre competindo pela atenção dos interesses amorosos com a melhor amiga, April, interpretada por Carrie Fisher. Assim como Hannah, as duas são atrizes, mas estão sempre desempregadas, participando de incontáveis e malsucedidos testes de elenco.

O final de “Hannah e Suas Irmãs” é feliz, embora sutilmente cínico, uma vez que o desconhecimento de Hannah dos fatos é o que possibilita o retorno à normalidade de sua vida de casada. Passa-se em mais um jantar de comemoração de Ação de Graças. A casa está cheia e animada. Diferentemente das outras festas do filme, não há tensão visível. Elliot e Lee terminam o caso extraconjugal. Lee conhece um simpático professor de literatura e se casa com ele. Holly abandona as drogas, começa a ter sucesso profissional e se casa com Mickey, primeiro marido de Hannah, com total aprovação e conhecimento de irmã mais velha. Na verdade, Woody Allen considera esse final demasiado feliz.

Michael Caine atua em “Hannah e Suas Irmãs” | Foto: Reprodução

Em todo caso, a cena final guarda uma segunda ironia sutil e cínica. Diante de um espelho, Holly revela para Mickey que está grávida. Ocorre que ao longo da narrativa o espectador é informado que o produtor de TV possui baixa contagem de espermatozoides e não pode ter filhos. As duas crianças que teve com Hannah são fruto da doação de sêmen feita por seu ex-sócio. Mickey se curou milagrosamente ou Holly teve um caso extraconjugal? Entre o improvável e o possível, o espectador não recebe uma resposta. Mas não se trata de uma obra aberta, como “Manhattan”. Mickey opta simplesmente por não pensar no assunto e tentar ser feliz ao lado da esposa. Festejam com um beijo a novidade mais do que inesperada.

Crimes e Pecados

O filme “Crimes e Pecados”, lançado em 1989, é a última parte da Tetralogia de Nova York. É onde, finalmente, essa Nova York bucólica e utópica apresentada nos filmes anteriores revela suas entranhas, seu submundo, mostrando que, citando a célebre frase da peça Hamlet, de Shakespeare, “há algo de podre no reino de Woody Allen”.

Nesse sentido, o caminho traçado entre “Annie Hall” e “Crimes e Pecados” mostra, se não um processo de amadurecimento de uma visão artística, pelo menos uma clara trajetória do idealismo para o realismo. Ao final de sua Tetralogia, Woody Allen permitiu-se colocar em perspectiva uma modelo de interpretação da cidade de Nova York que ele desenvolveu e popularizou e que galvanizava parte considerável do sucesso e prestígio que alcançou ao longo da carreira.

“Crimes e Pecados” filme inspirado em “Crime e Castigo”, de Dostoiévski | Foto: Reprodução

Se nos filmes anteriores Woody Allen varria a “sujeira” das ruas da cidade para debaixo do tapete, uma sujeira fortemente denunciada por cineastas como Martin Scorsese, Willian Friedkin e Sidney Lumet, em “Crimes e Pecados” levantou esse mesmo tapete para dar um vislumbre do que havia se acumulado embaixo.

Woody Allen não encarou o projeto de “Crimes e Pecados” como mais um de seus filmes anuais. Em diversas ocasiões ele tornou público seu desejo de escrever um romance literário, bem como sua incapacidade para tanto. “Crimes e Pecados” é dividido em duas narrativas paralelas, uma trágica e outra com traços amargamente cômicos, e sem ligação direta, salvo os personagens principais fazerem parte da comunidade judaica de Nova York, que se cruzam no final. O primeiro personagem é Clift, um cineasta idealista, interpretado por Woody Allen, que está envolvido em um projeto que considera medíocre e que coloca em risco sua integridade artística. O outro personagem é Judah, interpretado por Martin Landau, um respeitado médico que, desesperado para esconder sua vida dupla, resolve assassinar a amante, com a ajuda do irmão gangster.

A principal inspiração para “Crimes e Pecados” é o romance “Crime e Castigo”, do escritor russo Fiódor Dostoiévski. Não se trata de uma adaptação ou de modernização, mas de inspiração. O que aproxima as duas obras é o tema da culpa. A noção de que um crime grave uma vez cometido, mesmo que não seja descoberto pelas forças ordenadoras mundanas, notadamente a polícia, ou mesmo o corpo social, vai atormentar a consciência de seu praticamente, ainda que apenas ela saiba. Isso porque, a partir da noção de culpa judaica cristã, que inspirava o escritor russo nessa fase final de sua produção literária, todo ato criminoso sempre possui pelo menos uma testemunha: Deus. Os olhos acusadores de Deus estarão sempre sobre o criminoso.

“Crimes e Pecados” é um dos mais densos filmes de Woody Allen | Foto: Reprodução

Judah e Clift se encontram na sequência final do filme, que se passa na festa de casamento da filha do rabino Ben, que perdeu a visão progressivamente ao longo da narrativa. Esse processo representam os olhos de Deus ficando cegos. Clift se esconde com um copo de uísque em um canto isolado da festa. Foi demitido do filme que fazia. Judah, que o conhece vagamente como alguém que “faz filmes”, se aproxima e lhe oferece uma ideia para realizar uma história policial sobre um homem de bem que comete um crime. Conta com riqueza de detalhes o crime que cometeu. O cineasta entende como se fosse ficção. Um com todo respeito social não poderia cometer um ato de tamanha gravidade. É inverossímil. Mas Judah sabe que cometeu o crime. Porém, o que mais o assusta é o fato de que, como não foi pego pela polícia, com o passar do tempo, deixou sequer de sentir culpa. A cegueira do Deus acusador deixou-o livre.

Depois da Tetralogia de Nova York nunca mais, pelo menos até então, o diretor trabalhou seriamente enredos com crimes e violência que se passassem ali. Os episódios policiais retratados em obras como “Misterioso Assassinato em Manhattan” (1993), “Tiros na Broadway (1994), “Trapaceiros” (2000) ou “Scoop — Grande Furo” (2006) são tratados comicamente, enquanto o crime em “Você Vai Conhecer o Homem de Seus Sonhos” (2010) é um episódio menor e inconclusivo dentro da narrativa. Os assassinatos de “O Homem Irracional” (2015) ocorrem em Newport, uma pequena cidade universitária, ao passo que “O Sonho de Cassandra” (2007) e “Match Point” (2011) se passam em Londres. Considerando as similaridades temáticas e narrativas entre “Crimes e Pecados” e “Match Point” essa mudança de cenário se torna ainda mais significativa. Deliberadamente Allen afastou o “submundo” de seu quintal. Diante disso, resta perguntar se nesse caso vale a máxima de que “o pior cego é aquele que não quer ver”?

Roberta Ribeiro é professora da Universidade Estadual de Goiás (UEG), doutoranda em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e autora do livro “Woody Allen e a História”.

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