A sociopolítica contemporânea no divã de Byung-Chul Han

O sujeito destina horas seguidas à autoprodutividade sob a doutrina do rendimento máximo, saindo do status de trabalhador regrado e tornando-se seu próprio empresário

Fedra Rodríguez*
Especial para o Jornal Opção

Liberdade é coação. É com esse aparente paradoxo que Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano radicado na Alemanha, abre a coleção de ensaios agrupados no livro “Psicopolítica — O Neoliberalismo e Novas Técnicas de Poder” (102 páginas), publicado no Brasil pela Editora Âyiné em 2018, com tradução de Maurício Liesen.

No século 19 e na primeira metade do século 20 imperava a disciplinarização dos sujeitos, mantidos sob as ordens do verbo “dever”, por meio das duras ações das instâncias de dominação como o Estado, a Igreja, o sistema financeiro derivado das primeiras fases da Revolução Industrial e a sociedade de costumes. Esse era o tempo do poder disciplinador, que cingia os indivíduos com preceitos e proibições de diversas naturezas, submetendo-os contra sua vontade e regrando muito além do seu trabalho, mas também seu lazer e suas emoções, com vistas à normatização plena e a uma consequente eliminação de “desvios”.

No panorama de industrialização e mecanização que tomou toda uma época — perfeitamente retratada por Charles Chaplin em “Tempos Modernos” (1936) —, o trabalhador precisava “apertar porcas e parafusos” por horas seguidas, não raramente em condições insalubres, servindo a uma produtividade esperada por um chefe, por uma companhia, por seu país (Byung-Chul Han ressalta, inclusive, que não por acaso o termo em inglês industry é também sinônimo de diligência). Em meio a isso formou-se a dicotomia proletários versus burguesia, nascida da contradição inevitável entre as forças produtivas e as relações de produção, e motor propulsor das lutas de classes tão propaladas pelo marxismo.

Não obstante, segundo Byung-Chul Han, essa suposta assimetria não se sustenta mais na atualidade. As mudanças sociais, políticas, econômicas e tecnológicas que se sucederam metamorfosearam o capitalismo industrial em um neoliberalismo defensor da liberdade. Não é mais possível derrubar um “Estado parasita” e construir uma ordem social comunista, simplesmente porque não é mais viável sustentar a diferença entre proletário e burguês. Do verbo “dever” imposto pelo capitalismo de antigamente passamos ao “poder fazer” neoliberal: apaga-se a exploração pelo alheio e dá-se lugar à exploração de si mesmo, fenômeno que atinge todas as classes. É desse modo que o sujeito passa a destinar horas seguidas à “autoprodutividade” sob a doutrina do rendimento máximo, saindo do status de trabalhador regrado pela batuta de um chefe e tornando-se seu próprio empresário. Não serve mais a ninguém se não a si mesmo, de tal sorte que seu fracasso ou êxito agora dependem inteiramente de si. Instaurando-se sub-repticiamente, essa transformação blindou o sistema ou Estado a ponto de que nunca são colocados em xeque, afinal somente a competência ou a inaptidão podem dar as respostas e explicar a posição social e econômica em que cada um se encontra. É por essa razão também que o indivíduo não tem forças ou vontade de mudar qualquer cenário político que lhe desagrade: resmunga entredentes, já que, se reclamar, revelará que algo não vai bem em sua vida, impensável para o self-made man da contemporaneidade.

Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano radicado na Alemanha | Foto: Reprodução

Relações entre indivíduos são voláteis

Han afirma, ainda, que na rat race particular da atualidade não há necessidade de um panóptico de Bentham, um edifício em que prisioneiros são acompanhados a cada segundo por um observador rigoroso que proíbe até a comunicação. O panóptico benthamiano neoliberal do século 21 permite tudo, o sujeito crê-se inteiramente livre e se desnuda com gosto: a internet, as redes sociais, tornam-se o meio pelo qual mostramos sucesso, produtividade e esperteza.

Nessa democracia de espectadores e comunicadores sem barreiras, o like vira a anuência máxima, e cada amigo, seguidor ou rede social é um dos fios transparentes da trama de dominação (quase) imperceptível. Questiona-se aqui também o substrato das relações humanas: numa sociedade composta por self-made people não é possível estabelecer com outros relações verdadeiras de amizade, já que o empresário de si mesmo só consegue formar com outros laços unidos por uma finalidade. Igualmente, apaga-se o sentimento, porque este exige uma narrativa, é longo, demorado. É preciso ceder espaço para a emoção: performativa, mais fugaz e dinâmica, a fagulha básica para a combustão da motivação. E, justamente por tais características, serve como ferramenta de incremento da produtividade, pois é o fundamento energético das ações. O século 21 torna-se a era das emoções (não dos sentimentos), que correm livres e cuja expressão é amplamente incentivada pelas instâncias de poder, para as quais se transformam em recursos perfeitos de controle psicopolítico. Se incentivam a fecundidade do capital, por outro lado mutilam as relações entre indivíduos, passando a impregná-las com sua volatilidade.

Daí o paradoxo que abre a análise de Byung-Chul Han sobre a ilusão da liberdade e potência do ser humano da contemporaneidade: ser livre corresponde a estar entre amigos, ser livre é construir uma coexistência satisfatória. Contudo, esse novo sistema vigente e aceito voluntariamente promove e incentiva o “isolamento acompanhado e comunicativo” das redes sociais. O filósofo vai ao encontro das ideias propostas pela jornalista e escritorar Masha Gessen, colunista do “The New Yorker”, que por sua vez retoma “As Origens do Totalitarismo”, da filósofa Hannah Arendt: o isolamento é a incapacidade de agir e criar com outros além da superficialidade dos atos cotidianos. E é exatamente essa incapacidade que torna o indivíduo impotente e encarcerado.

Engana-se, no entanto, quem acredita que os ensaios do filósofo sul-coreano se dirigem unicamente ao neoliberalismo. Han também critica indiretamente a obsolescência do pensamento comunista, ainda aferrado à luta de classes da era disciplinadora, ademais de citar e contrapor filósofos como Michel Foucault, Eva Illouz e Antonio Negri, que a seu ver não teriam desenvolvido conceitos totalmente extensíveis aos tempos da tecnologia “amavelmente” controladora.

Nesse sentido, Byung-Chul Han aproxima-se de David Runciman, autor de “Como a Democracia Chega ao Fim” (Todavia, 272 páginas, tradução de Sergio Flaksman): vivemos uma época em que devemos ter muita cautela ao fazer comparações com o passado ou agarrar-nos a ideias concebidas e aplicáveis antes da psicopolítica tecnológica presente, pois os modos de exercer domínio invadem espaços e interstícios que até há pouco não haviam sido explorados nessa proporção. Presenciamos o desenvolvimento e apogeu de uma configuração política e econômica determinada “por formas de produção imateriais e incorpóreas” geradas pela auto-otimização do sujeito isolado dos demais, ainda que em plena comunicação com estes. E esse, sim, pode ser o caminho para a submissão permanente e irrevogável sob o título de liberdade.

Fedra Rodríguez* é professora e tradutora.

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