A Sedução da Carne, de Bressane

Nem todos entendem ou gostam dos filmes de Júlio Bressane, mas existem grandes apreciadores. A prova foram os aplausos insistentes quando o cineasta apareceu no Cine Kursal, em Locarno, na mostra Sinais de Vida

Júlio Bressane | Foto: Divulgação

Rui Martins**
Especial para o Jornal Opção

A sedução da carne pode levar a um complemento da alimentação, mas também à destruição, como enfatizou Bressane, em conversa com os espectadores, depois da apresentação de seu filme surrealista Sedução da Carne, na mostra paralela Sinais de Vida, do Festival Internacional de Cinema de Locarno.

No Brasil, para se chegar aos rebanhos bovinos se destroem florestas, pratica-se a monocultura da soja e se interrompem mesmo os ciclos das águas, disse ele sobre o aspecto literal da carne.

Nem todos entendem ou gostam dos filmes de Bressane, mas existem grandes apreciadores. A prova foram os aplausos insistentes quando o cineasta apareceu no cine Kursal, em Locarno, na mostra Sinais de Vida, para responder às perguntas de espectadores, logo após a exibição do filme.

A personagem do filme Sedução da Carne é Siloé, nome inspirado de uma antiga nascente de água em Jerusalém, conhecida nos Evangelhos por ter lavado nela seus olhos, retirando o barro com saliva, um cego curado por Jesus.

Siloé costuma falar com seu papagaio e conta ser viúva há três anos. Antes, havia viajado muito com seu marido e as paisagens e imagens mostradas no filme Sedução da Carne são dos lugares por onde ela viajou.

Ao lado dela, há sempre um prato com filés de carne crua. O filme se torna surrealista como os do espanhol Luiz Buñuel, quando pedaços de carne passam a se mover como se fossem vivos.
A relação de Siloé com os pedaços de carne é erótica, ela lambe um pedaço no qual há uma orifício, enquanto outro pedaço vivo de carne crua desliza pelas suas pernas em direção à entre coxa, sobre seu sexo, coberto pela saia, permitindo-lhe se masturbar.

Na cena final, Siloé está deitada nua sobre as costas com largos bifes sobre seus seios, coxas e púbis.

Vegetariano, mas não propagandista dessa opção alimentar, Bressane mostra algumas curtas cenas de abate de animais e sangria, que lembram as dos movimento antiespecista veganista.
Logo depois da exibição do seu filme, Bressane aproveitou para denunciar a destruição que se continua fazendo no Brasil das florestas para o plantio da soja, isso se refletindo no escasseamento da água e das chuvas, além do envenenamento alimentar provocado pelo excesso de agrotóxicos nas plantações.

Júlio Bressane foi a seguir para Sils Maria, na Suíça, apresentar seu filme sobre a presença de Nietzche naquela cidade.

Rui Martins está em Locarno convidado pelo Festival Internacional de Cinema.

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