A propósito de um dicionário analógico em Língua Portuguesa

O dicionário que Kurt Pessek organizou, pelo selo da Thesaurus Editora, compila mais de 800.000 verbetes e atinge quase 1.800 páginas num só volume

João Carlos Taveira

Especial para o Jornal Opção

Num mundo devastado pela mediocridade, pela violência, pelo egoísmo e — “last but not least” — pelos ditames de um sistema cada vez mais consumista e utilitário, em que o homem perambula sem norte e sem esperança à mercê da própria sorte, o surgimento de novas opções no campo da lexicografia, paralelas a um punhado de outras boas publicações de ficção e de não-ficção, é como um bálsamo, um refrigério para a alma daqueles que heroicamente ainda resistem.

Idealista que sou, quero cuidar hoje de um assunto muito especial, pelo menos para mim: o “Dicionário de Palavras Interligadas — Analógico e Ideias Afins”, de Kurt Pessek. Sempre tive e alimentei paixão por dicionários de todas as naturezas, aliás, a mesma que tenho pelos livros em geral.

O dicionário que Kurt Pessek organizou e lançou em Brasília, pelo selo da Thesaurus Editora, compila mais de 800.000 verbetes e atinge quase 1.800 páginas num só volume de capa dura, impresso em papel pólen 67g, com tiragem de 300 exemplares, numerados e autografados pelo autor. E diga-se: um trabalho gráfico e editorial quase artesanal, mas que resultou numa joia preciosa para estudantes, professores, escritores, bibliófilos e intelectuais de todas as áreas.

O escritor Kurt Pessek, autor de outros livros, foi membro atuante da Academia Brasiliense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal. Portanto, uma figura de proa na cidade idealizada por Juscelino Kubitschek, inventada por Lucio Costa e Niemeyer e erguida do chão, ao longo de 61 anos, por todos nós, brasileiros idealistas — “os construtores do belo belo”, verso do poema “Cantata para baixo profundo” do autor destas linhas.

Como propala, em alta voz, o editor Victor Alegria, “em mais de 100 anos de independência do Brasil, muitos dicionários, organizados por brasileiros, têm surgido no panorama nacional, mas nenhum que se compare ao trabalho de Kurt Pessek, produzido, editado e lançado em Brasília, uma cidade jovem cuja riqueza intelectual ainda é tesouro escondido”.

Kurt Pessek: pesquisador | Foto: Reprodução

Não raro, a cidade mostra a “intelligentsia” de grande número de pessoas que para cá vieram e aqui plantaram suas raízes, nos mais variados segmentos da educação, da arte e da cultura. Muitas dessas pessoas, algumas já esquecidas no anonimato, vez por outra surgem de repente como vulcões avassaladores, pelo pensamento ousado, pelas ideias arrojadas e pela tenacidade de seu trabalho criativo. Temos vários exemplos desses lampejos de genialidade pelos quatro cantos da cidade. (Só não vê e não sabe quem não quer.) É o caso de Kurt Pessek, um homem que, por injunção de uma fala de sua progenitora, dedicou quarenta anos de sua vida a colher no jardim das diversidades linguísticas e na seara da lexicografia os frutos das palavras que, por não serem usadas pelo sistema de ensino, poderiam ser lançadas também na vala comum do anonimato, e perdidas para sempre de nosso alcance. Felizmente este prognóstico morreu no nascedouro. O dicionário, agora disponível, está bem vivo entre nós.

E aqui fica também uma lição da importância de pais e mestres na vida das pessoas. É no lar e na escola que se plantam, na mente e no coração das crianças, as sementes dos desafios vindouros e os germes da inquietação criativa. Tudo o mais, nesses tempos difíceis, nasce e floresce no campo das informações midiáticas, na maioria das vezes viciosas e inúteis.

Conclamo todos ao mergulho neste oceano chamado “Dicionário de Palavras Interligadas — Analógico e Ideias Afins”, do saudoso amigo e confrade Kurt Pessek: sairemos mais leves e mais familiarizados com as naturais dificuldades de nossa língua, prontos para enfrentar melhor as turbulências da vida, tanto na fala quanto na escrita.

Dados biográficos de Kurt Pessek

Nasceu no Rio de Janeiro (RJ) em 7 de outubro de 1934. Oficial do Estado-Maior do Exército. Mudou-se para Brasília em 1975. Foi coordenador nacional do Mutirão Contra a Violência, do Ministério da Justiça, presidente do jornal “Última Hora de Brasília”. Foi colaborador em diversos periódicos e conquistou prêmios em concursos literários. Participou da antologia “Cronistas de Brasília Vol. 2”, de Aglaia Souza, em 1996. Era membro da Academia Brasiliense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal. Em 25 de janeiro de 2013, aos 78 anos, faleceu em Brasília, onde deixou esposa, filho e netos, além de uma legião de amigos.

Livros publicados

“Espada, Terço e Trabuco”, 1985

“Os Patriotas”, 1986

“Os Descaminhos da Liberdade”, 1989

“Dicionário de Palavras Interligadas — Analógico e Ideias Afins”, 2012.

João Carlos Taveira, poeta e crítico, reside em Brasília há 53 anos e possui diversos livros publicados. É colaborador do Jornal Opção.

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