A passagem dos dias perdidos

Em “Eufrates”, o goiano André de Leones desconstrói a estrutura formal do romance para acompanhar uma série de personagens que avançam e recuam no tempo, transitando por diversas cidades em busca de um sentido para suas vidas

Leones escreve com maturidade e rigor, articulando com tensão essa contextura multifária | Foto: Divulgação

Sérgio Tavares*
Especial para o Jornal Opção

De uma forma ou de outra, os personagens de “Eufrates”, novo romance do goiano André de Leones, lidam com despedidas. Pode ser o término de um relacionamento ou as últimas horas que se passam com alguém antes de uma tragédia. Todos são atraídos por essa força de fratura que conduz para uma ideia de finitude, que não necessariamente representa a morte. Soa como algo que comprime o suficiente para causar um tipo de desatamento, um vácuo decorrente de um sentido subjetivo de amputação.

Ao que se refere ao protagonismo, a trama é constituída a partir de fragmentos da vida dos amigos Moshe e Jonas. Momentos que se aproximam e se distanciam, cruzam-se e transcorrem em paralelo, cobrindo os anos de 1999 a 2013. Porém não só o tempo é movediço. Os acontecimentos se dão num circuito de cidades que engloba de São Paulo a Buenos Aires, do Rio de Janeiro a Belém do Pará, de Brasília a Jerusalém. Embora contido em seus centros dramáticos, o enredo tem dimensão continental.

O livro tem início com Moshe, no aeroporto, despedindo-se de sua mãe, Nili, e de seu padrasto, Avi, que voltam para Israel depois de uma breve estada no apartamento do filho em São Paulo. Passa-se o ano de 2001, meses depois do ataque do 11 de setembro. A visita é, de fato, um reencontro (ou, analisando de maneira mais profunda, uma reconciliação). Anos antes, Nili repentinamente se desligou da maternidade e do casamento, e foi para Israel se aventurar num novo amor.

O contraditório é que Moshe não desenvolveu qualquer rancor da mãe, mas ódio do pai, Miguel, que lidou com o divórcio tornando-se um alcoólatra intratável. A situação chegou a um ponto insustentável de Moshe se ver sem saída, senão telefonar para o tio e despachar seu pai para Belém do Pará. Desde então, não se falam.

Moshe, assim, atravessa os dias da forma mais ordinária. Dando aula num curso de inglês, bebendo, namorando Iara. Sem perspectiva de mudança, sem ânimo para tal.

Numa outra linha narrativa, Jonas está sozinho em Buenos Aires, desencontrado de Manoela, sua namorada. Desde que se conheceram, há cinco anos, em Brasília, Manoela se mudou para São Paulo, Rio de Janeiro e Buenos Aires, levando Jonas a reboque. É um momento de introspecção, de avaliar sua condição diante dos constantes afastamentos, mas também a morte recente do pai, a separação das irmãs e o basta desse vampirismo afetivo. Mas segue sem perspectiva de mudança, sem ânimo para tal.

A despeito dos conflitos e das particularidades de suas vidas pregressas (que serão explorados com detalhismo), ambos os personagens partilham de uma mesma letargia, um tipo incômodo de incapacidade de encarar seus medos, de decifrar afetos e de tomar decisões. De fato, ainda que estruturado em fragmentos, o romance encontra sua unidade na maneira com que o elenco secundário se relaciona e se move para longe dos protagonistas, conquistando (mesmo que mínima, mesmo que trágica) uma possibilidade de reconstrução. Neste caso, as digressões são essenciais, pois vão confeccionando ligações que a trama central é incapaz de realizar.

Velhas e novas obsessões
É também por meio dessas digressões que os atores da trama são apresentados, entrando, saindo e voltando à cena, ou simplesmente entrando e sendo esquecidos. Não se trata de uma narrativa de convergência. Alguns arcos até se fecham; no entanto, a intenção do autor é levar o leitor a acompanhar as andanças desses personagens, que transitam meio ao esmo pelo espaço instituído pelas circunstâncias de atos (muitas vezes) involuntários, como se fossem adeptos a um deus da casualidade.

“Talvez não expliquem nada e deixem a coisa no ar”, comenta, a certa altura, uma personagem sobre um filme, funcionando também como uma chave de metalinguagem. Amam, brigam, reatam, falam amenidades, travam reflexões existenciais, vivem absurdos, fogem, morrem, acontecem; simplesmente acontecem.

A partir desse “puzzle” que não se completa (ou que não foi feito para se completar), Leones persegue velhas e novas obsessões. Temas vistos em seus livros anteriores, como o suicídio, o desarranjo familiar (sobretudo na relação pai e filho), o sexo usado como curativo e/ou válvula de escape, o efeito alheador e repressivo da religião. Aliás, formalmente o livro tem uma arquitetura muito semelhante a “Terra de Casas Vazias”, lançado em 2013.

Por outro lado, o simbolismo vinculado a esses dramas humanos aparece como uma forma de contemplar a realidade de seu tempo, referenciando essa entidade coletiva de modo sutil, quase subjacente (o futebol, o cinema, a literatura) e de forma ampla, nas rédeas de fatos convocados para direcionar os caminhos da ficção. É assim quando margeia o atentado de 11 de setembro, o Bug do Milênio e as manifestações ocorridas em junho de 2013. Essa, em especial, tem um significado elementar, executando um paralelo entre a falta de aspiração e a incerteza dos personagens e o protesto de um Brasil que não sabia direito contra quem ou o que arremetia seus gritos.

A fabulação se derrama sobre o real não para deformá-lo ou amortecê-lo, e sim para criar uma réplica exata das cidades por onde passa, aproveitando dos nomes das ruas, das construções, de suas belezas e de seus assombros. Leones escreve com maturidade e rigor, articulando com tensão essa contextura multifária; aplicando uma linguagem marcada pela aridez e um caráter um tanto desolador, embora carregada de um ostensivo vigor imagético, a exemplo do trecho em que Moshe observa o deserto, em Israel.

Livro: Eufrates
Autor: André de Leones
Editora: José Olympio
Páginas: 392
Preço: R$ 57,90
Avaliação: Bom
Foto: Reprodução/José Olympio

À noite, em seu quarto de hotel, viu o deserto assim que se deitou na cama e fechou os olhos. O deserto, pensou, eu não sei, mas tenho a impressão de que ele cresce com a noite. Poderia muito bem desaparecer ali, cortar todos os laços, adeus, Iara, adeus, Miguel, adeus, Jonas, e viver anônimo naquela cidade à beira do deserto, indo todos os anos ao norte visitar o túmulo da mãe, talvez se casar com a garçonete, um estrangeiro diminuiria seu enfado, ao menos por um tempo, não? Não.

Provável que não. Também pensou nela antes de dormir. Na pele empoeirada, nos cabelos castanho-claros, quantos anos terá? Dezessete, no máximo. As pernas longas e firmes, como não seriam?, o dia inteiro em pé, caminhando de um lado para o outro, servindo mesas. Pensou nela adentrando o quarto, acendendo a luz do abajur, depois puxando uma cadeira e se sentando. Os cabelos engordurados, a roupa meio suja, a expressão cansada de quem trabalhou o dia todo, mas o sorriso singelo.”

“Eufrates” é feito o rio que lhe empresta o nome, sinuoso, multívago, lançando-se de uma margem a outra para mover seus fragmentos, seixos que se deslocam, separam-se, dispersam-se, adquirem novas configurações, navegam sem antever seus destinos. Não há destinos; tudo em volta é água, tudo em volta é deserto. O que importa é a travessia.

*Sérgio Tavares é escritor e crítico literário

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