“A palavra é meu sacerdócio, ela protege e transforma o ser humano”

Poeta católico, Adalberto de Queiroz lança sua terceira obra, “Destino Palavra”, que conta da viagem, da vida e da morte da humanidade. Confira a entrevista

“Os livros de poesia (e não só eles) são como viagens, umas com roteiro certo, como as dos homens de negócio e as dos turistas, e outras sem rota determinada, como as dos aventureiros”

Alberto da Cunha Melo

Com posfácio de Francisco Perna Filho, o livro é a terceira obra solo do poeta goiano Adalberto de Queiroz, que fez carreira como jornalista e empresário | Foto: Divulgação

Com posfácio de Francisco Perna Filho, o livro é a terceira obra solo do poeta goiano Adalberto de Queiroz, que fez carreira como jornalista e empresário | Foto: Divulgação

Yago Rodrigues Alvim

Shakespeare, Richard Cra­shaw, Louis Lavelle, Ivan Junqueira, J. Ortega Y Gasset, Antônio José de Moura, Jorge de Lima e outros se juntam a Alberto da Cunha Melo, cujas palavras desancoram os poemas de Adalberto de Queiroz. São diversos os versos em intituladas estrofes os que compõem “Destino Palavra”, a terceira obra do poeta goiano, que fez carreira nas letras de jornais e como empresário.

Pelo telefone, numa voz de terça-feira de chuva fina na janela, Adalberto foi contando assim miúdo de sua história poética, de suas viagens e do que é feita a obra. Numa das indagações, feito fresta de sol entre nuvens acinzentadas clareou, então, a palavra. Ela, que, num paralelo com a literatura de viagem, é a chegada, o “destino” — como ele mesmo escreve. Afinal, a palavra protege e transforma, sublima o homem. Faz dele mais e mais.

Conte-nos um pouco mais de sua história e da obra, “Destino Palavra”.

Este é meu terceiro livro individual. Além de ter participado de algumas antologias, uma em São Paulo, “Veia Poética”, e outra em Porto Alegre, “Qorpo Insano” e mais a que lancei no último ano, em Goiânia, “Literatura Goyaz”, escrevi “Frágil Armação” e “Cadernos de Sizenando” são os primeiros.

Na nota do editor, eu conto um pouco do trabalho, que é uma busca em minha poesia por novos rumos. Eu nunca parei de escrever; só parei de publicar. E, recentemente, muito me prendi ao poeta pernambucano Alberto da Cunha Melo. Ele tem me ensinado que temos que nos botar em xeque. E, a todo tempo, eu tenho feito isso.

Praticamente por toda a obra, eu trabalhei com um material de memória. Eu rescrevi poemas antigos ou retrabalhei temas antigos e até alguns novos. A viagem é uma constante em minha vida. Apanhei esta ideia do livro como viagem, da poesia como uma viagem muito especial, e a segui. Por 30 anos, eu viajei como executivo, diretor de empresa; e, hoje, eu viajo como aventureiro, mas como um aventureiro que não sabe seu destino, que não sabe aonde ir. E, ainda assim e mais por isso, como aquele que traça seu destino. O livro foi trabalhado nesta dinâmica.

Quando com 40 poemas, eu submeti a então obra a duas pessoas — a quem agradeço imensamente, Ercília Macedo-Eckel e Francisco Perna Filho. Eles contribuíram muito, a ponto até de eu retirar alguns poemas. Eles me fizeram compreender que eu estava no rumo certo e que tinham certas sujeirinhas que precisavam sair. E outra: um dos poemas virou uma folha enorme A3, que nem está no livro, e que será entregue a algumas pessoas no lançamento.

O Francisco me ajudou a enxergar um caminho: eu, que não sou um poeta católico, sou um homem velho, conservador e católico. Sou apenas um católico que escreve poesias, que faz disso um sacerdócio. Depois que me aposentei, em 2014, eu escrevo poemas diariamente. Muito mudou, ali. Naquele ano, passei por uma guinada em minha vida. Redescobri que a minha vida é escrever e isso foi a coisa mais centrada que decidi seguir.

O livro traz a temática da viagem; o título mesmo remete a esta literatura (de viagem), onde o personagem empreita uma aventura e que, por fim, se vê transformado. Existe uma sublimação. A palavra transforma o ser humano?

Muito lindo o que colocou, eu mesmo assino embaixo. Até me lembro de um autor que escreveu uma obra, quando se viu condenado à prisão domiciliar. Xavier de Maistre, seu nome, diz disso na obra, a intitulada, “Viagem ao redor do meu quarto”; é um personagem que consegue viajar através da palavra.

A palavra muda sim, muda um menino órfão de Anápolis que sempre pegou livros na biblioteca. Um deles marcou a minha juventude. Com ele, eu me resguardei de muitas violências contra mim. De Francisco Marins, “O bugre do chapéu de anta” é uma coisa linda. Seu personagem viaja para o interior de Goiás e o que o destaca é o bugre do chapéu de anta. Isto, que hoje se chama “bullying”, na minha época era simplesmente agressão. Eu deixei de levar muita porrada por conta desse livro. Muitos, no recreio, só queriam bater em magrinhos como fui. A palavra nos protege. Ele é para mim um sacerdócio e salvação.

Dentre outros temas do livro, qual outro mais se sobressai?

Eu estou muito preocupado com a dor, a morte. Esta nossa falência humana, social. Há um poema sobre a dor, que diz de navios e que não é bem sobre isso, descobre-se ali a morte. Eu tenho, também, uma busca mística. Tenho dois poetas santos, com os quais falo todos os dias. Santa Teresa d’Ávila e São João da Cruz, patrono dos poetas e autor de “A Noite Escura” (entre outros), são dois grandes amigos. Eles me inspiram todo o tempo. Estão cada vez mais presentes e conscientes. E foi isto que quis, escrever um livro mais consciente.

Eu começo no passado, na minha infância e vou percorrendo um caminho, que vai até à segunda parte da obra; e elas, as partes, falam disso, de que a palavra é capaz de mudar aquele que escreve e aquele que lê — que lê de verdade, que se aprofunda. “Eu devorei tal livro”, diz da fome da palavra — olha só, isso é lindo!

Leia “Oh, Navios à barra atados!”, presente na obra “Destino Palavra”, de Adalberto de Queiroz

Oh, navios à barra atados
que nesta quadra cativos
eu fui de vosso cansaço
o vigia e o leal soldado —
Vendo-os, aí atracados…

Sua calma presença
À minh’alma amansa;
Em vós, enfim, descansam
Quase todas minhas penas.

És da minha janela
única a paisagem
que pássaro alado
ambiciona tê-la —
neste mar à vista
desde o beiral usado
perdoai-me o canto
triste ora entoado…

Navios, à barra esquecidos,
impossível o cenário equóreo
no cerrado onde eu vivo —
daí, o cambiar de cenário.

Eis-me à janela debruçado
a admirar-vos, deitar ferros
no jade imenso; ancorado
também o bardo aborrecido
exausto do mundo alhures…
Fundear a alma deseja
quem à janela gruda a face
sobre os rios que vêm e vão
ou sobre a porosidade marinha.

Eis-nos, naves: o espaço e o corrosivo
da memória, na clave fundante.

Passageiros que somos, ó naves
imbicadas no jade; nosso destino:
igualzinho ao de folhas do cedro
ou do baobá — finitas e desejosas,
se atracadas, de o espaço singrar.

 

O lançamento do livro será realizado na terça-feira, 18 de outubro, na União Brasileira de Escritores (UBE), seção Goiás, a partir das 19h. A UBE se localiza na Rua 21, ao Liceu de Goiânia.

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Adalberto De Queiroz

Obrigado, Yago Rodrigues Alvim. Gostei muito do que vi transcrito. A sua generosidade em olhar e ver coisas escondidas em nossa conversa tão amigável: Sim, a palavra que quero por Destino: “Faz dele [e permita-me o Nós] mais e mais”. Abraço fraterno, grande entrevistador M. Rodrigues Alvim.

Nelson L Castro

“Palavra” é a mais singela e mais séria das palavras. O meu pensamento estará lá, no dia 18, junto com Beto Queiroz, acompanhado de toda a minha admiração e respeito.

Adalberto De Queiroz

Obrigado, Nelsinho, Nelson L Castro – o homem, amigo, the OilMan que inspira o poema da pág. 55/6 – Balada ao homem do mar.
Pedidos de livros autografados via Livraria Caminhos: http://www.livrariacaminhos.com.br/pd-3a3ccf-adalberto-de-queiroz-destino-palavra.html?ct=&p=1&s=1

Adalberto De Queiroz

Obrigado, Nelson L. Castro.