A mulher se abre e se mostra do fundo de sua alma em “Agulhas”

O cotidiano da mulher no Brasil, com seus medos reais, é o tema da peça de teatro digital, que tem a atriz Katiuska Azambuja no palco. Ingressos são gratuitos

Gerson Neto*
Especial para o Jornal Opção

O espetáculo Agulhas, contemplado e financiada pela Lei Aldir Blanc, edital MT Nascentes, é uma ação da Abiyay Solo Multiarte, e parte de oficinas de criação inspiradas nas experiências do Teatro do Oprimido para criar um texto original sobre o Universo Feminino a partir das experiências reais de sua atriz, Katiuska Azambuja.

Katiuska é uma mulher de rosto marcante, energia contagiante e experiências de vida duras e marcantes, que ela abre de forma explícita nesse espetáculo, incomodando e divertindo a quem assiste.

A atriz Katiuska Azambuja, no espetáculo teatral online “Agulhas”| Foto: Reprodução

A experiência de teatro pela plataforma Zoom, intercalando cenas gravadas com atuação viva, já é conhecida por quem acompanha os laboratórios de teatro em época de pandemia. Essas experimentações quase sempre remetem os artistas a sentimentos nostálgicos pela falta do palco e da boca de cena, com a plateia ao redor e suas reações.

Katiuska atua sem demonstrar essa nostalgia. Sua atuação se dirige em especial para as mulheres na audiência, de quem busca cumplicidade sobre temas instigantes como menstruação, machismo e violência. Além do tema da mulher, aparecem também intertextos sobre a questão racial e política.

O tema da libertação feminina é uma das prioridades da pauta pública dos nossos dias. Quanto mais ele é escondido pelos governos e pelas instituições, mais ele insiste em aparecer e gritar no cotidiano, sejam nas mulheres que denunciam abusos, assédios e pressões, sejam em fatos correlatos a outros episódios onde a realidade sempre explicita a recorrência da mulher fragilizada e estigmatizada.

Em nenhuma cidade do Brasil, uma mulher pode atravessar a rua à noite para ir a uma loja comprar uma coisa qualquer, seja um pacote de fraldas, seja uma garrafa de água, sem correr o risco de ser assediada pelo primeiro homem que encontrar. Não há mulher que não sinta medo ao encontrar qualquer homem desconhecido em uma rua escura, que não fique torcendo para que outra mulher surja de qualquer lugar que seja. Além disso, tudo ainda tem outras sutilezas que a mim, como homem ignorante que sou, certamente me escapam.

São desses temas que trata Agulhas, o espetáculo cuiabano que Katiuska Azambuja e a SP Escola de Teatro Digital trazem para o público. A experiência de oficina do Teatro do Oprimido tem a característica de ter um texto vivo, que pode mudar muito de uma encenação para outra, marcando uma evolução do espetáculo à medida que ele vai se desenvolvendo e a partir do diálogo com o público presente, sempre corriqueiro ao final das apresentações. Tudo isso é apresentado nesse espetáculo, que recomendo a todos e todas que vejam, de coração aberto e olhos atentos.

O espetáculo segue em cartaz em todo mês de julho. Os ingressos são gratuitos e podem ser retirados pela plataforma Sympla.

* Gerson Neto é jornalista, cineasta e articulista do portal Outras Palavras.

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