A literatura-punch de Tiago Ferro

“O Pai da Menina Morta”, este curto romance inclassificável lançado pela editora Todavia, já pode constar facilmente na lista de melhores livros de 2018

Tiago Ferro usou a escrita para lidar com o luto: “Eu sempre serei O Pai da Menina Morta” | Foto: Reprodução

Ricardo Silva
Especial para o Jornal Opção

A morte de uma criança é um tremendo chacoalho que a vida pode dar em alguém. É a interrupção cruel da potência de vida daquele ser humano que dela quase não descobriu nada. A vida curta que se encerra ainda no início soa como uma tremenda injustiça, um desarranjo da existência, um desequilíbrio da natureza, uma fissura no universo. Como um raio de largo alcance, esse tipo de acontecimento atinge a sensibilidade de todos. O baque imensurável, porém, está destinado àqueles que receberam essa infante vida sob a responsabilidade de pais.

O que fazer com essa perda? É possível administrar essa dor? Como se recuperar? Existe recuperação? Como lidar com tudo que vem depois? O luto, a ausência, os outros, a insistência da continuidade da engrenagem do mundo. Como?

Tiago Ferro até 2016 não sabia — talvez ainda não saiba — como responder essas perguntas. Essa experiência, da perda de uma filha, não estava nem nas mais distantes perspectivas da vida dele. Porém, um diagnóstico equivocado de uma gripe, evoluída para uma miocardite, que matou a pequena Manu, sua filha de 8 anos, colocou o editor e escritor na cruel e inevitável posição de ter que encontrar essas respostas.

O caso da perda de Ferro foi um caso público. Foi possível acompanhar através das redes sociais toda a comoção gerada pelo acontecimento e tenebroso desfecho. Para lidar com isso, Tiago apelou para a escrita e deu início a uma investigação literária da ausência que resultou no seu primeiro romance, “O pai da menina morta”, que foi lançado este ano pela editora Todavia.

O livro de Ferro, ao contrário do que a introdução desta resenha possa dar a entender, não é um processo de autoficção. O inominado narrador do livro pode ser entendido como um catalisador universal do sentimento de luto que acomete um pai que perde sua filha.
A estrutura do romance reúne diversas formas de escrita, que vão do relato diarístico, obituário, listas, fragmentos aparentemente desconexos, trechos de conversas em redes sociais, receitas culinárias, e-mails, todos dispostos de forma fragmentária, caótica, apoteótica e insana. Esses gêneros diversos de escrita formatam essa anatomia do sofrimento que o Pai tenta expurgar durante sua narrativa.

Contudo, não existe saída para o luto. Ele vai ser a nova presença da vida. Não vai sumir, não vai desaparecer e se transformar em outra coisa. A ausência vai ser uma presença constante a partir de então. “Eu não quero ser O Pai da Menina Morta. Eu sempre serei O Pai da Menina Morta”, escreve o narrador ainda nas primeiras páginas do romance. Não há do que escapar, é preciso lidar com o vazio, de que “nós também somos feitos de espaços em branco”.

A vida continua. Dolorosa­mente, penosamente, perdida e atordoada, mas continua. É preciso voltar a sentir algo, mesmo no olho do furacão de amortecimento que a morte provoca. Fazer sexo, compras, aulas de ioga, flertar com a professora de ioga, eventos sociais e encarar os olhares que veem sempre naquela figura a imagem d’O Pai da Menina Morta. Não há como se descolar dela. O romance de Ferro é esse lembrete que por vezes, no ápice da dor da perda, nos esquecemos de que “um dia essa tristeza vai virar outra coisa. Uma coisa sem nome. Uma coisa”.

Mas não há consolo. A vida, como constantemente a narrativa do Pai da Menina Morta relembra ao leitor, ela continua, por vezes impassível, e aquele que perde também deve continuar. O que não significa que esse processo vai ser facilitado só porque você é alguém em luto. “Você se fodeu”, ouve o Pai da Menina Morta dos amigos mais próximos.

Tiago Ferro entrega as entranhas na sua estreia na literatura. Ao fazer uma varredura afetiva sobre a perda da sua filha, esse narrador habilmente construído pelo escritor nos destroça. Todas as pouco mais de 160 páginas de “O Pai da Menina Morta” são um soco na boca do estômago. É a literatura-punch de Ferro. O leitor também sai das suas páginas meio perdido, sem saber muito como lidar com toda aquela carga pesada que se defrontou no correr da leitura. Não tem alívio, é um jab no queixo atrás do outro a cada página virada.

Potente na forma, poderoso no conteúdo, o caótico e devastador romance que mescla referências que vão da cultura pop até o cenário político nacional, enquanto desenha as finas linhas da suspensão da temporalidade do luto, “O Pai da Menina Morta”, este curto romance inclassificável, já pode constar facilmente na lista de melhores livros de 2018. É um tour de force tremendo. Além de também apontar a promissora veia ficcional de seu estreante autor. É mais um bom escritor na praça.

O Pai da Menina Morta
Autor: Thiago Ferro
Editora: Todavia
Preço: R$ 44,90

Trecho

Nessa hora o Pai da Menina Morta ainda era apenas o Cara de Vinte e Poucos Anos. É uma memória que ele irá reconstruir ininterruptamente pelo resto da vida. Would you know my name? Quanto tempo o menino ficou na beirada da janela? Com qual mão ele abriu o vidro? O vento bagunçou os cabelos finos e loiros? Quanto tempo de queda livre? Ele perdeu o fôlego? Sentiu dor? Medo? Pensou no pai? O Clapton só encontra a paz no sono. Jamais nos sonhos. Sempre o mesmo pesadelo: ele sai do banho e o filho desapareceu, ele o procura por toda a casa e quando acorda leva três segundos para se lembrar que o garoto havia morrido. Memória-Dor. Estamos todos muito cansados. Julica prezadíssima. No Rio de Janeiro, Carlos está morrendo sem saber. A dor vai durar exatos doze dias. O Pai do Paulo de Tharso vai invejá-lo. Seria melhor se fossem apenas doze horas. Doze minutos. O amor deveria garantir que as duas partes desaparecessem juntas, ou no máximo em um intervalo de doze segundos. Sua filha sempre dizia que ele havia se salvado. A máquina do mundo, o retrato de família, como alguém pode se salvar? A filha do Carlos morreu no hospital assim como o jovem messias de Praga, o Pai do Paulo de Tharso encontrou o filho morto na sala de casa, o Gil retirou o filho dos escombros do acidente, o Pai da Menina Morta carregou a filha até o hospital, o Clapton não viu nada. Hermann Kafka interrompe por alguns minutos a leitura da carta e se recorda, entre aflito e satisfeito, do barão de Münchausen erguendo a si próprio pelos cabelos para escapar de um afogamento. Tolice! Meu filho me odiou.

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