A imortalidade da escritora Lygia de Moura Rassi

A autora poetizou a vida e seus emaranhados; o amor e seus contrastes; o sonho e suas vertentes; o homem diante das perdas e achados

Lêda Selma      

                                      Especial para o Jornal Opção                                              

No prelúdio da madrugada, um toque-advento./ Fraterno presente de minha estrela. — Lygia de Moura Rassi

Lygia Rassi: escritora | Foto: Reprodução

Em 12 de agosto de 1933, a vida personificou-se na linda criança Lygia. Carioca de nascença, goiana de vivência. Goianidade adquirida em 1951, quando acompanhou seu pai, o renomado dr. Pedro Moura, a Goiânia. Convidado por um jovem idealista, seu ex-aluno, proferiria palestra durante um Congresso Médico, na Associação Médica de Goiás, fundada por Luiz Rassi, o jovem ex-aluno e, também, idealizador do Congresso.

No cimo de seus 18 anos, estampados em uma beleza clássica, que a todos encantava, a meiguice carismática da bela carioca seduziu o coração daquele cubano de ascendência libanesa, o já goianizado médico Luiz Rassi. E o destino, muito atento, tratou logo de construir, com esmero, a trilha para o percurso de uma invulgar história de amor ou, mais que isso, uma comovente história de vida.

Dois anos após aquele encontro, e já no exercício da primavera, 19 de dezembro, o casamento, dois dias antes de Lygia terminar o curso Clássico. Goiânia ainda adolescia e a bela moça chegou, de vez, para integrar uma das mais tradicionais famílias goianienses, a família Rassi. E assim, enraizada às tradições e costumes libaneses, por seu devotado e intenso desejo, afirmava: “Sinto-me tão próxima quanto atraída e me pergunto, às vezes: já não fiz parte dessa nobre gente em outras épocas!? Por que assumi, com tanto ardor, as origens de meu marido? Pode até ser, e não duvido, que, em um passado qualquer, próximo ou distante, também tenha eu pertencido àquele povo e àquela raça! Quem sabe… maktub”. Isso me lembra a personagem bíblica, Rute, cujo amor à família de seu marido era uma de suas devoções; tanto que, certa vez, assim se expressou: “O teu povo será o meu povo, e o teu Deus será o meu Deus. A terra em que tu morreres, nessa morrerei: e ali terei o meu sepulcro”.

Sinto-me instigada a revisitar lembranças de tempo idos, narradas por Lygia. E, ao fazê-lo, confirmo que o destino, desde 1924, já preparava a urdidura dos fios de sua teia. Naquela época, a família de Abrão Rassi (a mulher Mariana, e os seis filhos, dentre eles, Luiz) mudou-se de Unión de Reyes, província de Matanzas, em Cuba, para o Brasil ou, mais precisamente, para Goiás, e a primeira cidade a acolhê-la, Anápolis.

Em 1942, mudaram-se para Goiânia, assentando pouso em Campinas. Luiz Rassi, aos 20 anos, parte para o Rio de Janeiro, terra de Lygia, no afã de perseguir um sonho, acalentado desde a adolescência: tornar-se médico. Em 1947, a formatura. Aquela semente de sonho, finalmente florescia, após anos de cultivo na Faculdade Nacional de Medicina, da Praia Vermelha. E os aplausos do mestre, o doutor Pedro Moura, seu futuro sogro, já o sabia o destino, serviram-lhe de incentivo a novos caminhares. O destino, realmente, havia aberto o caminho para que Lygia e Luiz se encontrassem, se encantassem e se amassem por todo o sempre, desde aquele 1951… E é a própria Lygia, toda amorosa, quem diz: “Ascendo/ ao sabor lunar//Sugo a Láctea via-crúcis/soluço carmas// Desencontros-desencantos/da última ceia// Renascendo/ à luz solar// Deleto nuvens/de meus noturnos// No prelúdio da madrugada/um toque-advento// Fraterno presente/de minha estrela. Para Luiz, meu amado de sempre!”

Lygia Rassi e Lêda Selma | Foto: Arquivo pessoal

Todo este preâmbulo, nada mais que um desejo indomável de realçar a importância da mulher que foi mais que esposa, mais que mãe, mais que poetisa, mais que musicista, mais que atuante na cultura, na filantropia… Foi, sobretudo, uma pessoa espiritualizada, iluminada e especial em toda a pujança do verdadeiro ser, da legítima condição de ser humano. E, mais uma vez, é Lygia quem afirma: “De tempos em tempos/ medito/ nos tempos de minha vida/ de ontem/ de hoje/ de amanhã.// Tempos repartidos/ concedidos /igualmente/ das mãos do Criador.// De amor me repartem./ De amor”.

Poetizou a vida     

A obra literária de Lygia de Moura Rassi proclamou sua imortalidade. O ingresso na literatura aconteceu em 1978, com o livro “A Prosódia — Suas Conotações Histórico-Didáticas”, e Maria Luísa de Mattos Priolli apresentou-o como “Uma obra sobre ‘prosódia musical’, um livro grande no valor que encerra e que será útil, principalmente, aos estudiosos que se dedicam à difícil arte de associar, ou seja, de conjugar — fala e melodia, alcançando com propriedade a maravilhosa simbiose — a palavra cantada”.

Vozes do tempo, saudado poeticamente pelo acadêmico Ursulino Leão: “O uirapuru canta na madrugada das matas o seu canto raro. Lygia de Moura Rassi lança a sua poesia (também de singular encanto), aliada ao mundo dos sons que muitos criaram com apenas sete notas, tal qual o pássaro unindo-se às iniciais luzes do dia”. Depois: Encontros em cantos. Conheça sua cidade, denominada pela autora “uma publicação didática”. Todavia, sua mais marcante obra, “Dos Cedros às Palmeiras — Genealogia-História”, na verdade, é a mais terna declaração de amor à família que a acolheu. Fruto de extensa, minuciosa e densa pesquisa, por meio de estudos, viagens e depoimentos, o livro traduz o sentimento familiar de Lygia que, inspirada, confessa: “Oxalá ou inchallah (ou se Deus quiser), com o presente trabalho eu venha alcançar meu objetivo principal, que é o de esclarecer e, principalmente, reunir laços de consanguinidade dispersos em várias partes do mundo, para que se estendam e se estreitem em torno de um ideal comum”.

Também, imortalizou Lygia, sua obra social e humana. Mulher sensível, generosa, de aparência frágil, mas forte em suas ações e determinações, sempre se preocupou com o próximo. Poetizou a vida e seus emaranhados; o amor e seus contrastes; o sonho e suas vertentes; o homem diante das perdas e achados. Lygia dona de uma poesia em que a palavra expele sons musicais no ritmo de uma sonoridade incomum, mesmo se usada para apontar o sofrimento dos excluídos e desesperançados.

Essa, a Lygia, mulher especial, ser humano grandioso, intelectual de destaque.  Poetisa, ensaísta, contista, fundadora e diretora da Escola de Música de Goiânia, bacharelada em piano, com licenciatura plena em música pela UFG, sempre se orgulhou de ter sido aluna da excepcional Belkiss Spenzière. E sempre em busca de novos desafios, continuou seu aprimoramento musical nos Estados Unidos, na Harvard University, onde terminou os cursos de Especialização Teaching Creative e The How of Arts. Sua consciência acadêmica honrou a Cadeira Nº 11 da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás/Aflag. Em mandato “tampão”, Lygia presidiu-a por três meses.

Zoroastro não queria mulher na AGL

Acadêmica Maria do Rosário Cassimiro recepcionou, na Academia Goiana de Letras/AGL, a escritora e musicista Lygia de Moura Rassi, no dia 12 de agosto de 1993 (data em que completava 60 anos). Assim, a Cadeira nº 16, patroneada por Henrique José da Silva, abraçou a nova acadêmica. Disse a professora Maria Cassimiro em seu discurso: “A partir desta data, a cadeia dos eméritos representantes da intelectualidade goiana está enriquecida por mais um elo, cujos méritos nada deixam a desejar como genuína e autêntica intérprete de nossa sensibilidade e de nossa realidade cultural. Lygia de Moura Rassi se afirma para a imortalidade. A Academia Goiana de Letras recebe-a com orgulho. Seja bem-vinda ao seio desta agremiação à qual integrará doravante e para sempre”.

Lygia Rassi: uma pesquisadora de talento múltiplo | Foto: Reprodução

Por quase 12 anos, Lygia ocupou a Cadeira nº 16, ao suceder a folclorista e poetisa Regina Lacerda. Detalhe curioso: Zoroastro Artiaga, segundo ocupante da referida cadeira, opunha-se, ferrenhamente, ao ingresso de mulheres à AGL. Sequer admitia a discussão do assunto. Mas, por ironia dos deuses, a presença feminina inaugurou, justamente, sua Cadeira. E a primeira mulher a compor a confraria daquele Sodalício, a sucessora de Zoroastro, Regina Lacerda. E Lygia reforçou a ironia ao sucedê-la.

Muitos foram os prêmios recebidos por Lygia. Destaco: 1º Prêmio da Academia Petropolitana de Letras, Troféu Tiokô/ UBE-GO. Menções honrosas: UBE/RJ, Academia Carioca de Letras, Bolsa de Publicação Hugo de Carvalho Ramos e Bolsa José Décio Filho. A Academia Goiana de Letras/AGL instituiu o Troféu Goyazes – Lygia de Moura Rassi, proposto por mim, destinado à(ao) acadêmica(o) escolhida(o), pela Diretoria, para dar seu nome ao Ano Cultural Acadêmico (da AGL).

Um espinho no meio do caminho

Lygia, a musa do Dr. Luiz, a adotada da família Rassi, acadêmica de realce, minha irmã de alma, de poesia e de sonhos. Lygia de Moura Rassi, mulher abençoada, solidária, guerreira, de alma cristalina e emoção permanentemente ativada, sabia, como poucos, defender suas ideias e ideais, com ternura, mas também, com muita firmeza. Apaixonada pelo amor, pela vida, pela literatura, pela música, pela natureza, pelas rosas… Ah! permita-me, amiga, parodiar Drummond: No meio do destino, havia um espinho. Havia um silêncio no meio do espinho. No meio do silêncio havia um sopro de sonho. E a dor derradeira…

No sombrio 25 de maio de 2005, Lygia transmutou-se em pétalas de estrelas e iluminou, com tons poéticos, o sítio celestial onde habita a eternidade. E foi recebida, sob bênçãos, pelo Pai. Sei, a poetisa retribuiu o Divino carinho com belos poemas.

De um desses belos poemas, extraído do livro bilíngue “Silencios de Viento y Mar”, do qual somos coautoras (última obra de Lygia), colho seus versos — proféticos ou premonitórios? – e, com emoção, transformo-os em canto de minha própria tristeza: “Dói fundo/a cor do frio/em noite sem lua/e dia sem nome// Dói/a foice nos cedros/o tombo da ave// Um espinho sangrando/nossa flor// Dói/dói fundo/um corte no solo// Feridas/pranto// Súplicas de paz/em clima de guerra”. E foi uma rosa que sangrou essa flor, querida Lygia.

Lêda Selma é poetisa, contista, cronista, ex-presidenta da Academia Goiana de Letras/AGL. É colaboradora do Jornal Opção.

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