A história de uma tradição política de integração racial no Brasil e nos Estados Unidos

Debate sobre o assassinato do americano George Floyd pode ser ampliado a partir do entendimento de como funciona a sociedade de classes

George Floyd: assassinado numa rua dos Estados Unidos por um policial | Foto: Reprodução

Júlio Cattai
Especial para o Jornal Opção

No último 1º de junho, após uma semana de protestos espalhados por todo território dos Estados Unidos, com as ruas transformadas em palco de confrontos dignos de guerra, o “New York Times” trouxe uma reportagem intitulada “Como Minneapolis, uma das mais liberais cidades dos EUA, luta contra o racismo”. Como guia do texto, lê-se em destaque: “A cidade do Centro-Oeste, que tem sido palco de protestos, acolheu o multiculturalismo. Mas também luta com a segregação e as lacunas raciais na educação”. A matéria é já uma tentativa de balanço dos protestos que eclodiram após a divulgação de um vídeo em que um homem negro, George Floyd, de 46 anos, aparece imobilizado contra o chão por três policiais que já lhe haviam atado braços, mãos e pernas.

Ouve-se Floyd suplicar para que um dos policiais, Derek Chauvin, tire o joelho de seu pescoço, pois o estava asfixiando. Floyd veio a morrer pouco depois. Não é necessário grande esforço para que o leitor conecte, em algum nível, o que se passou com Floyd e o que quase diariamente se noticia nas periferias do Brasil: o desaparecimento de tantos Amarildos, os milhares de disparos acidentais contra Evaldos, Rodrigos, Hélios e que não poupam as crianças, de Agathas a Joãos.

Wanderson Chaves: coautor do livro “Guerra Fria e Brasil — Para a Agenda de Integração do Negro na Sociedade de Classe” | Foto: Divulgação

A matéria do “NY Times” tenta compreender por que o padrão histórico de violência policial contra os negros repete-se na cidade que abraçou o multiculturalismo. Por que não deram certo as tentativas das democracias ocidentais, desde os anos 1960-1970, em reconhecer os direitos de minorias: o incremento da participação política, da equidade de oportunidades econômicas e da aceitação social? Creio que o observador mais atento aos acontecimentos do último quartel de século pode notar um avanço, no Brasil inclusive, do reconhecimento de toda sorte de desigualdade racial e das tentativas de inclusão dos negros em espaços de representação política e cultural, particularmente por meio de legislações na área educacional. Mas, então, voltamos: por que isso não deu certo? A matéria do Times caminha para explicar a persistência da segregação racial em decorrência de um processo incompleto de inclusão, de uma lacuna nas políticas educacionais que não puderam minorar a desigualdade de oportunidades dos negros em relação aos brancos. Do texto, subentende-se que nesta moderna sociedade da livre competição há lugar, sob o sol iluminado do capitalismo global, para todas e todos, independentemente da cor da pele, bastando um ajuste institucional, um melhor equilíbrio de oportunidades.

Elizabeth Cancelli: coautora do livro “Guerra Fria e Brasil — Para a Agenda de Integração do Negro na Sociedade de Classe” | Foto: Divulgação

Essa abordagem encontra-se naturalizada, por quase toda parte, nas reflexões sobre a persistência da segregação e do racismo não apenas nos Estados Unidos, mas também no Brasil. No entanto, tal naturalização não é efeito de um simples acidente ou do acaso no percurso das democracias ocidentais. No bojo dessa interpretação, encontra-se a defesa de que o profundo processo de modernização industrial e urbana, atravessado, no século passado, pelas sociedades ocidentais, levaria ao fim da segregação racial. Dito de outro modo, o preconceito, no Brasil, seria reflexo da persistência de elementos “arcaicos” em meio ao desenvolvimento econômico e à modernização do país, e somente o aprofundamento desse desenvolvimento — ou a inserção dos negros na sociedade de classes — levaria ao fim do racismo. Assim, desde que, no longínquo 1954, o escritor norte-americano William Faulkner desembarcou em São Paulo e, questionado sobre a segregação em seu país, afirmou que o próprio sistema democrático capitalista seria capaz de solucionar o problema, é que, a todo novo episódio envolvendo preconceito racial, o campo político, tal como respondera o autor de “O Som e a Fúria e “Absalão, Absalão!”, reflui para a compreensão de que, afinal, ainda não se chegou lá, ainda é preciso fazer uma transição de um “arcaísmo” persistente para esse futuro idílico, da plena harmonia e do fim de conflitos. De forma que as tradições e as instituições das sociedades ocidentais, em particular tendo os Estados Unidos como horizonte de realização política, já preveriam um seu aprimoramento paulatino e longe de rupturas.

Excluir discussão sobre classes é uma ideia fora do lugar

Todavia, um olhar mais atento revela que nessa interpretação se escamoteia uma tradição muito bem articulada de pensamento social, uma que se constituiu a partir das relações intelectuais, de um programa comum de pesquisas entre cientistas sociais do Brasil, da Europa e dos Estados Unidos e que teve na Fundação Ford seu grande animador. É esse o olhar que “Guerra Fria e Brasil — Para a Agenda de Integração do Negro na Sociedade de Classes” oferece a seus leitores.

Publicado no final de 2019 pela Editora Alameda (272 páginas), esse livro conciso e de grande alcance conta a história de como o problema da integração racial foi, desde os anos 1930-1940 e mais particularmente durante a Guerra Fria, transformado em um dos focos centrais das disputas entre Estados Unidos e União Soviética e de seus modelos de modernização nacional para países “subdesenvolvidos”, como o Brasil. A agenda de pesquisa que se organizou a partir das Nações Unidas e de todo aparato de política externa do governo dos Estados Unidos, com papel destacado das fundações filantrópicas do país, era, então, uma forma de produzir — a partir daqueles que seriam os mais bem acabados métodos e abordagens teóricas das Ciências Sociais — diagnósticos e prospectos para a ação institucional de governo quanto à integração racial. Uma programação modernizante que, todavia, deveria ser conformada aos parâmetros da ordem liberal.

Gustavo Mesquisa: doutor em História pela USP | Foto: Facebook

O livro é a consolidação decisiva de um percurso. É o resultado de mais de uma década de pesquisa e reflexão sobre a “questão racial” dos historiadores Elizabeth Cancelli, Gustavo Mesquita e Wanderson Chaves.

As descobertas e apontamentos apresentados no texto têm a força de pôr por terra o referido estatuto hegemônico pelo qual — tal como faz pensar a pergunta do “NY Times” — a solução do “problema racial” só pode ser politicamente imaginada no aprofundamento da sociedade de classes e de sua livre competição.

O título já é revelador de seu objeto: retoma o clássico (que fez escola no Brasil e fora dele) do sociólogo Florestan Fernandes (1920-1995) “A Integração do Negro na Sociedade de Classes (republicado, em dois volumes, pela Editora Globo), de 1964. Na esteira de “Um Dilema Americano — O Problema do Negro e a Democracia Moderna”, livro de 1944, comissionado pela Fundação Carnegie, do sociólogo sueco Gunnar Myrdal, e da modernização das Ciências Sociais no Brasil, a partir da Escola Paulista de Sociologia, o trabalho de Florestan Fernandes simboliza essa aposta no aprofundamento da sociedade de classes como solução para o problema do preconceito racial, aceitando, em nome dela, uma transição que insiste, a toda nova asfixia de um corpo negro, em disciplinar a imaginação política nos quadros da livre competição. De “arcaísmo”, de “insuficiência” e do “despreparo” para o “moderno”. Política que, há quase 80 e 60 anos, respectivamente, daquelas publicações, permanece como um arranjo, um concerto das elites intelectuais e políticas do Brasil e dos Estados Unidos no tratamento para a “questão negra”.

Ao terminar as páginas de “Guerra Fria e Brasil — Para a Agenda de Integração do Negro na Sociedade de Classes”, esse livro nascido para cabeceiras, que se lê e relê, e que permite tantas entradas e discussões, o leitor poderá olhar de fora os caminhos persistentemente reiterados de nossa vida pública; e, assim, conhecendo os lugares de onde fala essa tradição, quem sabe, poderá imaginar e propor uma superação de modelos acerca das possibilidades de realização efetiva e plural de direitos sociais, civis e humanos.

Júlio Cattai é doutor em história pela Universidade de São Paulo (USP). Autor do livro “Guerra Fria e Propaganda — A U.S. Information Agency no Brasil: 1953-1964” (Appris, 2019), é responsável pela coordenação do Núcleo de Pesquisa e Extensão e, na condição de editor-chefe, pela “Revista Diálogos Acadêmicos”, do Instituto de Educação e Ensino Superior de Campinas (Iescamp).

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