A história de Goia, o cantor que brilhou em São Paulo, mas decidiu voltar para Goiás
07 março 2026 às 21h00

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O historiador Sérgio Buarque de Holanda disse, certa feita, que havia se tornado “o pai do Chico”. Sim, o autor de “Raízes do Brasil”, um dos livros mais importantes do país, se tornou pai do compositor, cantor e escritor Chico Buarque, autor da célebre música “Construção”. Goiandir Lopes de Brito, o Goia, brilhou na música nacional — cantou em festivais, que prefere nominar de concursos — e poderia ter se consagrado. Mas acabou deixando São Paulo e voltou rápido para Goiás. Até hoje canta e sua voz, apesar dos 87 anos, permanece afinada.
Funcionário aposentado do Tribunal de Contas do Estado, e torcedor do time do Goiás, Goia tem história. Cantou, por exemplo, com Maysa e Leny Eversong, entre outros. Maestros ficaram impressionados com sua afinação. Ele foi estrela ao lado de Zé Passos, Luiz Peres e Waldir Lomazze nos trios Xangô, Yucatan e Voca Vocal. Os trios tiveram formações diferentes.
Há quem diga que Goiandir é o “pai de Cláudia Vieira”. De fato. E ele não se importa — pelo contrário, tem orgulho — que se refiram a ele como “pai da Cláudia Vieira”.
Formada em Psicologia, Cláudia Vieira é uma grande cantora. Uma cantora de grande versatilidade. Canta bem do jazz à música popular brasileira. É tão afinada quanto Goia. O talento “corre” no sangue da família.

Quando descobriu que tinha dom para cantar?
Quando tinha 16, ou 17 anos, fui à uma festa, na Fama [bairro de Goiânia], e Zé Passos estava tocando. Peguei um pandeiro, comecei a tocar e a cantar. Ele me disse: “Você gosta de cantar?”. Eu disse: “Gosto”. Mas nunca tinha cantado em público — só em casa, baixinho.
No chuveiro?
Só no chuveiro. Apreciava ouvir rádio e assistia shows de Luiz Gonzaga.
Gonzagão cantou em Goiânia?
Sim. Ficamos amigos e ele assistiu um jogo comigo, no Estádio Olímpico. Eu era fã dele. Cheguei a cantar com ele no Teatro Goiânia. Um amigo, o Cuiabano, professor da Escola Técnica, era conterrâneo do cantor de “Asa Branca”. Ele disse: “Goia, o Luiz Gonzaga vai almoçar lá em casa hoje”.
O sr. foi correndo?
Cuiabano, que era dono de uma madeireira, me disse: “Quero levar Luiz Gonzaga para assistir um jogo. Então, você vai levá-lo”. Peguei o carro e fui buscá-lo. O cantor nordestino disse: “Ô, coisa boa”. Fomos para o Estádio Olímpico. Eu fazia parte do Tribunal de Justiça Desportiva da Federação Goiana de Futebol.

O jogo aconteceu em qual ano?
Não me lembro. Acho que foi na década de 1960. Não quiserem deixar o Luizão [Gonzaga] entrar porque estava vestido com uma camiseta sem mangas. Cuiabano emprestou uma calça — Gonzaga estava de bermuda — e eu uma camisa. Eu estava com uma camiseta do time do Goiás, pelo qual torço, e com outra camisa. Retirei a camisa e dei para o cantor. Entramos e fomos para a tribuna.
O que o sr. cantava?
Bolero, samba-canção, samba. Zé Passos disse para mim: “Quero ensaiar com você. Porque acho que, com sua voz, dará para cantar comigo”.
A parceria deu certo?
Ensaiamos muito, na cada do Zé Passos, e começamos a fazer muitas serenatas. Fizemos serenata inclusive para a namorada do acadêmico de Medicina Iliam. Eu cantava músicas românticas. Na época, eu era jogador do time do Goiás.
O nascimento do Trio Xangô
Quando o sr. percebeu que poderia se tornar cantor?
Quando Zé dos Passos, o Zé Maracanã, disse que eu tinha talento.
Quando decidiram montar o trio?
Por volta de 1955 ou 1958. Waldir, goleiro do Goiás, tocava bandolim e cantava. O pessoal disse: “Vamos fazer um quinteto”. Apareceu muita gente, mas a maioria desistiu, porque não é nada fácil vocal. Sobraram eu, Waldir e Zé Passos. Por isso decidimos fazer um trio vocal.

Assim nasceu o Trio Xangô, seu primeiro nome?
Sim, o Trio Xangô nasceu assim e fazia programa na Rádio Clube de Goiânia. Na abertura do programa, a gente cantava: “Xangô, meu pai, me ajude, por favor. Tá cantando Neguinho de dor, mas não é de folia, é de dor” (Goiandir canta, com voz afiada e precisa).
Como era o programa na Rádio Clube de Goiânia?
Fazíamos um programa, com Cunha Júnior, na rádio, que ficava na Rua 2, no Centro de Goiânia. A rádio era pequena. Nosso programa ir ao ar no domingo, ao meio-dia. Ficavámos 45 minutos no ar. O rádio tinha, na época, mais força do que a televisão. Por isso passamos a ser muito ouvidos e conhecidos.
O Trio Xangô ficou famoso?
Nós ficamos famosos. Um dia, minha mulher entrou numa butique de luxo, da sra. Eusy, e fiquei esperando na porta. Ficava nas proximidades do Hotel Presidente. Eusy me viu e disse: “Você na minha loja!”. Ela quase estendeu um tapete vermelho para nós. “Ouço vocês na rádio”, contou. Chamou uma funcionária e disse: “Este canta mesmo”. Fiquei meio sem graça.
Como é a história da rumbeira Liste?
A rumbeira era assessora de um deputado, na Assembleia Legislativa de Goiás. Ela nos perguntou: “Querem fazer um show comigo?” Montamos um espetáculo, com a gente cantando e ela dançando rumba.
Fizeram sucesso?
Sim, fizemos sucesso. Usávamos até roupas mexicanas. Fizemos shows com a rumbeira no interior de Goiás. Fizemos um show numa quermesse de Brasília, numa barraquinha da Igreja Católica. Na época só tinha o Núcleo Bandeirantes, a cidade estava no começo. O rapaz de uma churrascaria nos convidou para dar um show. Nem teve cachê. Três pessoas da Rádio Nacional perguntaram se queríamos fazer um show com elas. Fomos. Waldir saiu do trio e nós continuamos a cantar na capital do país. A mulher dele não queria que continuasse cantando.
Quem substituiu o Waldir?
José Eivar. Aí começamos a fazer programa na TV Nacional, em Brasília. Era patrocinado pelo Hotel Nacional. O Programa Meira Filho, apresentado no sábado, era parecido com o do Silvio Santos. Começava às 14 horas.
Só em Brasília?
Só em Brasília. Num show que demos com Cauby Peixoto, Chico Ludovico anunciou que a TV Anhanguera iria ao ar. O trio foi criando nome.
Trio cantou com Leny Eversong e Maysa

O trio cantou com a cantora Leny Eversong (1920-1984)?
Viajamos e cantamos com Leny Eversong, uma cantora famosa, para dar um show em Patos de Minas. Arthur Rezende [ex-colunista de “O Popular”] deu uma nota. Arthur Rezende nos apresentava na Rádio Clube. Continuamos cantando na Rádio Nacional.
Ainda era o Trio Xangô?
Era. Depois, passou a ser Trio Yucatan. O trio ficou mais conhecido. A TV Anhanguera foi ao ar e nós fizemos um programa com patrocínio de Getúlio Varanda, nas terças-feiras. Tínhamos grande audiência em Goiânia e em Brasília. Eivar ficou uma temporada e decidiu sair do grupo. Entrou o Luiz Peres [que participou da entrevista ao Jornal Opção]. Era um rapazinho e agora está com 87 anos. Nós fizemos show com a cantora Maysa (1936-1977).

Vocês cantaram com a Leny Eversong, Maysa, Cauby Peixoto, Ângela Maria, Oswaldo Montenegro e Clara Nunes. Qual mais impressionou os membros do trio?
Principalmente a Ângela Maria (1929-2018), a Sapoti, que tinha um vozeirão. Maysa era fora de série. Linda, magrinha e olhos azuis ou esverdeados, ela gostava de nós. Já tinha um violonista, o Paulo Tito. O mestre cuca do Hotel Nacional fazia pratos especiais e era um sucesso não só em Brasília, mas também no Rio de Janeiro. Cauby Peixoto já vinha para Brasília pensando nos pratos.
Consta que vocês apareciam com maquiagem pesada.
A maquiagem era uma base para evitar suar na TV. Para retirá-la, de tão pesada, era preciso de uma navalha.
As roupas também eram bem elegantes?
Sim, as roupas eram caprichadas, de bom gosto. Temos até fotos do show com Oswaldo Montenegro.
Quem escolhia o figurino?
Era eu. Nós fizemos um show no Rio de Janeiro, na Quinta da Boa Vista. Nós fomos representar o Estado de Goiás. E cantávamos também no Palácio das Esmeraldas, em Goiânia.
Como foram para o Rio de Janeiro?
O trio foi para o Rio, a pedido do governador Mauro Borges, para representar Goiás na Feira da Providência. O patrocínio era da embaixada americana. A vida no Grande Hotel era de rei. Estavam conosco o cineasta João Bennio, o padre Rui Rodrigues [secretário da Educação], o desembargador Paranaíba Piratininga Santana (presidente do Tribunal de Justiça) e a cantora Eli Camargo. Nós cantamos e a recepção foi uma coisa de doido.
Os shows aconteciam onde?
Na Quinta da Boa Vista. O público chegava a 5 mil. Hoje parece pouco, mas na época — início da década de 1960 — não era. Cantamos boleros e interpretamos uma música de um compositor goiano, o Zé Portilho [faleceu em 2025], que também fazia programa na TV Nacional. Era a música “Viajando de lotação”. Fez sucesso, pois os cariocas adoram uma farra. Vou cantar um pedacinho: “Um passinho atrás é que se ouve no lotação/ que confusão, que confusão/ o chofer a xingar/o cobrador a xingar/ só se dá palavrão/ Um passinho atrás é o que se ouve no lotação/ muita gente sentada/ Muita gente de pé com o braço estirado/ O CC ia sair e a gente ia ficar quase que desmaiado/ Se você for brigar/ Não precisa pensar/ Que vai levar paulada/ O pior é levar no nariz como o meu/ Uma suvacada/ Cada vez é pior que pancada/ Menina, é pior que paulada”.
O sr. conviveu com o Zé Portilho?
Muito. Era bacana. O trio convivia com o Zé Portilho, que trabalhava no DNER em Goiânia. Ele, que fazia programa com a gente na TV, às vezes dava carona para nós. Cantava bem demais, de samba a bossa nova. A voz era bonita e, como a de Lúcio Alves, era baixinha, nada possante. Aparecia gente com várias músicas. Cantamos uma música de Bariani Ortencio, “Ponta Negra”, junto com Lindomar Castilho.
O sr. tocava Tantan: o que significa?
É tipo o atabaque. Na nossa época, era tantan. Aprendi a tocar sozinho. Mas costumo dizer que não aprendi a tocar. Eu sei mesmo é cantar.
A “banana” de Mauro Borges para seus cassadores
O trio fazia shows nos jardins ou dentro do Palácio das Esmeraldas?
No Palácio das Esmeraldas, nos jardins, fazíamos shows às quintas-feiras de todo fim de mês. O governador Mauro Borges mandava buscar os cantores em suas casas. Reunia todo o secretariado para nos ouvir. As pessoas adoravam.
Por que Mauro Borges reunia o secretariado?
Por certo, queria agradá-lo. Mauro gostava demais de nós. Éramos amigos.

Como o sr. reagiu quando Mauro Borges foi cassado?
Mauro só foi cassado em novembro de 1964. Eu estava no palácio quando foi cassado e chegou o interventor. Eu estava lá porque trabalhava — era auditor assistente — no Tribunal de Contas do Estado. Minha mulher Juranice Vieira de Brito estava grávida da Cláudia [a cantora Cláudia Vieira]. Encontrei-me então com o jornalista Marcelo — que tinha um vozeirão bonito e foi parar na BBC de Londres — e o Sérgio. Marcelo disse: “Seu governador vai cair hoje. Uns canhões estão chegando”. E acrescentou: “O sr. aqui!?” Eu o havia conhecido em Brasília.
O repórter Marcelo estava no Palácio?
Não. Nosso encontro ocorreu na Praça Cívica. Marcelo era da revista “Manchete” e da “Gazeta”. Ele estava chegando para fazer uma reportagem. Vi aviões das Forças Armadas sobrevoando o Palácio das Esmeraldas. Os voos rasantes assustaram as pessoas. Mauro saiu na sacada e deu uma banana para os militares. Mas não foi preso.
O que aconteceu?
Mauro Borges deixou o Palácio das Esmeraldas quando chegou o interventor Carlos de Meira Mattos, que era coronel. Um amigo deu um tapa no pé do ouvido de um militar, cujo quepe caiu. Meu amigo foi preso. O Rui Carneiro disse: “Não sei como mandar a reportagem”. Na época era precisa levar despachar o material do aeroporto. De lá iria para São Paulo e Rio de Janeiro. Quando passamos pela estação ferroviária, ele disse: “Vamos filmar e pôr o título da matéria assim: ‘Fim de linha para o governo de Mauro Borges’”.
A reportagem já estava pronta?
Ele estava numa Rural e o motorista saiu em alta velocidade para chegar ao aeroporto em tempo hábil. O automóvel chegou a sair da pista e eu gritei: “Preciso ver meu filho nascer”. Eles disseram: “Você vai ficar famoso”. O repórter escreveu a reportagem no aeroporto e a despachou. “Nossa reportagem sairá primeiro do que a dos demais jornais”, disse.
Como tudo terminou?
Felizmente, terminou bem. Levei os dois para minha casa, que ficava na Vila Nova. Servi pinga para Marcelo e Rui Carneiro. Tomaram pinga e comeram tomate como tira-gosto. Minha mulher Juranice Vieira de Brito estava grávida da Cláudia [Vieira]. O Marcelo pegou um pedaço de carvão e escreveu na parede: “Seu filho será homem. Vai pôr meu nome como homenagem”. Aí nasceu a Cláudia, que quase se chamou Marcela.
Sucesso como cantor em São Paulo
Em 1962, o sr. participou do concurso Voz de Ouro. Por que quis participar?
O Voz de Ouro ABC era organizado pela TV Record e era em nível nacional. O artista se inscrevia e todo sábado tinha a “peneira”. Fui eliminando a concorrência. Na final fui indicado para representar Goiás.
Conte como foi.
Fui para São Paulo. Eram 21 candidatos — um de cada Estado. Cantei “Se todos fossem iguais a você”. Havia um tenor, meu concorrente. Por isso pensei que não conseguiria superá-lo. Havia uma soprano. Três eram concorrentes fortes. Cheguei a falar: não vou cantar não, para não passar vergonha. Eu tinha de passar a música com um maestro, um alemão, com partituras para a orquestra. Fiquei intimidado. Eu não tinha dinheiro e só tinha gente se passando por importante. O maestro, sentado ao piano, perguntou qual era o tom. Eu havia levado escrito e disse “si bemol” para o maestro. Depois de conversarmos e de expor como eu ia cantar, num breve ensaio, ele disse: “Este é o cara”. A imprensa passou a me assediar. Até o jogador Djalma Santos foi me ver no hotel. Havia saído uma foto minha na coluna do Lourival Batista Pereira (eu era amigo dele e do Herbert Morais Ribeiro, o fundador do Jornal Opção. Ele era bonitão e inteligente).
O sr. era um sucesso?
A Voz de Ouro era organizada por Mário Fanucchi (1927-2022), da Reclam Publicidade. Ele me levou à agência, que ficava num andar inteiro, na Avenida Paulista. Tinha uma sala só de “criadores”. Uma goiana figurava entre os “pensadores”.
O que Mário Fanucchi queria o que com o sr.?
Ele disse que queria me empresariar. Eu disse: “Sim, depois do concurso”. Aí me disseram que tinha de ir ao Teatro Municipal para passar o som. Mário Fanucchi disse que eu, para entrar no teatro, tinha de usar smoking, e eu só tinha um terninho. Mário alugou um smoking para mim na Rua Augusta. Fiquei “cheio” e fui “passar” o som com o maestro Ciro Pereira — um sósia do presidente Jânio Quadros.
Como era a orquestra?
A orquestra tinha 45 músicos. As partituras estavam prontas. Havia um candidato que errava muito e o maestro, irritado, disse: “Eu não sou escravo. Sai”.
Como o maestro agiu com o sr.?
Eu disse ao maestro que nunca havia cantado com orquestra. Ele disse: “É meio chato cantar com orquestra. Mas o aconselho a seguir o piano e a esquecer o resto”. Ele fez a introdução, eu entrei e terminei. Repetimos e ele gostou. Tanto que me tratou bem. Lá do palco vi os cantores Maysa, que havia ido assistir os ensaios, e Roberto Luna (1929-2022). Os dois disseram para mim: “Ao cantar, abra os braços”. Aí disseram: “É o favorito!” Me deu um medo danado. Pensei: terei de ficar em São Paulo. Eu morava com minha mãe, que lavava fora para fora e eu ajudava no orçamento da casa. Eu trabalhava no Tribunal de Contas do Estado, era um emprego estável. No hotel, fiquei com medo. “Nossa sra. não deixa eu ganhar não”, pensei.
O sr. avaliava que podia ganhar?
Candidato a deputado federal, o apresentador Blota Jr. foi franco: “Vocês vão disputar o primeiro lugar, mas o Oslain Galvão (1944-1998) já está escolhido para o segundo lugar”. O segundo colocado gravava um “bolochão” (disco). O pessoal de Galvão era seu cabo eleitoral.
O que o sr. pensou quando ouviu a fala de Blota Jr.?
Mesmo não estando muito interessado, avaliei que tinha de ficar em primeiro lugar. A banca [o júri] era pesada: Chico Baiano, Ary Barroso, Vinicius de Moraes. O pessoal dizia: “O Góia [Goiandir] desafina”. O cego Chico Baiano, do Titulares do Ritmo, era fora de série e sua voz era considerada a mais afinada do Brasil.
O sr. foi bem no ensaio?
Quando terminei de cantar, o músico João Piraí me disse: “Outros passaram vergonha. Estou orgulhoso de você. O maestro há havia dito, num ensaio, que você era o cara”. Ele deve ter conversado com o maestro Ciro Pereira. O indivíduo era goiano de Ipameri. Era o primeiro sax da orquestra. Era um monstro para tocar.
O sr. estava indo muito bem, não é?
De fato. Até pensei que poderia ganhar. Estava bem ensaiado. Mas uma soprano de Belo Horizonte cantou “Serenata do Adeus” de maneira impecável. Outros cantaram. Também cantei.
Por que o sr. não ganhou?
A comissão disse que eu cometi um erro e fiquei em terceiro lugar. Teria saído da partitura. Na verdade, depois fiquei sabendo, não havia desafinado. A soprano venceu. O Mário disse: “Mesmo assim, vamos gravar um LP seu. Vinicius de Moraes gostou de você”. Iria gravar um disco com músicas de Vinicius de Moraes. “Se todos fossem iguais a você” tinha letra de Vinicius e música de Tom Jobim. À noite, me levaram para cantar num evento do Lions, num clube de São Paulo. Roberto Luna e Maysa estavam lá. Cantei e percebi que a maconha corria solta. Fiquei assustado.
O sr. voltou para o hotel?
Cantei, dei o show direitinho e voltei para o hotel. Mário Fanucchi me buscou, num Vemaguet, um carrão na época. “Vamos dar uma volta pela cidade para conversamos sobre o disco”. Me levou à Praça da República, em São Paulo. Ao chegar, cerca de 15 pessoas me cercaram e pediram autógrafo. Havia me tornado uma celebridade.
Decidiram então gravar o disco?
Eu e o maestro fomos ao apartamento do João Piraí, na Rua Augusta. Ele estava delirando — era alcóolatra. O maestro disse para que eu buscar um rabo de galo (cachaça com vermute) para o João Piraí. Ele tomou e acalmou-se. Me chamaram para beber e eu não quis. Também não fumei nenhum “brown”.
O sr. ficou assustado com os hábitos dos músicos?
Tanto que fui à agência da Vasp e comprei uma passagem para Goiânia. Mário Fanucchi enviou uma carta: “Não avisou a ninguém”. Concluí que minha vida em Goiânia era mais tranquila.
O sr. desistiu e fugiu quanto estava começando a ficar famoso e caindo no gosto do povo?
Sim. Minha fotografia — feita pelo repórter Paraguaçu — havia sido estampada no “Estadão”, jornal de São Paulo. Esqueci o exemplar do jornal no avião.
Concurso Talentos da Maturidade
Retomou a carreira com o trio?
Fiquei cantando com o trio e fazendo shows em Goiás. Aos 32 anos, estava no terceiro ano da Faculdade de Direito e continuava trabalhando no TCE. Eu e minha mulher começamos a mascatear roupas, que buscávamos em São Paulo e vendíamos em Goiânia. Um dia, no hotel, comecei a assistir o Canal 2, TV Bandeirantes, e vi que Mário Fanucchi era o diretor. Fui ao Alto Sumaré para visitá-lo e a secretária disse que estava ocupado. Estava gravando com a cantora Wanderléa. Foi logo me descartando, pois achou que eu queria cantar. “O seu repertório já não serve”, me disse. “Estou com a Wanderléa e vou fazer um show do Roberto Carlos no Canecão”.

Ficou um clima ruim?
Eu disse a ele: vim para abraçá-lo. Só isso. “Que coisa boa”, disse Mário Fanucchi. Roberto Carlos esteve em Goiânia e fui vê-lo no aeroporto, com o colunista social Arthur Rezende. Minha Cláudia, então com 5 anos, tirou uma foto com ele. Não era muito conhecido mas estava “estourando” com a música “Calhambeque”.
Qual é seu cantor preferido?
Gosto de vários. Aprecio muito Roberto Carlos. Gostava muito de Nelson Gonçalves e de Emílio Santiago. Gonzaguinha é um grande cantor. Gilberto Gil é muito bom.
Como foi sua participação no Prêmio Talentos da Maturidade, em 2005?
O gerente do Banco Real me falou sobre o Concurso Talentos da Maturidade. O prêmio era de 10 mil reais. Mandei uma fita cassete com a música “Canção da Manhã Feliz”, que era cantada pela Elisete Cardoso, com a qual convivi. Eram 1840 inscritos — com artistas do Brasil inteiro. Fiquei entre os cinco primeiros colocados. O júri era composto pelo maestro Thalma, pelo músico Derico (do programa do Jô Soares) e por uma cantora lírica do Teatro Municipal.
O trio continuava?
O trio tinha acabado. Me informaram: “O sr. foi classificado”. Eles gravariam disco com os cinco primeiros colocados. Fui receber o prêmio no Palácio das Artes em Belo Horizonte. Dos 10 mil reais acabei recebendo pouco mais de 7 mil e ganhei uma estatueta muito bonita. O maestro Thalma estava lá e, quando entrei, cantou a música “Luminosa Amanhã/pra que tanta luz” e me deu um abraço. Eu, ele e o diretor do Banco Real tiramos uma fotografia.
O “pai da cantora Cláudia Vieira”
O sr. é um grande admirador da cantora Cláudia Vieira?
Admiro a cantora Cláudia Vieira, porque tem uma voz muito bonita. É perfeccionista. Chega até a ser brava. E é uma artista inteligente. Entrou no curso de Psicologia com 16 anos e deu aulas na faculdade. Um dia ela me disse: “Pai, eu gosto mesmo é de cantar. Mas psicólogo não pode cantar”. Eu disse que cobria o salário dela na faculdade. Então, ela decidiu ser cantora profissional. Cláudia só não foi embora de Goiás porque não quis. Porque seu talento é imenso.

Quantos shows da Cláudia o sr. já assistiu?
Todos. A Cláudia é muito inteligente. Ela fez tubo bem. Apesar do talento incontestável, é muito modesta. Entrou num negócio de rádio, organizado por uma revista, e disse: “Estou em quinto lugar”. Os primeiros colocados eram Gilberto Gil, Caetano Veloso e Chico Buarque.
Cláudia Vieira gravou música de Chico Buarque?
Cláudia gravou música de Chico Buarque em inglês. Fez shows fora de Goiás, sempre com sucesso. Por exemplo, no Sesc de São Paulo e em Ipanema, na inauguração de uma biblioteca. Fez um sucesso imenso. O maestro Claúdio Vespar, da Globo, sugeriu que fosse para o Rio de Janeiro. Mas ela não quis sair de sua Ítaca.

O sr está com 87 anos. Tudo valeu a pena?
Valeu. Não me arrependo de nada. Vespar perguntou: “Você não se arrepende de não ter seguido a carreira musical no eixo Rio-São Paulo?” Eu disse: “Nem um minuto”. O Chico Chagas me disse: “Você é egoísta”. Porque cantei em roda de música com Elisete Cardoso, Evinha, Rafael Rabello, Sílvio César, João Nogueira, mas não quis seguir carreira nacional.
Como era sua relação com o cantor João Nogueira?
João Nogueira me chamou para cantar no Clube do Samba. Eu expliquei que estava me especializando em Direito Tributário e, por isso, não podia ir. Eu, minha mulher, Juranice, João Nogueira e sua mulher fomos a um parque. Lá no clube, Evinha puxou um “fogo” e disse que eu cantava igual ao Wando. Uma vez cantei “Emoções”, de Roberto Carlos, e um maestro elogiou muito.
O sr. não quis nem gravar?
O Bororó e o Chico Chagas disseram que era possível gravar, assim como João Nogueira, o pai do Diogo Nogueira. João disse: “Você vai gravar um dia”. Vai surgir muita gravação independente. Eu gravei o disco, mas João Nogueira, que morreu em 2000, não pôde ouvi-lo.
“Pedro Ludovico não fundou o time do Goiás”
O sr. foi jogador de futebol?
Sim, era meio-campo do Goiás.
O sr. permanece apaixonado por futebol?
Sim. Tanto que sou conselheiro do Goiás.
Qual é seu jogador preferido do time atual do Goiás?
O goleiro. Porque, para ser sincero, nem conheço direito o time do momento.
Mas sr. acompanha os jogos do Goiás?
Acompanho de perto. Participo de reuniões do Goiás. Fui do Conselho Fiscal por quase 10 anos.
O fundador do time do Goiás foi o governador Pedro Ludovico?
Não. Os fundadores foram Lino Barsi e Carlos Barsi, sentados na Avenida Paranaíba, debaixo de um poste de energia elétrica. O nome do time era Palestra Itália, como o Palmeiras, porque os criadores eram italianos. Depois, Carlos Barsi se tornou meu compadre.
Quando da fundação, o sr. era amigo dos Barsi?
Não. Porque eu era menino. O Goiás foi fundado em 1943 e eu nasci em 1938.
Por que as pessoas acreditam que Pedro Ludovico fundou o Goiás?
Porque, quando governador, Pedro Ludovico pediu para mudar o nome de Palestra Itália para Goiás. Na época, existia o Goiânia Esporte Clube. Foram pedir ajuda ao governador, que quis saber o nome do time. Responderam “Palestra Itália”. Ele perguntou: “Por que não colocam Goiás, o nome do Estado?” Então, decidiram mudar e ficou Goiás.
Aos 5 anos, o sr. já torcia para o Goiás?
Passei a torcer para Goiás quantia tinha entre 8 ou 10 anos. Assistia jogos com Edmo Pinheiro e Hailê Pinheiro [o mais importante presidente do Goiás, já falecido].
O sr. sabe o hino do Goiás?
Sei, alguma coisinha. (Risos). “Eu sou Goiás esporte clube. Eu sou Goiás, eu sou Goiás. E vou vibrar até o peito me doer. Eu sou Goiás, até morrer” (Goiandir canta com facilidade e fidelidade).
Quem é o autor do hino?
O publicitário Iberê Monteiro [já falecido], que foi dono da Rádio Terra. Iberê conseguiu que a música fosse feita por Paulo Sérgio Valle (da bossa nova), Tavito e Regininha.

