A história da publicação do primeiro livro de escritores goianos

Editar não é fácil, às vezes é preciso participar de concursos ou pagar do próprio bolso. Veja a experiência de Bernardo Élis, José J. Veiga, Valdivino Braz, Edival Lourenço e Ademir Luiz

Pintura de Almeida Jr.

Nada se compara a emoção da “primeira vez” na vida do ser humano. A primeira vez que um bebê é capaz de se sustentar sozinho e tatear o chão com seus primeiros passos. A primeira palavra da criança, ainda dificultosa, no instante da boca. O primeiro dia, quase sempre traumático, na escola. O primeiro beijo. A primeira vez que um corpo encontra o amor na pele de outro corpo. O luto quando descobrimos a morte, na primeira vez que vamos a um velório. As primeiras vezes eternizam-se na memória. Porque marcam o início de uma nova etapa na vida do homem.

A partir deste instante, atravessamos a linha — sem volta — da experiência. Nunca mais poderemos sentir a exata sensação da primeira vez. Na próxima, já teremos a ideia do que nos aguarda. Estaremos preparados. O cérebro antecipará uma emoção semelhante. É assim: nada se compara a primeira vez.

O ofício do escritor, por outro lado, corre em busca de explicar essas sensações do passado. Queremos rememorar. Precisamos reviver para explicar a nós mesmos os significados destas impressões tão avassaladoras em nossas vidas. Assim, o escritor segue, expondo suas feridas e compartilhando publicamente suas memórias por intermédio de metáforas, segredos escondidos por trás da ficção.

A escrita é uma ingrata profissão que se move às cegas, por paixão, e que só pode ser produzida em paz, sem perspectiva de vitória. O suor, as horas debruçadas sobre o processo mental desgastante, não garantem sucesso profissional, muito menos sucesso financeiro. Que dirão Charles Dickens e James Joyce, que saíam às ruas distribuindo quase de graça os exemplares de seus livros.

Que podemos imaginar do Brasil, então, que não encontra culturalmente a repercussão necessária para a promoção e difusão do produto literário? Num país onde a taxa de analfabetismo atinge ainda 11,5 milhões de pessoas, segundo a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), divulgada em maio do ano passado, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O escritor norte-americano Charles Bukowski demorou a ser reconhecido, tendo seu primeiro livro publicado apenas em 1955, aos 35 anos de idade. O estadunidense Henry Miller também sofreu para publicar seu hoje celebrado “Trópico de Câncer”. O livro foi aceito legalmente nos Estados Unidos 30 anos após ter sido escrito. Henry Miller, nessa época, já era um senhor de 69 anos. Em “Cartas a um Jovem poeta”, o poeta alemão (nascido em Praga) Rainer Maria Rilke confessa que não tinha dinheiro suficiente para comprar um exemplar de sua própria obra. A situação seria cômica se não fosse trágica.

Essa é a realidade do ofício de escrever. A emoção da primeira publicação se confunde com a falta de perspectiva para as próximas obras. A perpetuação do trabalho só pode ser explicada pela obsessão romântica do autor, que continua aos trancos e barrancos, “independentemente de”. O prosador Caio Fernando Abreu, em carta para Zézim (José Márcio Penido), afirma que a única recompensa da escrita é “aquilo que [o psiquiatra Ronald David] Laing diz que pode nos salvar da loucura, do suicídio, da auto-anulação: um sentimento de glória interior”, quando o escritor coloca um ponto final no texto e pode respirar aliviado com o nascimento de sua obra. Pois o primeiro livro pode ser comparado ao nascimento de um filho. A gestação, muitas vezes, leva mais de nove meses. O parto, quase sempre problemático, arranca lágrimas de dor e felicidade.

O Jornal Opção selecionou uma série de escritores goianos para contarem a saga da publicação de suas primeiras obras. Os mortos encontram reverberação na lista a partir da história. Os vivos falam por si mesmos, a partir de aspas.

Bernardo Élis: autor de “Ermos e Gerais”, publicado antes de Guimarães Rosa | Foto: Reprodução

Bernardo Élis

“Ermos e Gerais”. Contos. Goiânia: Bolsa de Publicações de Goiânia, 1944.

O célebre escritor traçou suas primeiras linhas aos 12 anos, inspirado em “Assombramento”, de Afonso Arinos. Em 1934, se dedicou a composição de poesias, enviando colaborações de cunho modernista para os jornais de Goiânia. No Rio de Janeiro, Bernardo Élis (1915-1997) tentou a carreira literária, mas, devido à falta de interesse das editoras por seus originais, voltou a Goiânia, fundando a revista “Oeste”. Sua primeira publicação se deu por meio de uma Bolsa de Publicações de Goiânia, que ganhou em 1944. O livro de contos recebeu comentários elogiosos da crítica literária.

Os escritores Monteiro Lobato e Guimarães Rosa e o crítico Antonio Candido apontaram o autor goiano de Corumbá como um grande escritor. Mais tarde, escreveu o romance “O Tronco” e se tornou integrante da Academia Brasileira de Letras.

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José J. Veiga

“Os Cavalinhos de Platiplanto”. Contos. Goiânia: 1959.

José J. Veiga (1915-1999) fez sua estreia na literatura relativamente tarde. Aos 45 anos, o escritor publicou o livro de contos “Os Cavalinhos de Platiplanto”. Logo em seu lançamento, o livro chamou a atenção da crítica, vencendo o Prêmio Fábio Prado, um dos mais disputados na década de 50. Além disso, a obra recebeu elogios valiosos de M. Cavalcanti Proença, Wilson Martins, Adonias Filho, Hélio Pólvora, Walmir Ayala, Antônio Olinto e Roberto Pontual. “Entre Irmãos”, penúltima narrativa do livro de doze contos, foi incluído pelo crítico Ítalo Moriconi na coletânea “Os 100 Melhores Contos Brasileiros do Século”, lançada pela Editora Objetiva no ano 2000.

Além de uma fortuna crítica crescente (com Silviano Santiago na linha de frente; o poeta Luiz Aquino publicou um pequena mas qualitativa biografia do autor), uma das provas da vitalidade da literatura de José J. Veiga (que parecia não apreciar o Jacinto entre José e Veiga) é que sua obra está sendo republicada pela Companhia das Letras, uma das mais importantes editoras do país.

Carmo Bernardes: autor de um grande romance, “Jurubatuba” | Foto: Reprodução

Carmo Bernardes

“Vida Mundo”. Contos. Goiânia: Livraria Brasil Central Editora; Imprensa da Universidade Federal de Goiás, 1966.

Apesar de ter nascido em Patos de Minas, o escritor Carmo Bernardes (1915-1996) mudou-se com a família para a cidade de Formosa, interior de Goiás, quando tinha 6 anos de idade. Em Anápolis, trabalhou como pedreiro e pintor. Em Goiânia, onde permaneceu até o fim da vida, teve experiência como redator e cronista de jornal.

Nas palavras do jornalista e escritor Hélverton Baiano, foi em solo goiano que o escritor se tornou um mestre da literatura regionalista. “Para mim, é um Guimarães Rosa desvalorizado, meio esquecido.” Poucos escritores (e até botânicos) sabiam tanto sobre o meio ambiente quanto Carmo Bernardes. Era uma referência quando o assunto era flora e fauna.

Nas palavras do próprio escritor, sua obra foi toda construída a partir da experiência com a região. “Minha literatura é toda baseada naquelas coisas que vivi, que vi, que eu enxerguei, que comi, antes dos 30 anos”, disse em entrevista publicada em 2000.

Sobre o processo de publicação de seu primeiro livro e as repercussões a respeito de “Vida Mundo”, há pouco material de pesquisa disponível. O que se se sabe é que, tendo sido o escritor um pouco de tudo, carpinteiro, boiadeiro, carreiro, pedreiro, dentista prático, funcionário público e até vendedor de túmulos, pode-se especular sobre as dificuldades do escritor para iniciar sua vida literária. Sabe-se que o livro foi dedicado à sua mãe, Ana Carolina da Costa, porque “foi ela que me ensinou a falar como falo”, escreveu na dedicatória da obra.

O romance mais conhecido de Carmo Bernardes é “Jurubatuba” — um clássico da literatura goiana.

Miguel Jorge é autor de “Veias e Vinhos” e “Avarmas” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Miguel Jorge

“Antes do Túnel”. Livro de Contos. Goiânia: Editora da UFG, 1967.

O romancista, contista, dramaturgo poeta e crítico de arte Miguel Jorge nasceu em Corumbá, Mato Grosso. Mas é considerado como autor goiano, pois instalou-se em Goiânia há décadas em em Goiás firmou seu múltiplo talento literário. Ele participou da criação do Grupo de Escritores Novos (GEN), que contribuiu, por assim dizer, para a “modernização” da literatura brasileira escrita em Goiás. “O caminho de publicação do primeiro livro nunca é fácil, mas eu tive sorte. Eu estava confiante e seguro de que queria seguir a carreira de escritor. Entrei em contato com a editora e o livro logo foi publicado. Recebi boas críticas, o que validou e consolidou meu estilo, o surrealismo. O primeiro livro é sempre uma experiência, uma chama que queima, para ver o depois.”

Os livros são mais comentados de Miguel Jorge são o best seller “Veias e Vinhos” (baseado numa história real) e “Avarmas” (um texto experimental, altamente inventivo).

Miguel Jorge também é crítico de arte e foi editor do Opção Cultural, que, sob sua gestão, ganhou prêmio da Academia Brasileira de Letras (ABL) tanto pela qualidade do material publicado quanto pela qualidade do texto em si. Ele é um dos mais produtivos escritores de Goiás — tanto em termos de qualidade quanto de quantidade. Seu trabalho é estudado no exterior, por exemplo na Itália.

Heleno Godoy (à direita) é autor de prosa e poesia inventivas

Heleno Godoy 

“Os Veículos”. Poesia. Goiânia: Práxis, 1968

“Estávamos no governo Otávio Laje [década de 1960]. O Departamento de Cultura da Secretaria de Educação e Cultura era dirigido pelo jornalista Domiciano de Faria (foi diretor de Jornalismo do Grupo Jaime Câmara). Ele foi o grande responsável por facilitar a publicação de inúmeros livros de escritores goianos, inclusive o meu. Eu fiquei satisfeito com a oportunidade, mas isso não facilitou minha vida. A publicação do primeiro livro não significa muita coisa para os próximos, só para quem faz fama em alguma editora grande do país. Goiás, infelizmente, não tem esse poder de promoção de escritores. Achar que, a partir daí, fica mais fácil é um erro. A responsabilidade aumenta.”

Heleno Godoy é autor de uma poesia e de uma prosa modernista — experimental — e, ao mesmo tempo, um crítico literário agudo (também deu aulas no curso de Letras da Universidade Federal de Goiás). Ele é doutor em literatura pela Universidade de São Paulo (a dissertação de mestrado foi apresentada nos Estados Unidos) e especialista em autores de Língua Inglesa, notadamente em autores irlandeses. É um dos artífices do Grupo de Escritores Novos (sua história como “orientador” cultural de uma geração de criadores literários ainda está por ser contada).

Nas reuniões dos GEN, escritores discutiam a literatura moderna, como a prosa de James Joyce e Guimarães Rosa e a poesia de Eliot, Pound, João Cabral de Melo Neto, Mário Chamie, brothers Campos (a poesia práxis, de Chamie, era “adversária” do concretismo), para citar apenas alguns, e contribuíram para criar uma literatura local modernista e refinada (não no sentido de pomposa, e sim de inventiva, de criar novas linguagens).

Há ecos da prosa de Joyce (quiçá Beckett) na literatura de Heleno Godoy (como no romance “As Lesmas”, por sinal elogiado por Bernardo Élis), mas, claro, apresenta sua própria contribuição — não se trata de simulacro. Heleno Godoy assimilou bem o modernismo e pode chamá-lo de “seu”, no sentido de que tem um lugar entre os modernistas, não como epígono, e sim como criador, um par dos grandes, como Guimarães Rosa e João Cabral de Melo Neto.

Um dos críticos mais perspicazes da poesia de Heleno Godoy é o crítico Luiz Costa Lima.

Maria José Silveira é autora de vários romances

Maria José Silveira

“A Mãe da Mãe da Sua Mãe e Suas Filhas”. Romance. Rio de Janeiro, Globo, 2002.

“Minha trajetória foi diferente. Eu sou fundadora da editora Marco Zero, que tem sede no Rio de Janeiro e São Paulo. Lembro que a [Editora] Record hesitou um pouco sobre a publicação, mas a Globo aceitou logo no princípio. O meu trabalho facilitou o contato com as editoras. Tive sorte. Com o livro eu ganhei o Prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) na categoria ‘Revelação’. Desde então, a obra já teve quatro edições, foi publicada nos EUA, na Itália, vai ser publicada agora na França. No Brasil vai sair uma nova edição com capítulo extra em maio.”

Maria José Silveira nasceu em Goiânia, morou no Peru, onde fez pós-graduação em antropologia, e mora em São Paulo. Um de seus romances mais conhecidos é “Guerra no Coração do Cerrado” (publicado pela Editora Record), no qual ficcionaliza a vida da índia Damiana da Cunha, que, criada por brancos, atuou como intermediária em atritos entre indígenas e portugueses. É autora de um livro sobre a escritora e militante comunista Pagu (Patrícia Galvão). Também escreve literatura infantil.

Maria José Silveira escreve muito bem — sua forma literária é precisa — e sua prosa é movida por uma paixão posicionada pelo mundo, por pessoas, digamos assim, extraordinárias (o que não é equivalente a famosas). Não faz, porém, história, e sim literatura.

Yêda Schmaltz: poeta notável à espera de uma descoberta nacional | Foto: Reprodução

Yêda Schmaltz

“Caminhos de Mim”. Poesia. Goiânia: Escola Técnica de Goiás, 1964.

Nascida em Tigipió, no sertão pernambucano, Yêda Schmaltz (1941-2003) veio ainda criança para Goiás, onde adotou o Estado em seu coração. De Ipameri para Inhumas e de Inhumas para Goiânia, aqui a poeta se consagrou e viveu, até o fim de sua vida.

Na orelha de “Rayon” (1997) — um de seus últimos livros —, a poeta declara: “Eu não sou poeta não, este lirismo todo é só reclamação. Goiana sou: é só observar o não repetido na frase anterior”.

O seu primeiro livro nasceu de maneira singela, numa edição modesta, feita nas oficinas gráficas da antiga Escola Técnica Federal de Goiás. O ano da publicação não poderia ser mais emblemático: 1964. Ano do golpe militar, que encerrou o governo do presidente João Goulart, dando início à ditadura militar, que duraria 21 anos.

Yêda Schmaltz, poeta sofisticada, conhecia a tradição poética e inclusive as teorias. Era uma poeta tão poderosa que, quando escrevia, parecia tão “natural” — tão inspirada — que os “andaimes” de sua criação artística raramente são visíveis. Sua poesia era altamente trabalhada, de uma finura rara e inescapável. Como Miguel Jorge e Heleno Godoy, participou do Grupo de Escritores Novos (GEN). Sua poesia era modernista, altamente técnica, mas sem perder um lirismo tão atento quanto, por vezes, irônico.

Ao lado de Maria Lúcia Felix, poeta de rara finura e de linguagem de precisão cirúrgica, Yêda Schmaltz merece ser incluída entre as maiores poetas do Brasil. Merece ter sua poesia reeditada por editoras do calibre da Iluminuras, da Companhia das Letras, da Record e da Todavia.

Edival Lourenço é autor do premiado “Naqueles Morros Depois da Chuva”| Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Edival Lourenço

“Estação do Cio”. Poemas. Goiânia: Publicação independente, 1984.

“Publiquei o primeiro livro por conta própria. Eu morava em Iporá e trabalhava na Caixa Econômica Federal. Lá, eu comecei a conversar com meus clientes, os pequenos empresários da cidade. Cada um contribuiu com um pouquinho. Eu mesmo fui à gráfica, mandei imprimir e, depois, fiz a distribuição dos livros. Foi uma alegria enorme. Quem escreve tem quase uma obsessão para ver sua obra publicada. Senti-me realizado. Naquela época, ainda não havia lei de incentivo. Ainda hoje é difícil, porque a lei exige um tempo de atividade, uma experiência que o escritor estreante muitas vezes não tem como provar. No entanto, acredito que os livros, sendo um bem de utilidade pública, devem ser bancados pela sociedade. A publicação independente é um dinheiro que vai e não volta.”

Edival Lourenço, secretário da Cultural do governo de Goiás, é autor de dois romances consagrados “Centopeia de Neon” e “Naqueles Morros Depois da Chuva”. Este ganhou prêmio nacional, o Jabuti.

Valdivino Braz está escrevendo um livro no estilo de Finnegans Wake | Euler de França Belém/Jornal Opção

Valdivino Braz

“Cavaleiro do Sol”. Contos. Goiânia: Oriente, 1977.

“É preciso publicar o primeiro livro para entender o ofício literário. É o ponto de partida para refletir sobre a obra, para ver como o escritor irá consolidar seu estilo. Eu publiquei o primeiro livro com minhas próprias economias, cerca de 8.000 cruzeiros da época. Distribui da forma que pude, fiz um lançamento em uma livraria com sessão de autógrafos e foi isso. Meus primeiros livros ainda estavam verdes, ao longo do tempo desenvolvi esse jeito sarcástico, mordaz… Eu tenho um lado agnóstico provocante, de chocar cristãos e canibais, esse é o meu estilo: eu gosto de brincar com a linguagem, a própria história fica em segundo plano. Digo que ‘Deus saiu de férias e não sabe quando volta’. O sofrimento humano sempre me importunou. Para mim, escrever é questionar”.

“Cavaleiro do Sol”, o livro de estreia, foi composto em linotipo, em 1977, com o selo da pioneira Editora Oriente, dos irmãos José e Taylor Oriente, em Goiânia. A capa da obra foi criação de Laerte Araújo, baseado em pedido do autor, e se preserva para futura edição, revista e ampliada com alguns contos de mesma época, então publicados pela imprensa goiana.” Valdivio Braz frisa que “‘Cavaleiro do Sol’ finca no solo do tempo o marco de seus 42 anos”.

“Por iniciativa de Olavo Tormin, do Bazar Oió, foram enviados, na época, dez exemplares do livro a uma biblioteca ou instituição cultural (falha-me a memória) nos Estados Unidos. Dias depois, Tormin chamou-me ao seu escritório e mostrou-me um pedido de mais dez exemplares do livro. Foi a glória! (rs)”, conta, divertido, Valdivino Braz.

Valdivino Braz contou ao Jornal Opção na quarta-feira, 15, que está escrevendo um livro no estilo de “Finnegans Wake”, de James Joyce. “Trata-se de um livro gigante, que está me dando um trabalho extraordinário, mas a obra está em construção. Há prosa, há poesia, um verdadeiro mix — inclusive com vários estrangeirismos e ao menos uma personagem mitológica. O livro vai me matar? Não sei, mas quero conclui-lo.” E riu, com aquele riso contido, espremido, que, uma vez liberado, contribui para realçar seus olhos de um azul do mares profundos. O livro “O Gado de Deus” contém parte da obra em construção e é tão bem escrito quanto inventivo — lembrando tanto Joyce quanto Faulkner.

Aos 76 anos, recuperando-se de alguns problemas de saúde, Valdivino Braz afirma que acreditava que havia sido abandonado pela musa. “Mas, de repente, voltei a escrever poesia, sobretudo sobre a infância.”

Ademir Luiz, presidente da UBE-GO: historiador, escritor e crítico literário e de cinema | Arquivo Pessoal

Ademir Luiz

“Hirudo Medicinallis”. Romance. Goiânia: Instituto Goiano do Livro (IGL), 2002.

“Dizem que todos os bons poetas rasgam os versos escritos na juventude. Os maus poetas os publicam.  Eu nem rasguei, nem publiquei. Tudo o que escrevi e desenhei está devidamente guardado. É não há nenhum verso. Exatamente como Henry James, jamais escrevi um verso. Apenas prosa. Tenho alguns contos e dois romances inéditos e que devem permanecer inéditos.  O último deles tem por volta de 400 páginas escritas a mão, em sobras de cadernos de escola. Escrevi essas páginas nos anos finais da adolescência. Com 20 anos desisti de produzir textos exageradamente inspirados em influências, do cinema e da literatura, e acredito que achei minha voz narrativa. Ao longo de quatro anos escrevi meu primeiro romance ‘Hirudo Medicinallis’. Trata-se do nome científico da sanguessuga. Esse livro é focado em uma tribo urbana que usa a estética dos vampiros. É uma mistura de narrativa pop, ensaio e experiência estética. Com esse livro ganhei o prêmio literário Cora Coralina de 2002. O livro foi publicado pelo IGL.”

“Depois fiquei sabendo que o livro foi defendido na banca julgadora do concurso pelo escritor Edival Lourenço.  Não o conhecia na época.  Por isso o considero meu padrinho literário. No ano seguinte publiquei um livro de contos ‘Pequenas Estórias da Grande História’, uma série de narrativas bastante inspiradas no escritor argentino Jorge Luis Borges. O foco geral são pontos de vistas diferentes para eventos históricos importantes. Depois disso passei anos me dedicando à carreira acadêmica e à produção de ensaios críticos e literários na imprensa. Apenas em 2013, inspirado pelas manifestações de rua que tomaram conta do Brasil, resolvi voltar à literatura. Escrevi ‘Fogo de junho’, que pretende ser um romance de geração. Com ele ganhei a edição 2014 da Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos,  o prêmio literário mais antigo do Brasil. Atualmente,  depois de publicar um romance gráfico, ‘Conclave’, ilustrado por Rafael Campos Rocha, estou planejando um novo romance. Pretende ser a segunda da parte de uma trilogia sobre o Brasil, sendo ‘Fogo de Junho’ a primeira parte.”.

Doutor em História, Ademir Luiz é professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG). Ele escreve crítica literária e de cinema para o Jornal Opção.

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