Publicada este ano pela editora gaúcha Dublinense, a primeira obra do escritor angolano a entrar no mercado brasileiro conta a história  desta Maria do título, numa estrutura que lembra um romance epistolar

Ricardo Adolfo: autor coloca o leitor para se familiarizar com os horrores da parte decadente de um Portugal que ainda vive os resquícios de crise econômica

Ricardo Silva
Especial para o Jornal Opção

A Baikal é uma arma de extremo impacto, que atinge seu alvo e o dilacera instantaneamente. Arma de caça, pode derrubar grandes alvos sem a menor dificuldade. E se ficar cara a cara com alguém, é capaz dessa pessoa perder completamente sua dignidade ao implorar por sua própria vida. Baikal é sinônimo de avassalamento sem limites, não há estratégia possível que a possa conter. Sem contar um fato inusitado: a arma é de uma estrutura belíssima, com seus duplos canos destruidores.

Beleza e capacidade destrutiva. Dois elementos que facilmente podem ser utilizados para falar da Baikal, como também encaixam-se perfeitamente na descrição de Maria, a protagonista-narradora de “Maria dos Canos Serrados”, este romance-acontecimento escrito por Ricardo Adolfo.

Publicada este ano pela editora gaúcha Dublinense, esta é a primeira obra do escritor angolano a entrar no mercado brasileiro. “Maria dos Canos Serrados” conta a história de desta Maria do título, numa estrutura que lembra um romance epistolar — ao mesmo tempo que não se pode classificá-lo tão facilmente assim. Nas cartas/mensagens em que narra os percursos da própria vida, Maria se comunica com seu amante, o “gigolô suburbano”, um michê que atende senhoras turistas nos arredores de Lisboa e que é a razão do arrebatamento sentimental da protagonista, que vê nele a expressão acabada do seu amor mais irracional.

Maria transita e nos apresenta o lado menos nobre e “europeu” de Portugal: suas amizades situam-se entre prostitutas, michês, ladrões, traficantes e figuras com limites morais e éticos mais flexíveis. Ela trabalha numa empresa, conduzida por uma empresária ausente e esquiva que usa o mais fino estratagema retórico para ludibriar seus funcionários e lhes faltar com os pagamentos devidos ao final de cada mês. Ainda assim, Maria alimenta a esperança de um dia ser diretora nesta empresa, que porém vai à falência devido a picaretice da empresária e en­tra numa gre­ve, na qual ela irá participar mes­mo que não compreenda muito bem o papel que pode desempenhar ali.

A protagonista de Adolfo é atravessada por um desejo sexual sem limites e despudorado, que se expressa na sua linguagem pulsante. Apaixonada por seu “velhinho”, como chama o seu ausente amante, por armas e violência, Maria é uma explosão tal qual a Baikal, arma que “só pode ter sido criada à nossa imagem e semelhança”.

Profundamente autocentrada, querendo que o universo gire e conspire para si, Maria narra seu percurso existencial no plural, referindo a si mesma com um “nós”, indicando essa multiplicidade da personagem capaz de estar e ser várias, a depender do que cada ambiente exige.

O escritor António Lobo talvez tenha resumido de forma adequada o trabalho de Ricardo Adolfo: “Uma maneira de falar completamente nova na literatura portuguesa”. Isso vindo de um dos maiores nomes vivos da literatura lusa é muito significativo como símbolo da leitura de uma geração sobre a outra. Aliás, os elogios são inúmeros: para Valter Hugo Mãe, “a nova literatura portuguesa passa obrigatoriamente” pelo trabalho de Adolfo. E outro gigante não se contém ao falar da obra do jovem escritor: “Ricardo Adolfo observa o seu país com feroz e acutilante ironia”, diz José Eduardo Agualusa. E para reforçar, digo: todos eles estão completamente certos.

O livro de Adolfo tem uma estrutura complexa de jogos de linguagem, em que brinca com a linguagem oral, a embute na retórica da sua narradora e permite uma corrente de acontecimentos em fluxo contínuo sem com que a experiência da leitura debande ou oscile. O ritmo e a cadência da sua escrita é constante, verborrágico. A ambientação dos seus personagens, a forma como vai montando o cenário para as cenas sem que a estrutura se comprometa revela um escritor muito ciente do ofício. É uma obra viva, pulsante, que faz malabares com o português falado nos subúrbios, onde há essa amálgama da comunicação amorosa, afetiva, da situação de crise econômica europeia, que desemboca nessa costura intertextual corpulenta de linhas ágeis e musculosas que fazem a língua — idioma e órgão — vibrar.

Suas inspirações podem se identificar em diversas fontes, tão discrepantes entre si quanto semelhantes: da feitura cuidadosa da coloquialidade que desafia o registro formal da língua e explora suas possibilidades mais orgânicas, em exercícios de escrita que lembram o trabalho de Guima­rães Rosa e James Joyce, até esse seu humor muito descarado e marginal, borbulhando referências e atravessado por uma violência aos moldes de um filme de Quentin Tarantino.

Nessa sua trama de humor e miséria, Ricardo Adolfo coloca o leitor para se familiarizar com os horrores da parte decadente de um Portugal que ainda vive os resquícios da crise econômica que avassalou a Europa, minando-a de pobreza, desemprego e desequilíbrio social. Esses também são alvos da mira das críticas de Adolfo.

Os personagens guardam muita das críticas que se afiam no esmeril da realidade: empresárias picaretas, sindicalistas que guardam em si aquele jeitinho capitalista de operar no mundo, putas apaixonadas, grávidas fumantes e alcoólatras, e Maria, essa gaja lisboeta que munida da sua caçadeira Baikal enfrenta o mundo e quer fazer justiça com as próprias mãos.

Maria é a representação potente da anti-heroína, com sua ética mui­to peculiar, com sua retórica arrebatadora, seu amor violento e abusivo, ao mesmo tempo que terno e meio estúpido, e seu humor galhofeiro que nos arranca risadas das situações mais surreais possíveis.

O romance também pode ser tratado como uma investigação do abandono amoroso. O pano de fundo de todos os acontecimentos da trama é a comunicação entre Maria e o seu “velhinho”. É para ele que ela conta todas as peripécias de sua vida, e é também a ele que confessa suas mais intensas saudades. “Fode-nos muito sentir tanto tua falta”, ela diz. Seu amante é ausente, relapso, sempre preocupado em estar às voltas com suas clientes, deixando Maria em segundo plano, numa constante espera. A protagonista, mesmo que muito dona de si, está sempre a procura e à espera do — para usar uma expressão de Roland Barthes — objeto do amor. A forma que Adolfo estrutura essa relação entre os dois, que é imiscuída de ódio e raiva também, faz com que o desequilíbrio, os arroubos de ciúmes, as ausências, as molestações — que no romance é um sinônimo para sexo —, acabem por se tornar também as colunas que sedimentam todo base da trama. É esse sentimento confuso, que se molda numa moral muito idiossincrática, que vai permitir todo o desenrolar da narrativa.

Transitando entre ambientes kafkianos e tarantinescos com esse trato magistral da língua — o domínio de Ricardo Adolfo da última flor do Lácio é assombroso! —, é uma injustiça que “Maria dos Canos Serrados” tenha passado despercebido pela crítica e público brasileiros, já que o romance merece figurar entre os grandes lançamentos do ano, porque também se situa entre essas raras obras capazes de promover revoluções nessa tão milenar arte de contar histórias.