A consciência e as imagens em Proust, do ponto de vista de Walter Benjamin

Nenhum texto literário é mais tecido do que o do autor de “Em Busca do Tempo Perdido” e da forma mais densa; para ele nada era suficientemente intenso e duradouro

Carlos Russo Jr.

A primeira imagem que nos vem à mente quando temos em mãos “Em Busca do Tempo Perdido” é o de uma realidade impossível: nela, as absorções do místico na arte do prosador, da verve num autor satírico, do saber num escritor altamente erudito se mesclam na incrível concentração de um sujeito monomaníaco. Como resultado disso tudo, temos uma monumental obra semiautobiográfica.

Em Proust nada tem conformidade, tudo excede a norma.

De uma maneira geral, todas as grandes obras literárias ou inauguram um gênero determinado ou o ultrapassam, criando novos caminhos, outras veredas. “Em Busca do Tempo Perdido” é um trabalho praticamente impossível de ser classificável, pois o que nos espera é uma estrutura absolutamente não convencional, fora das medidas, que conjuga o poético e o lírico, a memorialística e o comentário, concretizando-os numa sintaxe de parágrafos torrenciais, nos quais uma única frase apropria-se de uma página inteira.

Agora deixemos que nossos olhos alcancem o escritor, o que, de certa forma nos levam a Marcel, o narrador do livro. Chegaremos a uma imagem das condições objetivas e subjetivas do autor, que serviram de fundamento para uma das maiores obras literárias de todos os tempos. Uma doença insólita, uma riqueza incomum e uma disposição anormal serão os alicerces objetivos. Como diria Walter Benjamin “se nem tudo na vida é modelar, tudo é exemplar”. Proust é um exemplo sem modelos.

Marcel Proust assumidamente não descreveu em sua obra uma vida que de fato tenha sido vivida, mas uma vida “lembrada por quem a viveu”, ou o que seria ainda melhor: o tecido da recordação de um ser que não é já o próprio, graças à multiplicidade de seus diferentes eus no decorrer do tempo. A outro Marcel ocorrem, então, as reminiscências de um eu que se transformou.

E para realizar sua obra o escritor transformou os dias em noites e as dedicou todas ao trabalho sem qualquer interrupção, num quarto escuro, isolado por cortiça. Somente ele e a luz artificial, no afã de não permitir que qualquer de suas recordações se perdesse pelos caminhos que a memória involuntária lhe franqueasse.

Disse Jean Cocteau, um crítico que com ele privou, que a cadência de sua escrita obedecia às leis da noite e do mel, vencendo a tristeza sem consolo de uma vida interior. Relata que descortinou nos olhos do autor a imagem de um anseio cego por felicidade, insensata, febril. Não como duvidar-se de que Proust gozou, dentro de seu desencanto absoluto, da enorme felicidade inserida nos muros de um mundo encantado, aquele universo que ele recriará a partir de suas próprias recordações.

Marcel Proust é autor de “Em Busca do Tempo Perdido”, espécie de romance-civilização | Foto: Reprodução

Se a palavra “texto” significava para os romanos aquilo que se tece, nenhum texto literário é mais tecido que o de Proust e da forma mais densa, mesmo porque para ele nada era suficientemente intenso e duradouro.

Quando lhe enviavam provas tipográficas para revisão das parcelas de “Em Busca do Tempo Perdido”, editadas enquanto vivia, as margens voltavam totalmente escritas, novas páginas eram coladas às originais com material novo. Assim, a lei do esquecimento se exercia também no interior da obra, dado que, se um acontecimento vivido é finito, o lembrado não tem limites na medida em que é apenas uma chave para o que veio antes e para o que surgirá depois.

Ou seja, é a reminiscência que preenche a textura. A unidade do texto estará no ato puro da própria recordação e não na pessoa do autor e, muito menos, na ação. Em todas as mais de quatro mil páginas de “Em Busca do Tempo Perdido”, com exceção dos curtos deslocamentos realizados numa pequena estrada de ferro, dos folguedos que as “raparigas em flor” realizavam com suas bicicletas na orla da praia, dos passeios em carro alugado que Marcel realizava com Albertine, temos uma ausência quase absoluta de ações.

Esse trabalho absolutamente original nos provoca uma imagem da obra proustiana: a de que toda a interpretação do mundo vivido ocorre a partir do sonho. Portas imperceptíveis a ele nos conduzem, “como uma casa que possua dois quartos que se comunicam”, sendo um deles o do sonho e o outro do ser desperto. A similaridade entre os seres, a que estamos acostumados em estado de vigília, é apenas um reflexo impreciso da semelhança mais profunda que reina no mundo dos sonhos, em que os acontecimentos nunca são idênticos, mas de uma maneira hermética, semelhantes entre si.

Walter Benjamin, filósofo alemão: “Pela segunda vez ergueu-se um andaime como o de Michelangelo, sobre o qual o artista, com a cabeça inclinada, pintava a criação do mundo no teto da Capela Sistina: o leito de enfermo no qual Marcel Proust cobriu com sua letra as incontáveis páginas que ele dedicou à criação de seu microcosmo”

E isso ocorre porque Proust sempre abandona o Eu Concreto pela Imagem do Eu, o que saciava sua curiosidade, sua nostalgia, dado que para ele o próprio rosto quando a luz do dia irrompe revela-se surreal, na justa medida em que surrealista era todo o seu próprio viver.

Somente Proust fez do século 19 um século para memorialistas. O que antes dele era uma simples época desprovida de tensões converteu-se num campo de forças.

Nos últimos anos de sua vida de salão, Proust desenvolveu os vícios da lisonja e da curiosidade em graus “teológicos”. Seus personagens, tal qual tão bem observou Ortega y Gasset, têm uma existência que podemos chamar de vegetativa, pois eles, tal como as árvores, “aderem-se tenazmente ao seu torrão social”. E será a partir da imagem do ciclo social que ele frequentara e da necessidade de emprestar uma roupagem “aceitável” para o próprio homossexualismo, que o autor utilizará as metáforas mimetizadoras de insetos, de flores, de folhas, de galhos e até de batidas de asas.

Ora, a problemática dos indivíduos que serviram de modelo para Proust, principalmente ele mesmo, provia de uma sociedade saturada e decadente. E é nesse sentido que eles são subversivos, pois se fosse possível reuni-los numa fórmula, num partido único, poderíamos dizer que seu foco é a reconstrução de toda a estrutura da alta sociedade sob a forma de uma fisiologia da tagarelice.

Disse Quint que, pelo riso, Proust não suprime o mundo, mas o derruba no chão, correndo o risco de rompê-lo em pedaços, “diante dos quais será o primeiro a chorar”. O perigoso e ao mesmo tempo divino gênio cômico do autor de “Em busca do tempo perdido” destrói um a um todos os preconceitos e máximas daquela sociedade decadente do final do século 19. Num mundo que estava em frangalhos: a unidade da família e da personalidade se foram, a honra formal se evaporara e o homossexualismo masculino saía do porão.

As pretensões da burguesia não perdem por esperar. Proust destrói seus disfarces, as imagens sociais que ela tenta plantar são todas despedaçadas pelo tremendo gênio cômico desse autor ímpar. Sem medo de errar, podemos afirmar que a fuga dos burgueses em direção ao passado e a sua assimilação psíquica pela nobreza decadente é o próprio tema sociológico do livro.

Benjamin afirma que “as dez mil pessoas da classe alta eram para Proust um clã de criminosos, uma quadrilha de conspiradores, com a qual nenhuma outra poderia comparar-se”, pois formavam a “camorra dos consumidores”. Proust exclui desse mundo decadente todos os que participavam da produção e quando necessário exige que eles dissimulem sua própria tendência a consumir.

A análise proustiana do esnobismo, muito mais importante que sua apoteose da arte, é o ponto alto da crítica social. E a atitude do esnobe não é outra coisa que a contemplação da vida coerente, organizada e militante, do ponto de vista puro do consumidor. E o consumidor puro é o explorador puro! Para tanto, esses burgueses e aristocratas falidos devem dissimular integralmente sua base material em um feudalismo sem significado econômico, dado que todos os seus proventos e privilégios eram alicerçados nos meios financeiros, nas trapaças políticas e nas jogatinas das bolsas de valores.

Esse desiludido e implacável desmitificador do Eu, do amor, da moral, também desmitifica a classe econômica que o gerara exatamente em seu âmago: o consumismo! E como isso soa atual no século 21!

Proust nos convida a uma imagem da eternidade. Mas a eternidade que ele nos faz vislumbrar não é a de um Platão ou de um Spinoza, na medida em que se trata de um eterno sem um tempo infinito, mas que possui sim, um tempo entrecruzado. Entrecruzado entre as reminiscências da memória (o interior) e o envelhecimento (o exterior). Compreender a interação do envelhecimento e das reminiscências significa penetrar no âmago do coração proustiano, ou seja, o universo do tempo entrecruzado. “Em Busca do Tempo Perdido” é a obra da memória involuntária, uma força rejuvenescedora capaz de enfrentar o cruel envelhecimento.

Em sua reclusão Proust conseguiu, em torno de uma vida revivida, deixar que um mundo inteiro envelhecesse, galvanizando toda uma vida humana a um máximo de consciência. Pois, na essência, o procedimento de Proust não busca a reflexão, mas a consciência.

Ele está convencido de que não temos tempo para viver os verdadeiros dramas da existência que nos é destinada. Por esse motivo as rugas e dobras no rosto são inscrições deixadas pelas grandes paixões, pelos vícios, pela vida decorrida nas futilidades.

Existe ainda um aspecto que a obra de Proust também é possuidora de inegável importância: a solidão do ser humano, que arrasta o mundo em um turbilhão, sem se importar em absoluto com os recursos tecnológicos, como os meios de transporte, telefone, telégrafo que eram inventos explosivos em seu tempo, no sentido em que deveriam aproximar as pessoas. A tagarelice incomensuravelmente ruidosa, polifônica, é vazia como um rugido com o qual a sociedade se precipita no abismo das solidões individuais. Daí, por exemplo, as invectivas de Proust contra as amizades, pois elas pouco representam.

Em decorrência disso tudo os personagens de Proust muito raramente se tocam em todas as suas mais de quatro mil páginas. E na sua leitura, jamais conseguiremos penetrar como interlocutores, pois seu universo nos estará vedado: o leitor será penetrado e convidado exclusivamente a ler-se a si próprio!

Proust não nos acolhe; ele aborda a vida, dizia Rivière, sem o menor interesse metafísico, sem a menor tendência construtivista, sem a menor inclinação consoladora.

Sua doença, uma forma estranha de “asma nervosa”, penetrou em sua arte, se é que ela não foi responsável pela mesma. Sua sintaxe imita o ritmo das crises de falta de ar. A reflexão irônica, filosófica, didática, é uma maneira de recobrar o fôlego quando se liberta do peso de suas reminiscências.

A morte, que ele tinha eternamente presente, sobretudo quando escrevia sob a crise asfixiante, agiganta-se de importância em toda a tessitura da obra. É essa a morte que o acossava muito antes que sua enfermidade alcançasse um patamar crítico. Mas o certo é que todo o seu sofrimento e estoicismo estavam destinados a encontrar um lugar no grande processo da obra de arte, graças a um furor sem desejos e sem remorsos.

A última imagem que gostaríamos de compartir é aquela de Walter Benjamim, o primeiro tradutor para a língua alemã de “Em Busca do Tempo Perdido”: “Pela segunda vez ergueu-se um andaime como o de Michelangelo, sobre o qual o artista, com a cabeça inclinada, pintava a criação do mundo no teto da Capela Sistina: o leito de enfermo no qual Marcel Proust cobriu com sua letra as incontáveis páginas que ele dedicou à criação de seu microcosmo”.

Carlos Russo Jr. é crítico literário.

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luiz

Beleza! Me deu saudade da leitura inesquecivel que fiz da obra. Valeu