A busca da tradição em um trabalho de ourivesaria: o soneto

O cronista e historiador Matusalém Dias de Moura também pratica a trova e o haicai e é um versilibrista de verve e grande talento

João Carlos Taveira

Especial para o Jornal Opção

A forma soneto — do italiano “soneto”, pequena canção ou, literalmente, pequeno som — foi criada na primeira metade do século 13, na Sicília, onde era cantado na corte de Frederico II da mesma forma que as tradicionais baladas provençais. Alguns estudiosos atribuem a invenção do soneto a Jacopo da Lentini, poeta imperial siciliano. Esse tipo de poema surgiu como uma espécie de canção ou de letra escrita para música, e possuía, inicialmente, uma oitava e dois tercetos, com melodias diferentes.

Algum tempo depois, o soneto evoluiu até atingir sua forma fixa hoje conhecida, ou seja, um poema composto de quatorze versos, sendo dois quartetos e dois tercetos, com rimas ou não. Há, ainda, os que invertem a disposição estrófica e os que buscam a tradição do soneto inglês (três quartetos e um dístico), praticado no século 16 por William Shakespeare, e aqueles que cultuam o soneto monostrófico, que apresenta uma única estrofe de quatorze versos. Há, também, alguns poetas que o praticam em metros menores e até sem metro algum. O certo é que há, entre nós, exímios (es)cultores de versos decassilábicos e alexandrinos, conforme tradições italiana e ibérica.

Matusalém Dias de Moura: sonetista de primeira linha | Foto: Reprodução

No Brasil, praticamente todas as escolas literárias cultuaram e praticaram o soneto, a exemplo do período Barroco, com o imenso Gregório de Matos, do Classicismo, do Romantismo, do Parnasianismo, do Simbolismo, excetuando-se o início do período Modernista, que esculhambava o soneto com todas as forças e convicção nacionalista. A esculhambação virou moda. Somente a Geração de 45 veio resgatá-lo, com dignidade e o devido respeito. Hoje, por mais que tentem, os poetas contemporâneos que não tiveram a felicidade de estudar versificação nas escolas seguem a tradição de Oswald de Andrade, o menino rico que transgrediu a gramática e tinha como característica seguir a liberdade formal, representada pela utilização do verso livre, pelas formas de composição irregulares, muitas vezes destituídas de pontuação e principalmente de bom gosto. Por isso, alguns vivem repetindo, à exaustão, a ladainha dos modernistas de 1922… O que não leva a lugar nenhum.

Uma tradição artística ainda muito cativante

Com “Sonetos da Madrugada”, o poeta Matusalém Dias de Moura parece nos dizer que é preciso cuidar da forma e manter sempre viva a sua tradição, dentro da história cultural e artística do homem. O referido livro, publicado e lançado em 2020, em Vitória (ES), traz uma coleção de 101 sonetos decassilábicos (no sumário foi omitido “Devoção”, o primeiro deles), muitos dos quais foram publicados pelo autor na sua página do Facebook — e que já eram nossos velhos e amados conhecidos.

O impressionante é o fôlego do poeta capixaba, que transita entre o lirismo e o elegíaco com a mesma desenvoltura com que debruça sobre temas exclusivamente dedicados à arte de amar. Seus poemas são, na maioria, diálogos abertos com a mulher amada. Mas tudo escrito sem exibicionismo verbal, numa linguagem simples e palatável, que faz a perfeita comunicação com leitores de diversas formações, acadêmicas ou não.

“Feliz Natal!
Feliz Natal, a ti, querido irmão,
que levas pelo mundo a tua cruz,
sem maldizer a vida, rumo à Luz,
cumprindo com amor tua missão
de semear a paz e a comunhão,
num proceder que muito bem traduz
o “amai-vos uns aos outros” de Jesus,
ao servir sem pensar na gratidão.
Feliz Natal também aos perdedores,
aos fracos, infelizes, sofredores
que não têm mais, na vida, um ideal.
Em oração, meu Deus, Te peço, agora,
Tua bênção que anima e revigora
a paz dos filhos Teus, neste Natal.”

O cronista e historiador Matusalém Dias de Moura também pratica a trova e o haicai e é um versilibrista de verve e grande talento. Seus inúmeros livros publicados nesses gêneros todos atestam sua destreza estilística e estão aí para confirmar.

Editado pela editora Cousa, de Vitória, o livro “Sonetos da Madrugada” é uma obra de arte do ponto de vista gráfico. Ou seja, uma verdadeira maravilha para os olhos, que pousam como pássaros sobre a capa, e as mãos que tocam com deleite suas páginas tão bem diagramadas. Exemplo que devia ser seguido – mesmo por osmose – pelas editoras brasileiras, com relação aos livros de poesia.

Dados biográficos de Matusalém Dias de Moura

Poeta, cronista, contista, ensaísta e haicaísta, com trabalhos publicados em vários jornais e revistas. Nascido em 5/6/1959, na zona rural de Irupi, à época distrito do Município de Iúna (ES). É advogado e procurador de carreira da Assembleia Legislativa do Espírito Santo. Como político, foi vereador e presidente da Câmara Municipal de Iúna, em que exerceu as funções de líder da oposição e presidente da Comissão de Constituição e Justiça, tendo sido, também, relator-geral da primeira Lei Orgânica do Município de Iúna. No serviço público, foi assessor jurídico dos municípios de Ibatiba (ES) e Lajinha (MG); escrivão judiciário da Quarta Vara Criminal de Cariacica (ES) e secretário particular da Presidência da Assembleia Legislativa. Reconhecido maçom pelo Grande Oriente do Brasil, iniciou-se nos augustos mistérios da Sublime Ordem em 9 de junho de 1990, na Loja “Delta Maçônica Filhos de Luz e Virtude”, de Iúna (ES). Em 2000 recebeu da Câmara Municipal de Vitória o título de Cidadão Vitoriense.

Participou de várias antologias publicadas em nível nacional, entre as quais merecem destaque: “A Poesia Espírito-santense  no século XX”, organizada por Assis Brasil e publicada pela Editora Imago, RJ; “Escritos entre dois séculos” e “Alguns de nós”, ambas organizadas por Miguel Marvilla e publicadas pela Editora Flor e Cultura. É membro efetivo da Academia Espírito-santense de Letras (cadeira 34), da Academia Iunense de Letras (cadeira 26) e do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo. Como Membro Correspondente, pertence à Academia de Letras e Artes de Portugal – ALA, Academia Mineira de Letras, Academia Cachoeirense de Letras, Academia Pindamonhangabense de Letras e União Brasileira de Escritores/ RJ.

Obra publicada

“Menino de Cachoeirinha” (poemas), 1993;

“Varal Partido” (haikais), 1998;

“17 Poemas da Infância” (poemas) 1999;

“Vento Rasteiro” (haikais) 1999;

“O Silêncio dos Sinos” (poemas) 2000;

“Poemas do Caparaó” (poemas) 2000;

“Crônicas da Montanha e do Mar” (crônicas), 2006, (Prêmio Rubem Braga, da União Brasileira dos Escritores/RJ);

“Poemas Mínimos” (poemas) 2008;

“Minha Mãe Lavadeira” (poemas), 2008;

“Flagrantes da Rua” (crônicas) 2009;

“Pequenos Ensaios” (ensaios literários) 2009;

“Água de Nascente” (haikais) 2009;

“História da Criação e Instalação da Biblioteca Municipal de Iúna” (história) 2010;

“Alguma Coisa da Memória” (crônicas), 2011;

“Os Olhos de Lúcia e Outros Poemas de Amor” (poemas), 2011 (Prêmio Arnaldo Aizim, da União Brasileira de Escritores/RJ);

“Carta de Um Lavrador e Outros Poemas” (poemas), 2011;

“Grãos de Terra” (crônicas), 2012;

“Cantigas de Fim de Tarde” (trovas), 2013;

“Chuviscos na Vidraça” (aldravias) 2013;

“A Lua na Serra” (haikais), 2013;

“Poemas de Amor Imenso” (poemas), 2014;

“50 Poemas Escolhidos pelo Autor” (poemas), 2016;

“Sonetos”, 2016;

“Maio” (haikais), 2016;

“Haikais para Guilherme de Almeida” (haikais), 2017;

“44 Poemas Curtos” (poemas), 2017;

“Seleta de Trovas”, 2017;

“Sonetos Insones”, 2018;

“Entre Espinhos e Beija-Flores” (haikais), 2018;

“Córrego dos Coelhos” (poemas), 2018;

“Tempo de Enfermaria” (sonetos), 2018;

“Benquerença” (trovas) 2019;

“Sol a Pino” (poemas), 2019;

“Romanceiro da Vila” (poema), 2019;

“Subsídios para uma História de Iúna” (história), 2019;

“Sonetos da tarde amena”, 2020;

“Sonetos da madrugada”, 2020;

“A névoa, o menino e o embornal” (crônicas), 2020.

João Carlos Taveira é poeta e crítico, com alguns livros publicados. É colaborador do Jornal Opção.

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