Mariza Santana

Como manter uma biblioteca funcionando e seu acervo protegido durante o período de ocupação da cidade por inimigos de guerra? De fato, não é uma tarefa fácil, pois afinal um dos primeiros atos dos conquistadores é combater a disseminação de ideias libertárias e de resistência contra sua ocupação proibindo, eliminando ou queimando livros.

O romance “A Biblioteca de Paris”, da escritora norte-americana Janet Skeslien Charles se inspira em um fato histórico, a ocupação da capital francesa pelos alemães nazistas durante a Segunda Guerra Mundial (1940-1944), e em um estabelecimento real, a Biblioteca Americana de Paris, para narrar a luta dos funcionários visando que a biblioteca não fechasse as portas durante um dos períodos mais nefastos da história francesa e mundial.

No enredo, a protagonista é a bibliotecária francesa Odile Saucher que consegue o emprego dos sonhos no final dos anos 1930: trabalhar na Biblioteca Americana de Paris. Mas logo a situação se tornará adversa, com a deflagração da Segunda Guerra Mundial e a ocupação de Paris pelos inimigos alemães. Até mesmo trabalhar em uma biblioteca se tornará perigoso, ainda mais se uma das missões é entregar secretamente livros para sócios judeus, agora proibidos de frequentar a biblioteca que tanto amavam.

As agruras da guerra, a ida do irmão para o front de guerra e depois sua prisão, os desafios diários de sobreviver em uma cidade ocupada são relatados na obra. Ao mesmo tempo, capítulos nos apresentam a menina Lily, nos inícios dos anos 1980, moradora de uma cidade interiorana de Montana, nos Estados Unidos. Ao ficar órfã de mãe, ela inicia uma bela amizade com a vizinha Odile, já idosa e viúva.

O desenrolar da ocupação nazista em Paris e como isso afetou a vida de Odile e a levou a se mudar para os Estados Unidos, se entrelaça com as preocupações da jovem adolescente Lily, em um fio condutor que nos remete sempre à história e ao amor aos livros. Muitas são as citações dos livros preferidos por Odile, e me chamou a atenção a autora citar o romance “O Grande Inverno”, um clássico infantojuvenil de outra autora norte-americana, Laura Ingalls Wilder, que li durante minha adolescência. A obra relata a aventura de uma família de pioneiros na conquista do Oeste estadunidense.

E as referências a livros são inúmeras ao longo de “A Biblioteca de Paris”. Cito algumas, como essa reflexão de Odile: “Era por isso que eu lia: para vislumbrar outras vidas. Em outro trecho, a protagonista afirmou: Todos temos um livro que nos mudou para sempre. Que nos fazer saber que não estamos sozinhos”.

Biblioteca Americana em Paris | Foto: Reprodução

“A Biblioteca de Paris” é daqueles livros que a gente lê com prazer, percorrendo seus capítulos em busca do desenrolar dos acontecimentos. Vale também como declaração de amor aos livros (sentimento que compartilho) e como alerta de que devemos procurar não repetir os erros do passado, conhecendo os fatos históricos que afetaram a humanidade, como a ascensão do nazismo e do fascismo, o Holocausto. Nada mais atual para nos ajudar a refletir sobre a atual realidade brasileira, refém dos pensamentos extremistas e antidemocráticos.

Janet Skeslien Charles nasceu em Montana, Estados Unidos, em 1971. Seu primeiro romance, “Luar em Odessa”, foi traduzido para dez idiomas. Hoje divide seu tempo entre Montana e Paris.

Mariza Santana é jornalista e crítica literária.