A balada triste e solitária da escritora Carson McCullers

“Depois de ler Carson McCullers, dificilmente alguém com um mínimo de bom gosto literário poderá dizer que o conto é um gênero menor”, diz Caio Fernando Abreu

Ana Luíza Andrade

Todas as noites, uma delegação de operários forma uma procissão religiosa no fim do expediente tomando a fila para o café da sra. Amélia. Caminhando pela rua principal de uma cidadezinha lenta e miserável, os homens sustentam macacões e calça jeans desgastadas pelo tempo, parecem bronzeados de óleo diesel e mascam tabaco como moedores de cana. Uma gota negra escorre pelo queixo de um dos homens manchando a camisa branca de flanela fina de algodão. É a alegoria crua e escarrada do típico trabalhador abandonado em alguma “currutela” do sul norte-americano. Estamos em meados do século 20, entre a Grande Depressão e a Guerra Fria. Estamos dentro de um livro, comungando sobre um conto de Carson McCullers. Por aqui, há muita melancolia e solidão. No entanto, a típica recepção sulista mantém sua aparente cordialidade recepcionando-nos para mais este banquete literário. Estamos todos convidados para esta balada taciturna e extremamente humana. A autora tem voz e vai falar mais uma vez. Escuta: esse é o som gutural e sinistro dos pântanos.

A Balada do Café Triste” (José Olympio, 191 páginas, tradução de Caio Fernando Abreu) inaugura a composição sombria da grande obra de sete contos da escritora americana. Adentramos o universo de uma pacata cidade sulista, onde uma delegação de homens diariamente se reúne no café da sra. Amélia. Esses operários, completamente esquecidos e entregues à pobreza das cidades pequenas, estão conformados e, aparentemente, satisfeitos com a vida. Não há pressa, nada a ser esperado. Em meio à condição de excluídos, devem se sentir, particularmente, privilegiados. Afinal, eles nasceram brancos, são valentes e dispõem de grande saúde física para o labor. Além disso, o povoado funciona. Há uma igreja para passear aos domingos. Suas esposas e filhos estão em casa com algum assado preparado sobre a mesa. Os amigos, se é que se consideram amigos, se reúnem para jogar carteado até mais tarde. Roem milhos cozidos, usam rapé, contam estrelas. A vida é simples e trivialmente aceitável. Sobretudo: há sempre o café da sra. Amélia. A construção mais alta do centro da cidade.

Lá também pode ser encontrado o uísque mais famoso da região. É preciso destacar, sem qualquer falsa modéstia, as notas mágicas desta bebida destilada ricamente preparada pelas mãos vigorosas e másculas da anfitriã. Não se está falando de qualquer uísque. Os indivíduos estão apreciando um líquido que desce “limpo e penetrante na língua, e depois de bebido, continua a arder por dentro durante muito tempo”. Sem o uísque, possivelmente não haveria o café. Mas não é somente porque estamos perdidos e desolados no meio desta cidadezinha entediante que procuramos o estabelecimento da sra. Amélia. Ah, não! Lá, além do uísque e dos famosos jantares de galinha por apenas 20 centavos, há a presença divertida e alegre do homem mais popular entre a comunidade: o Primo Lymon. Um anão corcunda e mexeriqueiro que adora agitar os moradores colocando uns contra os outros. O que o Primo Lymon tem de ardiloso tem de querido. Ninguém pode negar que trouxe diversão para a cidade.

Carson McCullers viveu pouco e, no final da vida, escrevia com dificuldade | Foto: Reprodução

O confronto de Amélia e Marvin

Antes dele, o café não passava de um armazém onde os homens se reuniam na escada para bebericar antes de voltar para casa. Foi uma noite incomum aquela, quando um homem, que mais parecia uma criança, avançou na estrada em direção ao grupo. Lymon Willis estava sujo, magro e maltrapilho. Reclamou parentalidade à dona do lugar: eram primos e para provar a genética mostrou uma foto de péssima qualidade, na qual apareciam duas crianças que alegava serem suas mães. De repente, o corcunda chorava feito um bebê desamparado, pedindo em silêncio por abrigo. Os operários, que conheciam a personalidade impiedosa daquela mulher, aguardaram pelo momento em que o anão seria partido ao meio. Não foi o que aconteceu. Para o espanto geral e burburinho da cidade, a mulher dividiu seu cantil de uísque, chamou o homenzinho pra dentro e assim nasceu um café, fervido e coado pelo amor que despertava timidamente o duro coração da srta. Amélia pela primeira vez.

É sabido que a mulher havia sido casada. Mas por apenas dez dias e o casamento não havia sido consumado. O marido era o belo Marvin Macy, notoriamente conhecido por ser um mau caráter, aquele que “carregava consigo a orelha conservada em salmoura de um homem que havia matado numa briga a navalha”. Todos ficaram impressionados então, quando Marvin se endireitou por amor à srta. Amélia. Durante dois anos não se meteu em confusão, trabalhava honestamente e se esforçava para ser amável. Não se sabe por que cargas d’água a mulher aceitou aquela proposta de casamento. Tampouco é conhecido o motivo de Marvin ter sido enxotado de casa com apenas dez dias de matrimônio. O que se sabe é que a srta. Amélia, uma negociante implacável, ficou com todo o patrimônio de Marvin, que abandonou a cidade sem olhar para trás, deixando apenas uma louca e furiosa carta de amor para a ex-mulher.

Um dia voltaria. A justiça seria feita, prometeu. Para o alívio da srta. Amélia, Marvin foi preso logo em seguida, acusado de ter roubado três postos de gasolina e assaltado com uma espingarda os armazéns A&P de Society City. A verdade é que a cidade respirava aliviada sem Marvin. Ele havia perversamente arruinado a reputação de várias jovenzinhas intencionalmente e sempre arrumava uma briga por nada. Seus atos recentes provavam que ele continuava um homem ruim e nem mesmo sua mãe adotiva lamentava sua falta.

Carson McCullers: sua prosa descendia, em parte, da de William Faulkner, mas tinha o toque pessoal, de maneira firme | Foto: Reprodução

Portanto, podemos dizer que “aquele outono foi uma época feliz”. O café trazia vida a cidade. Todas as cores pareciam mais fortes e alegres desde que o Primo Lymon havia apaziguado o coração da srta. Amélia. Descrita como “uma mulher morena e alta, com ossos e músculos de homem. Apresenta os cabelos curtos, puxados para a nuca, o rosto queimado de sol exibe uma expressão tensa e selvagem”. Onde a srta. Amélia coloca suas mãos faz tudo prosperar. É a pessoa mais rica das redondezas e vê as pessoas com a única utilidade de lhes tirar dinheiro. Isso até o Primo Lymon começar a abanar suas pequenas orelhas. É claro, a mulher manteve sua dureza, continuava uma negociante nata. Mas agora parecia mais generosa, cobrava preços mais baixos e continuava prestando seus serviços “médicos”, atendendo a todos da cidade com seus unguentos e purgantes milagrosos, que testava em si mesma antes de aplicar aos pacientes.

Aquela felicidade não podia durar tanto. Era bom demais para ser verdade. Uma promessa do passado voltava agora para aterrorizar a vida da mulher mais respeitada da região. Marvin Macy voltava à cidade. O encontro de Macy com Primo Lymon foi ainda mais impressionante. “Foi um olhar especial que aconteceu entre eles, como o de dois criminosos que se reconhecem” à distância. Havia fascínio nos olhos do corcunda, que a todo instante queria estar ao lado do presidiário, fazia de tudo para lhe chamar atenção. Macy, por outro lado, o desprezava e sempre que podia lhe dava uma surra para aprender a lição. A srta. Amélia estava desgostosa e apenas suportava aquela circunstância inexplicável. Por quê?, a mulher questionava o anão. “Mas por quê?” Era simples. “Ele esteve em Atlanta” ou “Ele esteve na cadeia”, argumentava o Primo Lymon.

De nada adiantou a insatisfação da srta. Amélia. Parecia uma maldição: tudo que ela preparava para sabotá-lo se virava contra ela. “Todo o mal que você me desejar acontecerá a você mesma. Há! Há!”, provocava Marvin. Logo, o anão avisou que o criminoso ia morar com eles. O que mais podia acontecer? Aquela bomba estava prestes a explodir. A cidade apenas aguardava, silenciosamente. Não houve anúncio. Todos apenas souberam instintivamente o dia e a hora da luta. Nesse dia, a srta. Amélia cortou a corda do seu saco de pancadas, onde andava treinando diretos e cruzados para aliviar a raiva. O salão do café foi esvaziado para o confronto. As sete em ponto, a cidade se amontou no espaço para assistir ao espetáculo.

Carson McCullers (à direita), Marilyn Monroe (que foi casada com o dramaturgo Arthur Miller) e a escritora dinamarquesa Karen Blixen (Isak Dinesen) | Foto: Reprodução

“Como gatos selvagens”, a srta. Amélia e Marvin Macy “jogaram-se um sobre o outro. Ouviam-se o som de socos, resfolegar, pés arrastando no assoalho”. Era a hora da verdade e a srta. Amélia mostra-se mais forte. “Finalmente, ela derrubou-o e montou nele, com as mãos grandes e fortes apertando sua garganta.” Estava chegando o fim. A srta. Amélia estava prestes a vencer, quando, inesperadamente, o corcunda “saltou cruzando o ar como se tivesse asas” e “aterrissou sobre as costas largas” da mulher, “apertando-lhe a garganta com seus dedinhos em formas de garras”. O resto é confusão. A srta. Amélia ficou desacordada. Todo mundo se recolheu. Marvin Macy e o anão abandonaram juntos a cidade, deixando um rastro de destruição por onde passavam.

“Quebraram a pianota. Gravaram a navalha terríveis palavrões nas mesas do café. Derramaram um garrafão de mel por todo o chão da cozinha, quebraram os vidros de conserva. Foram ao pântano e destruíram completamente a destilaria, quebraram o novo condensador, em seguida atearam fogo à cabana.”

Espera, dor e tédio

Era o fim do amor, do uísque, do café, da única coisa realmente boa da cidade. Depois disso, qualquer produto passou a custar 1 dólar. Como médica. Amélia também mudou muito. Metade dos pacientes estava à beira da morte e para a outra metade recomendava tratamentos impossíveis e torturantes. A mulher deixou o cabelo crescer, ficarem brancos, seus músculos relaxaram. Ela mingou. Passou a ser como uma daquelas “solteironas magras e meio malucas”. Sua voz também tinha perdido o vigor, tinha ficado “quebrada, suave e triste como o lamento queixoso do órgão da igreja”.

Carson McCullers, muito doente, com o diretor de cinema John Huston, que adaptou uma de suas histórias para o cinema | Foto: Reprodução

Durante três anos, foi vista todas as noites sentada nos degraus em frente à casa. “Sozinha, silenciosa, olhando a estrada e esperando”. O corcunda nunca mais voltou. O boato que corre a boca larga é que Marvin Macy passou a utilizar o anão para saltar janelas e roubar. Também dizem que o presidiário vendeu o Primo Lymon para o circo. Quando a dor da srta. Amélia completou quatro anos, “ela chamou o carpinteiro e mandou-o colocar tábuas nas portas e janelas, e desde então, permanece fechada dentro de casa”.

Não são somente as pessoas, “a própria cidade é melancólica”. “Não se escuta mais o barulho das crianças, não há um bom uísque para ser apreciado, “não há absolutamente nada para fazer na cidade. A alma se deteriora com o tédio”. A única distração fica a 5 quilômetros do povoado. Lá, doze presidiários acorrentados pelo tornozelo batem na terra lamacenta com suas picaretas. Os criminosos cantam uma música “que toca o coração e faz estremecer de medo e êxtase quem as escuta”. Sete negros e cinco brancos, “apenas doze mortais que estão juntos” e dividem o mesmo lamento.

Gosto gótico de uma melancolia ameaçadora

Era 1951 — quando Carson McCullers deixou sua pesada bagagem sulista sobre a mesa de uma editora em Nova York. Nesse mesmo ano, a escritora de apenas 34 anos publicou “A Balada do Café Triste e Outras Histórias”. Os traços daquele rosto delicado, olhos de passarinho assustado e a boca fechando em bico — o cabelo liso à moda de Coco Chanel —, não poderiam denunciar a brutalidade seca e soturna de sua capacidade literária. Quem diria que de mãos tão delicadas podiam sair contos tão crus e ásperos? Não há um indicativo dessa herança sobre os pais. Lamar Smith era joalheiro e a mãe, Marguerite Waters Smith, também trabalhou no ramo antes do casal abrir a própria loja. O cérebro literário da escritora era poderoso, com uma rara capacidade de criar e imaginar.

Carson McCullers e seu marido, Reeves, que se matou | Foto: Reprodução

A veia artística da escritora, no entanto, sempre esteve entre seus dedos longos, finos e assertivos. Dedos de pianista, dedos capazes de datilografar música e ritmo poético. Sua biografia conta que aos 6 anos, Carson McCullers sentou-se ao piano e tocou com as duas mãos uma música que tinha ouvido em um filme. Aos 10, começou seus estudos sobre o instrumento e aos 13, sonhava em tornar-se uma pianista-concertista. Esse sonho frustrado pode ser observado em alguns contos da “Balada”.

Em “Wunderkind”, a memória da escritora se funde a uma jovem estudante de piano à beira de um colapso nervoso. Ela não é mais elogiada pelos professores como antigamente. Por outro lado, Heime, seu colega de estudos, brilha nos palcos com o violino. Debussy, Prokofiev, Brahms, algumas pecinhas de Schumann: nada parece surtir efeito aos ouvidos daquele velho professor. Suas notas não alcançam a profundidade das peças trágicas. O rosto encrespado de raiva de Bilderbach demonstra em alto e bom som que a menina, aparentemente, não tem mais o que ser desenvolvido. Esgotada, foge do estúdio — encerrando sua carreira, no exato instante em que a escritora cumpre seu trabalho, mostrando uma saída para a crise de identidade.

Já em “Madame Zilensky e o Rei da Finlândia” nos deparamos com o chefe do departamento de música da Universidade de Ryder, conhecido como mr. Brook. Ele é o responsável por trazer a professora Madame Zilensky, uma exímia compositora que irá ministrar aulas aos seus alunos. Isso até mr. Brook juntar as peças e perceber que as histórias fantásticas da mulher não passavam de invenções descaradas. Ela era uma mentirosa patológica e não existia nenhum rei da Finlândia — que Madame Zilensky jurava ter conhecido. Quando o homem decidiu confrontar a professora, sentiu uma súbita compaixão por aqueles olhos aterrorizados de medo. Madame Zilensky inventava um duplo, porque toda sua vida se resumia apenas à música.

Carson McCullers: histórias impactantes sobre a estranheza do ser humano, mas às vezes com redenção | Foto: Reprodução

Todos esses personagens trazem um estranho e amargo gosto gótico de uma melancolia ameaçadora. São estranhos, verdadeiros outsiders, não podem se encaixar em parte alguma.

Continuemos na busca da herança literária de Carson McCullers: é preciso destacar que sua escola, assim como a de Flannery O’Connor, foi alimentada pelo estilo de William Faulkner, narrador do Sul profundo. Ademais, o que aqueles dois olhos pequenos de Carson McCullers viram durante a infância na Geórgia? O cenário deve ser parecido à denúncia fotográfica de Dorothea Lange. No fundo, podemos imaginar a voz arranhada de Billie Holiday, o grito gutural que emerge da colheita na música “Strange Fruit”.

Miséria. Depressão. A melancolia do silêncio dos pântanos. O tratamento reservado aos negros. Tudo isso está presente em carne viva em seus contos. Sua bagagem é densa, povoada de memórias violentas e nebulosas. Sua escrita, na terceira pessoa, apenas observa, à distância. Como uma criança aterrorizada que tudo viu e se manteve em silêncio até desatar o laço da garganta.

Esses são os eleitos de Carson McCullers: a especialista do grotesco. Rejeitados, alcoólatras, deficientes físicos, homossexuais, adolescentes-tomboys, negros e forasteiros sem rumo. Os outsiders. As pessoas sem voz.

O piano literário de Carson McCullers

Com a alma repleta de música, Carson McCullers escreve como se tocasse piano. Em seu ritmo de compasso, é possível escutar a melodia de uma marcha fúnebre, que narra a solidão do homem comum, o cotidiano tedioso e simples das pessoas que procuram incessantemente pela emoção da vida. Cuidadosamente é como a escritora escolhe suas notas. A melodia elegante flutua calma como um rio caudaloso e plano, é a profundidade dessa água que ora ou outra nos arrasta para abismos de um suspense iminente e instigante. Mergulhamos na história. Navegamos junto à escritora, observando cada passo daquelas pessoas tão reais e palpáveis.

Carson McCullers e o dramaturgo Tennessee Williams | Foto: Reprodução

A brutalidade desses personagens, no entanto, também perpassa a humanidade dentro de cada um de nós. O amor, o ciúme, a inveja, o rancor e a vingança também estão lá. A verdadeira magia, então, acontece quando Carson McCullers propõe a compaixão e a união como a solução para os conflitos emocionais.

No conto “O Transeunte”, John Ferris volta à sua cidade natal para o enterro do pai e reencontra a ex-mulher, Elizabeth, que está alegremente integrada ao ambiente familiar. Casada e com dois filhos, Elizabeth inspira a inveja e a competição de Ferris, que trabalha muito, apenas namora e não dá a devida atenção ao enteado. Ao invés de mergulhar em sua cupidez, Ferris resolve o problema voltando a Paris com planos de se casar com Jeannine e prometendo ao enteado, Valentim, mais passeios.

No conto “Um dilema doméstico”, encontramos Martin, um marido cansado e ultrajado pelo alcoolismo da esposa, que desconta suas frustrações nos filhos, colocando a saúde deles em perigo. Várias vezes ao dia, Martin pensa em abandoná-la. Está cansado do problema. Mas no fim, deita-se ao lado da mulher, abraçando-a amavelmente. Ainda há esperança — redenção — no coração de Martin e da escritora.

Ciência oculta no amor

“Uma árvore, uma rocha, uma nuvem” encerra magistralmente o livro com a promessa de derrubar lágrimas nos leitores mais sensíveis e recentemente separados. Um velho bebe no bar e captura um adolescente que entrega jornais pela cidade. Ao interpelá-lo, o velho inesperadamente diz que o ama. O garoto confuso tenta fugir, mas não consegue escapar da narrativa do homem. “Eu confesso, filho, que me embebedei. Trepei. Cometi todos os pecados que de repente cruzaram o meu caminho. Tenho vergonha de confessar tudo assim, mas preciso fazer isso. Quando lembro aquele tempo que foi como um pântano na minha cabeça, acho tudo horrível.”

O velho, sem nome, foi abandonado pela mulher. Trocado por outro homem e deixado às traças para lidar com sua própria solidão. De seu luto, o velho descobriu uma ciência oculta no amor.

“Agora escute com cuidado. Meditei muito sobre o amor e cheguei a uma conclusão. Entendi o que há de errado com a gente”, explicou o velho. “Eles começam pelo fim errado do amor. Eles começam pelo clímax”, disse. “Filho, você sabe como o amor deveria começar? Uma árvore, uma rocha, uma nuvem. […] Durante seis anos, andei por aí desenvolvendo minha técnica. Agora sou um mestre, filho. Eu posso amar qualquer coisa. Nem preciso pensar do que se trata. Vejo uma rua cheia de gente e uma linda luz surge dentro de mim. Vejo um pássaro no céu. Ou encontro um viajante na estrada. Todas as coisas, filho. E todo mundo. Todos os desconhecidos, todos amados.”

O velho vai embora. O garoto, atordoado, questiona Leo, o dono do bar, se o homem estaria bêbado. Só um bêbado parece ser capaz de expor sua humilhação e falar sobre o amor de maneira tão aberta. Leo responde convicto que não. O velho não estava bêbado, nem drogado e tampouco era louco. A única explicação plausível para Leo é que “ele parece um homem muito viajado”. É preciso caminhar muito pela vida até aprendermos a amar tudo e todos.

Carson McCullers parece ter vivido o suficiente para escrever isso com apenas 34 anos. Seu casamento com Reeves McCullers, que também sonhava em ser escritor, terminou com o alcoolismo frustrado por parte de Reeves, que se suicidou. A saúde da autora também inspirava preocupação. Sofreu de febre reumática e alcoolismo.

Após a publicação de “A Balada do Café Triste”, a profícua colega do dramaturgo Tennessee Williams, reconhecida notoriamente por “O Coração é um Caçador Solitário” (Companhia das Letras, 456 páginas, tradução de Sonia Moreira), publicou outros três livros em um período de três anos. Foi quando o lado esquerdo de seu corpo também paralisou.

“Quero ser capaz de continuar a escrever, doente ou com a saúde, até porque a minha saúde depende em absoluto de continuar a escrever. Os médicos decidiram que é preciso amputar a minha perna afetada. Só não o fizeram de imediato porque os hospitais estão cheios. É por isso que todas as noites, quando me sento a escrever, amaldiçoo os médicos por me fazerem esperar e amaldiçoo a minha perna por me doer tanto”, lamentava Carson McCullers.

A escritora até 1967, quando completou 50 anos. No fim de sua vida, escrevia com apenas um dos dedos na máquina, “coisa que só conseguia fazer deitada e com terríveis dores”, relata Caio Fernando Abreu, o tradutor do livro. Que assim como um dos personagens de Carson McCullers, era um tipo estranho, um outsider romântico e melancólico, que adorava abraçar os excluídos e desajustados em seus contos.

“Depois de ler estas sete histórias de Carson McCullers, dificilmente alguém com um mínimo de bom gosto literário poderá dizer que o conto é um gênero menor”, postula Caio Fernando Abreu. O escritor está certo. Carson McCullers é grande, crua e surpreendente. Com compaixão e amor, ela entrelaça suas mãos aos dos personagens, que emergem das páginas alcançando os leitores em uma perfeita comunhão protestante, digna dos domingos litúrgicos, onde tudo deve ser perdoado.

Aqui encontramos as grandes refeições sulistas, os aligátores enterrados sob os pântanos, as moscas dormindo sobre os rostos quentes dos operários, os alcoólatras silenciosos repletos de saudade no coração, as mulheres mais masculinas, os homens mais reprimidos, os negros relegados à cozinha, o frio das sonatas noturnas, as estrelas mais brilhantes do céu. Sempre fomos e sempre estaremos solitários. Todos juntos, em uníssono. É por isso que não estamos sós. Essa é a grande lição da literatura de Carson McCullers.

Cinema e Vanessa Redgrave

O conto “A Balada do Café Triste” foi levado ao cinema pelo diretor Simon Callow — com os atores Vanessa Redgrave (Amélia) e Keith Carradine (Marvin).

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