A “arte” da falsificação

Em Goiás, apesar de não haver registros recentes, diversos episódios de fraude de obras de arte já causaram ruidosa repercussão entre marchands e colecionadores. Especialistas comentam o assunto, permeado pela subjetividade e controvérsia

À esquerda, tela do artista plástico Marcelo Solá (“Sem nome”, misto sobre cartão, 2014) à venda por R$ 24 mil; à direita, quadro de Sando Gos (“Amarelo”, misto sobre tela, 2017)

Marília Noleto

Wolfgang Beltracchi era um ilustre desconhecido por trás de nomes como Picasso, Vermeer, Rembrandt e Da Vinci. Durante 40 anos, o pintor alemão ludibriou o mercado mundial da Arte, falsificando e vendendo quadros como se fossem de grandes artistas do século 20. As quase 300 telas fraudadas, a princípio para pagar as despesas da família, lhe renderam fortuna, prisão e, por último, a fama, já que Beltracchi passou a viver das próprias pinceladas. O maior escândalo de fraude artística do período pós-Guerra acabou indo parar nos cinemas, sendo contado no documentário “A Arte da Falsificação”, de Arne Birkenstock, ao qual se faz referência no título desta matéria. O quê de anti-herói e o ar meio rebelde impregna a história de Beltracchi com um certo glamour. Mas a bem da verdade, a falsificação é um problema que há muito tempo assola o campo da Artes Plásticas, normalmente tendo como alvo grandes nomes e obras. Em Goiás, tanto a Polícia Civil como a Secretaria de Segurança Pública não possuem estatísticas sobre este tipo específico de ocorrência. Apesar de não haver registros recentes, diversos episódios já provocaram ruidosa repercussão entre artistas, marchands e colecionadores.

Com ajuda do Google, nem é preciso muito esforço para constatar essa situação. No site Mercado Livre, há por exemplo telas atribuídas a Antônio Poteiro e Siron Franco. “Original! Oportunidade”, diz um anúncio de oferta de uma serigrafia por R$ 2,5 mil. Alguns casos, como os que envolveram o próprio Siron e o pintor e escultor Cleber Gouvêa, chegaram a parar na polícia. O assunto veio à tona após ser abordado pelo ex-superintendente de Cultura da Seduce, o produtor cultural e galerista PX Silveira, em entrevista publicada na edição do dia 8 de julho do Jornal Opção. Entre vários casos, PX relembrou uma história que ouviu do próprio Poteiro, por ocasião da escrita do livro “Poteiro na Primeira Pessoa” [Editora Kelps, 2011]. “Poteiro conta: ‘um dia eu fui convidado para almoçar na casa de um delegado que vivia me convidando e eu vivia falando que não ia, mas esse delegado era bom demais. Aí eu fui. Cheguei lá ele quis me mostrar um quadro que ele tinha meu na parede que era o orgulho da família, mulher, filhos. ‘Olha, eu tenho um Poteiro aqui’. Quando o Poteiro foi ver o quadro, bateu o olho e viu que era falsificado. Eu perguntei ‘e aí, Poteiro?’. E ele: ‘bom, eu não falei nada, deixei ele comemorar e saí de lá sem falar que era falso’.

Segundo especialistas, a morte de Poteiro no ano de 2010 acarretou uma onda de falsificações de obras do artista, muitas delas grosseiras. “No caso do Poteiro, estão fazendo gravura post mortem. Cada gravura dele tem um bom preço, a partir de R$ 1,2 mil, com uma tiragem de 100, geralmente varia de R$ 1 mil a R$ 1,5 mil. Estão fazendo agora gravura post mortem em que junto com a gravura imprimem a assinatura. Quem não conhece pensa que é uma gravura do Poteiro. Mas não, é uma impressão que leva também a assinatura. Porque geralmente o artista pinta e depois assina na parte de baixo, coloca o número da tiragem. Estão fotografando e fazendo isso. E você acha nas melhores lojas. Não sei se é porque o pessoal é enganado ou se está enganando”, reflete PX.

Outro artista que foi vítima de falsificação foi pintor e escultor Cleber Gouvêa. A denúncia foi feita pela viúva de Cleber, Ilda Marra de Jesus. O fato acabou indo parar na Delegacia Estadual de Repressão a Crimes Contra o Consumidor (Decon), que na época chegou a emitir mandado de busca e apreensão de obras em uma galeria de Goiânia. “Cleber Gouvêa era muito criterioso. Antes de produzir, deixava tudo anotado em cadernos: desenhos, traços, cores. Houve um ajudante dele no ateliê, um tal de Adão, que, ao ser, despedido, brigou com o Cleber e levou algumas destas anotações que continham obras que haviam sido projetadas, mas nunca feitas. Esse Adão também era um profundo conhecedor da técnica desenvolvida por Cleber, muito particular, de pintura automotiva sobre telas e superfícies duras, como madeira. Também havia assemblagens, colagens e veladuras. Era uma técnica perfeita!”, relembra PX.

Adão passou a pintar e assinar as próprias telas, mas com a mesmíssima técnica de Cleber. As obras eram comercializadas sobretudo em Brasília, onde Cleber possuía um público cativo. “Resultado: o Cleber ficou tão desgostoso que ele parou de pintar e foi mexer com mineração. Foi atrás de minas de ouro! Só depois de muito tempo, ele voltou a pintar, mas isto o abalou profundamente.”

Solá X Gos

Marcelo Solá: “Pessoa que não tem talento próprio não vai chegar a lugar nenhum”

Em sua entrevista ao Opção, PX Silveira relatou uma outra situação envolvendo o pintor Marcelo Solá que, segundo o galerista, estaria vivendo num “limbo” entre o que seria uma falsificação e o que seria uma imitação, por parte de um artista que se autodenomina Sando Gos, mas cujo nome verdadeiro seria Odom. “Odom é um personagem interessante. É um caso psicológico para observarmos e tirarmos várias conclusões. Ele imitava Poteiro. Tem talento. É barbudão, tinha aquela barba do Poteiro, só que preta, porque é muito jovem. Ele imitava o Poteiro com uma perfeição. Fazia coisas muito mais bonitas do que o Poteiro fazia. Aquelas esculturas, ele fazia com a técnica melhor. Poteiro nunca se preocupou com técnica, o negócio era a expressão. Odom não, termina a coisa, faz um acabamento, fica mais bonito. No entanto, ele assinava Odom. Ninguém podia falar que era uma coisa falsa. Seria uma influência, uma homenagem, uma cópia, mas não era uma falsificação”, relata PX.

Depois de passar oito anos imitando o Poteiro na escultura e na tela, Odom teria mudado de foco: encarnou no Solá e adotou o nome Sando Gos. “Ele faz as coisas do Solá que você olha e fala ‘puxa! Solá’. Você vai ver é Sando Gos. Chegou ao cúmulo da Casa Cor de 2016 ter no salão principal vários Sando Gos. Como também tem a Molduraria Minuto, ao lado da P de Pizza. Uma vez estacionei lá e falei ‘esse cara tem tanto Marcelo Solá’. Quando fui ver era tudo Sando Gos. E ele está entrando agora no Rio de Janeiro e São Paulo. Marcelo está vivendo um inferno astral com isso. E ele não sabe o que fazer. Não pode denunciar, não é caso de polícia. Onde fica a criatividade?”, questiona PX Silveira.

A matéria foi mostrada a Sando Gos que, a pedido da reportagem, se manifestou sobre as declarações. Ele afirmou que PX Silveira foi “muito infeliz” em suas colocações. “É uma reação muito pessoal da visão que ele teve. Se você for aprofundar dentro do trabalho que eu faço, não tem nada de Solá. E o Solá também não é esse Deus criador de tudo. Que eu saiba, é um cara trabalhador e que também está trilhando seu caminho. Há muita coisa para ser criada ainda e este é o meu papel. Criando a minha história, criando meu trabalho”, defendeu-se Gos.

O artista alegou ainda que a reapropriação de técnicas e linguagens é uma praxe nas Artes Plásticas, citando como exemplo o caso de uma artista que desenvolveu estilo próprio após ter se inspirado em Andy Warhol no início da carreira. “Solá e eu não seríamos os primeiros a ser alvo de comparação”, justifica. Sando Gos conclui afirmando que a opinião de quem o acusa de produzir cópias lhe é indiferente. “Quem me compra trabalhos e mata a fome das minhas filhas e da minha esposa, não me fala nada desta relação com o Solá. Eu tenho que me preocupar com quem compra meu trabalho e não com quem só olha e fica criticando.”

Sando Gos com tela ao fundo: “Estou criando a minha história, meu trabalho”

Já Marcelo Solá, que estaria sendo vítima do suposto plágio, não mediu palavras para comentar o caso. “Esse indivíduo está agindo de má-fé. Já conhecemos a fama dele; seu interesse é puramente comercial. Ele não respeita o trabalho de ninguém. Ele já andou copiando o Poteiro e agora está copiando todo o conteúdo que levei mais de 20 anos para produzir. Se fosse algo honesto, ele faria um trabalho próprio”, reclama Solá, que alega também estar sofrendo perseguição. “Ele entrou no Facebook e adicionou todos os meus amigos. Fica me espionando nas redes sociais e mandando convite para as pessoas que curtem meu trabalho. Tenho vários relatos de que ele já tentou contato com várias galerias que trabalham comigo e colecionadores no Brasil e no exterior. No entanto, ninguém respeita isso, porque é uma fraude. Uma pessoa que não tem talento próprio não vai chegar a lugar nenhum.”

Nada se cria

A falsificação de obras de arte é uma prática deletéria que fere a legislação brasileira que trata de direitos autorais e prejudica todo um circuito composto por criadores, marchands e colecionadores. A proteção do direito autoral no Brasil é garantida pela Constituição Federal em seu artigo 5º, parágrafos 27 e 28, bem como pelo Código Civil Brasileiro e pela Lei 9.610/98. O crime de violação de direitos autorais só existe quando há provas de que o acusado teve a intenção de lucrar com a ilegalidade. Neste caso, o artigo 184, parágrafo 2º, do Código Penal, prevê penas de detenção de três meses a um ano, ou multa para quem, no intuito de lucro, “distribui, vende, expõe à venda, aluga, introduz no país, adquire, oculta, tem em depósito original ou cópia de obra intelectual sem a expressa autorização dos titulares dos direitos ou de quem os represente”.

A falsificação ocorre quando um produto tenta se passar pelo original, com um preço menor e qualidade em geral muito inferior. Nesse caso, configura-se não só crime de propriedade intelectual, mas também estelionato, uma vez que o consumidor está sendo enganado. Trocando em miúdos, o comprador da tela falsificada acaba levando “gato por lebre” na ânsia de obter uma obra de arte por um preço bastante abaixo do mercado. Isso acontece quando o produto adquire uma “aura” de especial que faz com que ele seja vendido muitas vezes acima do custo. Assim é possível aos falsificadores fabricarem um produto com qualidade similar e vendê-lo a um preço muito menor. Por exemplo, uma bolsa da Luis Vuitton pode custar uns R$ 14 mil ou mais nas lojas.

Produtor cultural, galerista e ex-superintendente da Seduce, PX Silveira, sobre falsificação de obras de artistas goianos, pergunta: “Onde fica a criatividade?”

No entanto, há situações mais sutis, que resvalam em aspectos que fogem a qualquer possibilidade de fiscalização. A questão da autenticidade no campo das Artes Plásticas rende uma discussão bem mais complexa, uma vez que os critérios para se definir o que é cópia/plágio ou inspiração ficam limitados à interpretação de cada observador. Não há, nas Artes Plásticas, critério para se definir cada uma das situações, ao contrário do que acontece na Música, na qual se aplica a regra dos oito compassos: caso sejam ultrapassados oito compassos idênticos ao original, considera-se que houve plágio.

“É um território sem parâmetros, sem mapeamento. É muito subjetivo: você olha para uma tela e lembra de outros artistas. Mas as misturas e influências são totalmente aceitáveis. Ninguém inventada nada. O crítico Ático Vilas-Boas da Mota dizia ‘se copia de um, todos ficam sabendo. Tem que copiar de cem’ (risos). É aquela história: nada se cria. As pessoas associam coisas que ficam diferentes; isso é a inovação. O que não é aceitável é quando um artista é cópia descarada do outro e só não pode ser acusado de falsificador por que não usa a assinatura do outro; utiliza a própria assinatura”, explica PX Silveira.

Na avaliação do artista plástico Alexandre Liah, a prática tem sido bastante corriqueira com o subterfugio da “releitura”. “A técnica existe para todo mundo e é a mesma desde sempre. Mas o estilo não se copia. E tem uma turminha de artistas por aí que deliberadamente está se apropriando do estilo de alguns pintores que já deixaram sua assinatura”, alfineta, no entanto, sem fazer qualquer referência a nomes. Por isso, Liah prefere nem mencionar quem seriam os mais plagiados. “Acho isso antiético, pois posso também estar incorrendo em um equívoco. Mas quem é familiarizado percebe. Pode até haver uma boa assimilação da técnica, mas sem a mesma aura”, justifica.

Artista plástico Alexandre Liah: artistas estariam fazendo cópia deliberada com argumento da “releitura”

Liah sugere a exigência do atestado de autenticidade como uma estratégia para coibir falsificações de objetos de arte. “A prática é relativamente simples e não onerosa, uma vez que ao artista ou galeria caberia apenas o registro fotográfico e a certificação registrada em cartório. Isso é muito comum em outros países, mas por aqui a prática ainda não é usual no meio”, afirma.

Na opinião do artista Marcelo Solá, mais do que falta de respeito com os verdadeiros criadores, a prática é criminosa. “As galerias que fazem isso não são sérias, são de segunda linha. Foi o caso de uma galeria em Brasília. Quem apoia esse tipo de coisa é tão pilantra quanto. É uma coisa que precisa ser erradicada. É uma prática que nunca vai ter o respeito de colecionadores, críticos de arte e gente importante. Isso é coisa de bandido!”, revolta-se.

7 respostas para “A “arte” da falsificação”

  1. Px silveira disse:

    Muito boa matéria. Parabéns Marília Noleto

  2. alessandraalvesteles disse:

    Acredito na autenticidade de cada artista e realmente tem gente que se intiluta artista e não passa de um exímio comerciante. Referência claro todos temos , mas daí pegar a história do artista , suas pesquisas e seus traços e fazer quase como pra mim é uma falta de respeito com ele próprio e com o artista plagiando. Eu não concordo ! Criatividade nem todos tem para criar agora pra copiar a Go pior ainda o grande lance é criar, mesmo que seja estudando uma técnica de algum artista . Temos um DNA artístico e isso é que deve valer. Eu jamais compraria uma obra falsa só se e não tivesse o conhecimento. Temos os direitos autorais pra isso.. . Parabéns PX pela matéria bem abordada.

  3. Antonio disse:

    Procure o Instituto Antonio Poteiro responsável pela história de Antonio Poteiro

  4. Antonio disse:

    Adorei a matéria e a importância de cuidar da nossa cultura. Obrigado Marília, PX, Sola e Liah.

  5. Nonatto Coelho disse:

    A questão da falsificação em arte não é simples de provar pois não é uma matemática com formas exatas, se trata de imitar estilo com formas que aproxima do trabalho que se quer imitar. Esse tal Sando Gois é um epíteto criado para disfarçar o nome de alguém que, em minha avaliação tem outras intenções suspeitas, no qual não consigo avaliar, mas não acho que tem interesses artísticos. A reportagem deveria ter envolvido outro plagiador de Marcelo Solá que trabalho em Goiânia, e que também faz uma imitação um pouco mais ilustrada, no entanto sem a alma do Solá.

  6. Excelente matéria, bom texto, muito oportuno. Sou artista plástico e tenho conhecimento do fato, e é bem por aí mesmo que a coisa anda… Valeu, Marília Noleto.

  7. Karolina disse:

    Estou chocada que não falaram dos corações da Kibon espalhados por Goiânia, inclusive em locais privados SEM AUTORIZAÇÃO, ou seja, um pixo da pior qualidade mesmo. E mais, o “artista” do coração ainda copia outros artistas também com a desculpa de “inspiração” e “admiração” e, claro, COMERCIALIZA a cópia…

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