300 anos da bandeira do Anhanguera

Em fins de julho de 1722, a expedição cruzou o rio Paranaiba, erguendo uma cruz, sem dúvida, para catequese e orientação do caminho

Por Luiz Estevam, especial para o Jornal Opção

O ano de 2022 carrega um significado histórico muito importante. Fazem 300 anos que a expedição paulista, comandada por Bartolomeu Bueno Filho, atravessou o rio Paranaiba, rascunhando o território de Goiás.

A terra era despovoada de migrantes, habitada somente por índios carajás, xavantes, tupis e principalmente caiapós. Tribos que, na língua geral, os bandeirantes denominavam goyases. Em tupi, goyaz significa “nação de irmãos, de uma raça só”.

O portal de entrada dos sertanistas foi na parte meridional do território, em local que ficou conhecido como Sítio do Catalão. Em seguida, o coroamento da expedição aconteceu em Santa Cruz, Vila Boa, Meia Ponte e Corumbá. Ou seja, os rastros da bandeira foram anotados e imortalizados. Depois do germe de povoamento em Catalão (1722), nasceram os arraiais da Barra (1726), Meia Ponte (1727), Ouro Fino (1728), Santana (1728) e Santa Cruz (1729).

Ao contrário de outras localidades, Catalão, Santa Cruz e Corumbá nunca mudaram de nome. O arraial da Barra virou Buenolândia, o arraial de Santana se tornou Vila Boa e posteriormente Cidade de Goiás. O arraial de Ouro Fino acabou sendo extinto e o arraial de Meia Ponte se tornou Pirenópolis.

Anhanguera Filho foi transformado em lenda de heroísmo e desbravamento. Mas, não foi o primeiro a ingressar nas matas e no cerrado de Goiás. Várias comitivas haviam cruzado pelo território no passado em busca de índios e pedras preciosas. Inclusive, a expedição de seu próprio pai, o velho Anhanguera, que aqui estivera em 1683, quando trouxe o filho com apenas 12 anos de idade.

A glória do lendário Bueno Filho foi a descoberta de ouro em Goiás. O itinerário que cumpriu, de São Paulo ao coração do território goiano, já era conhecido em mapas de aventureiros paulistas. Mas, o fato de haver encontrado jazidas de ouro, em diversos córregos, fez dele o grande sertanista da historiografia goiana.

Na época, o garimpo se dava na cata do ouro de aluvião, ou seja, ouro em pó que a natureza se encarregara de espalhar pelos córregos da colônia. Por isso, a bandeira do Anhanguera, que saíra de São Paulo em 03 de julho de 1722, estacionava em cada córrego de travessia procurando indícios do metal precioso. Nessa vagarosa jornada descobriram pequena jazida no Desemboque, região do alto Paranaiba, hoje Triângulo Mineiro, continuando a marcha em direção às terras dos goyases.

Em fins de julho de 1722, a expedição cruzou o rio Paranaiba, erguendo uma cruz, sem dúvida, para catequese e orientação do caminho.

As cruzes no sertão, na época das bandeiras, tinham significado religioso e topográfico. Serviam para disseminar a fé católica entre os gentios e também como marco de orientação. No caso do Anhanguera, a posição dos braços do cruzeiro apontava, na certa, o caminho trilhado e a direção do Porto Velho, local mais apropriado para travessia do rio.
Poucas léguas depois do Paranaiba, Bueno Filho destacou alguns membros da bandeira para ficar aguardando o seu retorno. No local não se encontrou ouro, mas era um ponto estratégico, adequado para cobrança de pedágio na trilha para São Paulo. A expedição, que contava com quase duzentos homens, deixou uma dezena deles naquele vale do ribeirão Pirapitinga. Entre os que ficaram, estava um padre beneditino português, além de alguns imigrantes europeus e poucos escravos.

A bandeira demorou quase três anos, embrenhada no coração do território dos goyases, registrando manchas de ouro em Santa Cruz, no rio Vermelho, nas margens do Meia Ponte e em tributários do rio Corumbá. No retorno a São Paulo, conduzindo ricas amostras do metal precioso, os sertanistas encontraram, no antigo portal de entrada, os companheiros que ali ficaram. Viram, com surpresa, que já haviam se estabelecido, em definitivo, na plantação de roças e no abastecimento.

Conta a tradição que o lugarejo esteve sob a proteção do bandeirante paulista Domingos do Prado, e sob o comando de um imigrante estrangeiro oriundo da Catalunha. O certo é que o local se tornou um ponto de pouso com o nome de Sítio do Catalão, conforme apontam documentos em 1736, por ocasião do assassinato de um militar no pequeno arraial.

Bartolomeu Bueno Filho conseguiu ser nomeado superintendente de todas as minas descobertas no território goiano. No entanto, perseguido por representantes da coroa portuguesa, sob pretexto de sonegação, acabou falecendo na pobreza, em 1740, em Vila Boa de Goyaz. A sua família ficou esquecida e passou a depender de pedágios, cobrados na travessia de rios, particularmente às margens do Corumbá, onde viveram descendentes do bandeirante no pequeno porto de Roncador.

Em menos de meio século de extração aurífera, veio a decadência. Não se explorou mais ouro de aluvião no território goiano. Os antigos arraiais viraram povoados fantasmas e os escravos foram realocados para atividades urbanas: construção de igrejas, sobrados, pavimentação e cercamento de propriedades.

O arraial do Catalão, por sua vez, com o término do fluxo de garimpeiros entre São Paulo e Goiás, ficou também relegado. Como marco da bandeira do Anhanguera, restou somente o cruzeiro, fincado no século XVIII, no município de Catalão.

Em 1916, entretanto, a grande cruz foi levada para a Cidade de Goiás, onde ficou exposta, em monumento próprio, por quase um século. Hoje a relíquia se encontra apoiada em uma parede do museu das bandeiras. Uma inestimável lembrança de 300 anos da bandeira do Anhanguera, embora historicamente fora do seu lugar.

Luiz estevam é doutor em Economia pela Unicamp, membro titular do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG) e da Sociedade Goiana de História da Agricultura (SGHA).

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.