28 nanocontos

 Por Geraldo Lima e Marcio Markendorf*

Especial para o Jornal Opção

House at Dusk, Edward Hopper, 1935, Virginia Museum of Fine Arts, Richmond, VA, US | Foto: Reprodução

Nanoconto é uma narrativa brevíssima, construída com no máximo duas linhas, e na qual se procura obter, conforme a escritora Graça Paulino “o máximo de expressividade com o mínimo de recursos”. Em gênero ficcional, de caráter minimalista, as informações sobre “onde”, “quando” e “quem” do acontecimento nem sempre são fornecidas, exigindo, portanto, um engajamento maior por parte do leitor ou da leitora durante o processo de leitura. Ou seja: a figura de quem lê é fundamental na construção final do texto.  

O exemplo clássico de nanoconto é este, intitulado “O dinossauro”, de autoria do escritor guatemalteco Augusto Monterroso: “Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá”. Percebam que, embora breve e conciso, encerra expressiva narratividade e produz, no leitor, um efeito de profundo estranhamento. Afinal, por conta da abertura do texto, muitas perguntas podem ser lançadas acerca do incidente narrado por Monterroso e há variadas respostas diferentes. Segundo o escritor Marcelo Spalding, brevidade, concisão, narratividade e efeito são alguns dos elementos essenciais para que um texto possa ser considerado um miniconto, ou, no nosso caso aqui, um nanoconto. 

Nesta edição do Opção Cultural, reunimos alguns autores e algumas autoras, do Brasil e de outros países, que têm produzido nanonarrativas e procurado publicá-las usando suportes e mídias alternativas ao livro físico. Aproveitando-se do vertiginoso fluxo de conteúdo digital da web, escritores/as de nanoficção usam as redes sociais, como Instagram, Twitter, Facebook etc., para apresentar seus trabalhos literários a um público leitor cada vez mais conectado nas mídias e tomado pelo excesso de informação. 

O conjunto de nanocontos publicado aqui mostra o quanto de abordagens temáticas diferentes é possível desenvolver com uma estrutura narrativa tão reduzida. O humor, muitas vezes obtido com o uso da paródia, e o drama, seja da violência doméstica ou das ruas, somam-se ao fantástico, ao mistério, ao erótico etc., convidando os leitores a percorrerem, num curto espaço de tempo, essas veredas surpreendentes da nanoliteratura.

CÃO

Ele cria cachorros com muito amor e carinho e bate na mulher. Outro dia, a xingou de cadela.

DIABETES

Eu sempre gostei de você, meu doce.

[HÉLVERTON BAIANO, BA]    

EXPIAÇÃO

Matou a família e foi ao culto.

FAVOR LER ANTES DE PERGUNTAR

Vendo Chevette Tubarão, R$50.000, cadáver incluso, fantasma ocasional.

[HERMES VERA, CE]

SEGUNDA ONDA

O país tomou um caldo.

FIM DA LINHA

– Essa é a última estação, senhora. Senhora? Senhora!

[MARCIO MARKENDORF, RS]  

Era hora de dar um salto na vida. Escolheu a janela do 10° andar.

WORKAHOLIC

A cama entrou com o divórcio. Incompatibilidade de agendas.

[SAMIR MESQUITA, PR]

MÉTRICA

O eu-lírico se perdeu no poema. Só o acharam algumas quadras depois.

PSICOSE

Tanto tempo no chuveiro e já pensando: a conta vai ser uma facada.

  [ANDRÉ RICARDO AGUIAR, PB]

FETICHE

Para bom entendedor, uma meia basta.

NUA

A fantasia mais ousada era tirar aquela máscara.

[IZABELA DROZDOWSKA-BROERING, POLÔNIA]

SOPA DE LETRINHAS

Já cmi a mtde.

GUERRA URBANA

Aviãozinho foi abatido em pleno voo

[ADRIANO SALVI, PR]

ZUMBIS

Quando o sinal tocou, todos acordaram.

ROTINA

Por falta de carta, o cão cochilou.

[CAMILA LOURENÇO, SC]

SURRA

Foi apanhar uma flor. Apanhou.

ESCRITOR

– O que foi?

– Estou passando por uma frase difícil.

[DANIEL VIANA, MG]

DETALHES

Vende-se vestido de noiva usado, ideal para reformar. Pequeno rasgo e mancha de sangue no abdome.

CONJUGAL

Minha mãe sempre caía da escada quando papai bebia.

[D. CELESTINO, SP] 

Caiu da escada e foi para o andar de cima.

Deixou por escrito: me cremem. Não vou a enterros, nem morto.                                                 

[ADRIENNE MYRTES, PE]

PARTIDA

Meus olhos empapados assim que vi minha filha partir para a universidade. Ao menos seu cadáver servirá aos estudantes de medicina.

PROJEÇÃO

“Eu odeio todas, todas!”, disse ela antes de dar meia volta e sair correndo da casa de espelhos.

  [ALESSANDRA BARCELAR, SP]

MAGIA

– Sou uma bruxa, te transformarei em sapo! 

Não se conteve, beijou-a na boca. E foram felizes para sempre.

ESTRATÉGIA

Pela décima vez, serviu-lhe um copo de suco com uma pitadinha de ódio dentro. 

[GERALDO LIMA, GO]

O GRANDE ROUBO

Quando acordou, nem mesmo o dinossauro estava lá.

COLEÇÃO

Para que você quer tanta faca, Jack?

[GABRIEL RAMOS, MÉXICO]

*Geraldo Lima é escritor, dramaturgo e roteirista; Marcio Markendorf é escritor e professor universitário.

Uma resposta para “28 nanocontos”

  1. Cacilda Neves da Silva disse:

    Adorei todos os títulos. Fantásticos.

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