Mariza Santana

“Escrever sim, é perder-me, mas todos se perdem, porque tudo é perda. Porém, eu perco-me sem alegria, não como o rio na foz para que nasceu incógnito, mas como o lago feito na praia pela maré alta, e cuja água sumida nunca mais regressa ao mar.” — Fernando Pessoa

“Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa.” Este é o trecho do “Livro do Desassossego”, entre outros tantos fragmentos de textos reunidos nessa obra póstuma do poeta e escritor português Fernando Pessoa, que mais me marcou na leitura dessa obra centenária (os fragmentos foram escritos entre 1913 e 1935, portanto em um momento turbulento do século XX, abrangendo a Primeira Guerra Mundial e os anos seguintes ao conflito, que já anunciavam a Segunda Guerra Mundial).

Pode-se dizer que a escrita de Fernando Pessoa é uma poesia em prosa, ou uma prosa poética. Nos fragmentos, ele trata as palavras com propriedade para exprimir o mal-estar de sua geração em relação à civilização ocidental, colocando como porta-voz um personagem criado por ele — Bernardo Soares, o guarda-livros da rua Douradores, em Lisboa. Se Fernando Pessoa vivesse atualmente, na época da internet e das redes sociais, esses fragmentos de textos facilmente poderiam compor um blog, expressando a angústia diante dos avanços da ciência e da sociedade, que não são capazes de evitar as guerras e as carnificinas movidas por líderes ambiciosos por território ou poder (e o conflito sem sentido na Ucrânia, que se arrasta há mais de um ano, é só um exemplo).

A nova edição do “Livro do Desassossego”, lançada pela Editora Companhia das Letras, tem organização do americano Richard Zenith, autor de “Pessoa — Uma biografia”, e posfácio da crítica literária brasileira Leyla Perrone-Moisés, que nos ajuda a situar historicamente os textos e as influências desse grande poeta, um dos intelectuais mais importantes da língua portuguesa. Mas ler a obra não é tarefa para os fracos. Todo o desalento expressado por Bernardo Soares causa um desconforto, uma angústia. Não são sentimentos incomuns neste século XXI, quando recém-saídos de uma pandemia global que nos isolou e deprimiu por quase três anos, nos sentimos perdidos e em busca de um novo sentido para nossas vidas.

Mas Fernando Pessoa parece querer mesmo mexer com nossas emoções, apesar da distância do tempo, e mesmo que seus fragmentos de textos tenham sido escritos em pedaços de papel de embrulho de pão ou em guardanapos de bar, como confissões e anseios imediatos que exigiam vir logo ao mundo. Ele reforça: “Sim, repito, sou como um viajante que de repente se encontre numa vila estranha, sem saber como ali chegou.” E mais ainda, confessa: “Verifico que, tantas vezes alegre, tantas vezes contente, estou sempre triste.”

Embora com uma tristeza infinita (e às vezes um sentimento de tédio), ele não se furta a escrever com lirismo sobre Lisboa, o outono, as nuvens, o céu, a chuva e os populares que passam apressados pelas ruas da capital portuguesa. Em tudo há poesia, embora uma poesia melancólica. Pessoa relata como seu personagem (ou ele próprio) encara a vida: “Viver essa vida longe das emoções e dos pensamentos, só no pensamento das emoções e na emoção dos pensamentos.” Nada mais poético, não é mesmo? No fragmento 60, admite. “Se me perguntardes se sou feliz, responder-vos-ei que o não sou.”

No fragmento 80, denominado “Intervalo doloroso”, mas uma vez Fernando Pessoa ressalta seu mal-estar: “Tudo me cansa, mesmo que não me cansa. A minha alegria é tão dolorosa quanto a minha dor.” E como poeta que é, fala sobre o poema, que para ele “(…) é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso.” Em outro trecho, ele aborda novamente o ato de escrever: “As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias invisíveis, sensualidades incorporadas”.

A receita para o “Livro do Desassossego” é buscar lê-lo aos poucos, em pílulas, como se seus fragmentos fosse versículos de um livro sagrado escrito por apenas um homem, mas onde os textos contêm a melancolia de uma geração que até poderia ser a nossa, de tão semelhante ainda é. “Escrever sim, é perder-me, mas todos se perdem, porque tudo é perda. Porém, eu perco-me sem alegria, não como o rio na foz para que nasceu incógnito, mas como o lago feito na praia pela maré alta, e cuja água sumida nunca mais regressa ao mar.”

O autor fala da monotonia, além de questionar se é importante o que escreve. “Releio, lúcido, demoradamente, trecho a trecho tudo o que tenho escrito. E acho que tudo é nulo e mais valera que eu o não houvesse feito.” Aborda a religião com ceticismo, assim como cita a ciência com o mesmo sentimento. Eu poderia ficar aqui citando outros inúmeros trechos que me tocaram mais profundamente, porém essa resenha se tornaria um tratado. Por isso, para concluir, vou destacar apenas o texto “Marcha Fúnebre para o Rei Luís Segundo da Baviera”, que contém uma sensibilidade ímpar.

Vale lembrar que esse monarca, apelidado de Rei Cisne ou Rei de Contos de Fadas, foi quem mandou construir o castelo de Neuschwanstein, na região da Baviera, na Alemanha, um dos ícones da arquitetura alemã e um dos locais mais visitados pelos turistas naquele país europeus. Mas Luís II não sobreviveu para ver sua obra-prima concluída, pois foi encontrado morto em águas rasas perto de um lago. “O Livro do Desassossego” é, antes de tudo, como diz seu autor, uma declaração de amor à língua portuguesa.

Mariza Santana é jornalista e crítica literária. Email: [email protected]