17ª Arte Ambiental: um curta-metragem sobre o Fica 2015

Mesmo com programação reduzida, o festival “tirou o fôlego” daqueles que estiveram em Goiás

Yago Rodrigues Alvim

Já quase às nove horas da manhã, o ônibus pegava a estrada. Pro­dutores, imprensa e intérpretes saiam da capital goiana rumo à Cidade de Goiás. Na terça-feira mesmo, aprumaram algumas de suas roupas em cabides vazios de hotéis. A mochila levava agora caderneta e informativos para qualquer dúvida que surgisse ou coisa nova para guardar. Levava também, uma garrafinha d’água, até porque o tema bem ensinava: “O Desperdício Também Mata”.

Não diferente de qualquer edição anterior, o sol dourava a pele, se desprotegida de filtro solar, e ensopava as dobras do corpo e o couro cabeludo, não importava as condições — a não ser pelos louváveis condicionadores de ar. “Atípica” para um mês de agosto vilaboense, como disse a tia do restaurante, a noite fazia as vezes das tradicionais edições do festival de cinema dos meses de maio/junho com um frio de três “blusas anjo da guarda”.

Mas foi com o sol que a secretária de Educação, Cultura e Esporte, Raquel Teixeira, deu início às atividades do festival. Inaugurou lixeiras do pro­jeto sob o nome de Fica Limpo. Eram 70 espalhadas pela cidade que ajudavam, tanto quanto as garrafinhas, a evitar o desperdício, uma vez que muitas se destinavam à reciclagem. Apenas um trailer deu uma palhinha de cinema no dia de abertura do festival e, mesmo que único e breve, botou boas pulgas atrás da orelha do que viria a estatelar os olhos nas telas do Cinemão — único lugar em que os filmes foram exibidos, já que os demais passavam por reformas.

Abertura

Quem caminhasse até o Coreto, já nas proximidades, escutaria gritos de protesto. Alguns representantes explicavam a manifestação que o sr. vice-governador do estado goiano José Eliton chamaria de “legítima e democrática”. De uma pergunta boba, o professor a frente da manifestação que abarcava conclames da Univer­sidade Estadual de Goiás (UEG), Instituto Federal de Goiás (IFG), Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) e Sindicato dos Traba­lhadores nas Indústrias Urbanas de Goiás (STIUEG) explicou que a escolha da data, coincidente com a abertura do festival, nada mais era que uma oportunidade de captar a atenção da mídia para realidades conflitantes, talvez fora de pauta.

O auê foi gostoso para pensar na ironia que a vida carrega. Greves em universidades, estudantes sem moradia, privatizações, financiamento público de instituições privadas ecoavam, vez e outra, em meio ao som da Orquestra Jovem e de Marcelo Barra no Palácio Conde dos Arcos. Antes, o sr. vice-governador fez as honras ao anuciar o início da 17ª edição do Festival Internacional de Goiás (Fica).

Com sábias palavras, a secretária Raquel contou de seu orgulho na secretaria e criou a máxima: “Eu sou a secretária mais importante do governador Marconi Perillo, pois a Educação é o corpo e a Cultura é a alma de um governo”. E não foi só. Ela discorreu sobre boas novas em que vive o festival. É notável que apps de celulares e games fazem parte da realidade de qualquer cidadão. Levar tais tecnologias às escolas a fim de debates revelam o novo lugar que o mundo ocupa. O mundo está mesmo cada vez mais visual, sra. secretária.

A Orquestra goiana, Barra e muitas outras atrações musicais do Estado faziam jus à afirmativa que iniciava-se um festival internacional com muito orgulho do que é local. “Globalização é pensar o local com o internacional; é expandir e se conectar”, disse. Ali mesmo, já espantou os burburinhos que rondaram o Fica, “tem ou não tem?”. Teve sim e a promessa é que até as embaixadas internacionais se juntem às próximas edições.

Por fim, Raquel celebrou o festival que comemora 17 anos, “sempre com muita qualidade”. Assim, a Orquestra embalou o público e o verbo é esse mesmo, pois teve solos de guitarras com “Sweet Child of Mine” e a baladinha “Uptown Funk”, sem contar os convidados Nonato Mendes e Barra que cantou “She” e os versos típicos, como “Quando eu quero mais/Eu vou pra Goiás”. Há de se lembrar que os presentes acompanharam em coro o refrão de “Meu Araguaia”.

Dias seguintes

Às três da tarde, começaram as exibições do filmes da Mostra Com­petitiva que concorriam a troféus e prêmios. Cora Coralina, Carmo Bernardes, Jesco Von Puttkamer, Acary Passos, João Bennio, Petrillo, Bernardo Élis e Luiz Gonzaga Soares davam nomes às premiações, que traziam consigo quantias em dinheiro. Os jurados perambulavam pela cidade. Eram eles o pianista, cantor e compositor, o neto de Tom Jobim, Daniel Jobim; o jornalista e também produtor de cinema e vídeo Jaime Sautchuk; o cineasta e documentarista João Jardim; o pró-reitor de pós-graduação da Universidade Federal de Goiás (UFG), o professor e ambientalista José Alexandre Felizola Diniz Filho; e o sociólogo Nilo Sérgio Diniz.

“The E-Waste Tragedy”, de Cosima Dannortzer, abriu a exibição. O documentário fala do lixo eletrônico que, além da dificuldade de chegar ao destino correto e legal, são roubados nos pouquíssimos lugares propícios para seu descarte, e tem suas peças vendidas ao terceiro mundo. “Este grito de clamor é de ‘eu estou querendo sobreviver’”, dizia uma índia kaiowá guarani em “Índio Cidadão”, o segundo filme exibido. De Rodrigo Siqueira, que bem articulou a trama que envolve e de que fala o média-metragem, na mesa de Debates com cineastas do Fica — atividade que integrava a programação —, o filme fala do reconhecimento histórico pela população brasileira dos direitos dos índios. A terra, que lhes é tomada por latifundiários no Brasil, ganhava na fala da índia um novo sentido, pois seu pai, em resistência, foi morto e, agora, a manchava de sangue, mostrando ainda mais que pertencia e pertence a eles. “Aniz, a Bruxinha Aprendiz”, do goiano e animador Rodrigo Siqueira, encerrou a já quase-noite com certa magia.

“A Ria por Dentro”, da portuguesa Ana Maria Rodrigues, abriu a segunda exibição da Competitiva. De Alexandre Barcelos, “Últimos Refú­gios: Reserva Biológicas de Duas Bocas” foi o segundo filme, que ganhou, na manhã seguinte em meio ao debate, a voz de Ilka Westermeyer, uma das realizadoras da metragem. Ela alertava a mata que não era Amazônia, que era Espírito Santo (ES) e poucos a conheciam e que era preciso não mais evitar os danos do homem na natureza, mas sim diminuí-los enquanto há tempo.

A noite foi da Mostra ABD. O curtinha “Batalha das Máscaras”, de Iuri Araújo, animou a mostra. “Saudade da minha terra, eu tenho. Não tenho é vontade de voltar para lá, não. (…) Eu sou do tempo que se escrevia as cartas com a caligrafia caprichosamente linda. Eu sou do tempo de tantas coisas e que não existem mais”, narrava “A Vida de Cada Um”, do goiano Vasconcelos Neto. Noite ainda, um senhor que encontra um diamante no rio. Era a ficção “A Pedra”, de Adriana Rodrigues. Do caixão, os quase R$ 17 mil que lhe era “O Preço da Passagem”, de Ernesto Rheiboldt e Thomaz Magalhaes.

As filmagens, de quando trabalhava no terminal, compunham o filme de Ricardo Alvez, “”Dergo!”. Ranulfo Borges deu ao líder Iris Rezende a voz em “A Praça Falou Mais Alto”, que contava do comício das Diretas Já, em Goiânia. Três mulheres buscavam água na cidade mais próxima em “Sob Nossos Pés”, de Marcela Borela, Vinicius Berger e Henrique Borela.
Na quinta e sexta-feira seguintes, o ritmo era o mesmo. Cair da cama cedo, fosse para alguma oficina ou mostra infantil. Era bom se esbaldar de café, já que a última sessão, sem pipoca para constar, varava depois das dez, quase onze horas; fosse pela Mostra Paralela, com “Tudo Bem”, de Arnaldo Jabor, que abrilhantaria o Fórum de Cinema, no domingo, ou pela exibição de Lançamentos, como “Cartas de Amor São Ridículas”, de Alvarina Souza Silva — este citado, exibido na quarta-feira, 12.

Dentre as atividades, o Fórum de Meio Ambiente também se destaca pelo bate-papo sobre políticas ambientais, mudanças climáticas ou, por exemplo, a “financeirização” da natureza, como diziam o professor Ivo Polleto e o Frei Rodrigo Péret. No mais, minicursos de cinema e meio ambiente, laboratórios de roteiro, oficinas e exposições de meio ambiente e artísticas completavam a programação que, ainda que reduzida, tirava o fôlego para acompanhá-la e sequer era passível de conciliação a todas necessidades humanas, como sonecas, banhos e alimentação — vale nem dizer que o Morro do Macaco atiçava a noite que iria além ou mesmo a jukebox do Coreto; na certa, um todo que dizia que o Fica aconteceu, mesmo assim “do nada”, como pareciam para muitos por sua data incomum. E, dos trocadilhos, o Fica veio para ficar. 17 anos, não é mesmo?

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